sexta-feira, 6 de julho de 2012

Chuvinha...


É uma coisa da chuva. Num lance, olhamos ao redor e tudo chove. Tudo com cara de chuva, aquele acinzentadinho que risca a paisagem. E já sabemos do dia: da temperatura, da sensação, da lânguida atmosfera que nos cobrirá. Não me importo. Aliás, gosto até. A melancolia do cinza é particular, envolve os chuventes num arzinho de Impressionismo. Olhamos de novo e, de tão discreta a queda dos pingos, já não sabemos se chove, ou pura impressão. Uma pintura do dia. Continua chovendo. Misturam-se os tons, sobreposição de cinzas. Decompondo a paisagem, o que fica é a sensação da chuva. Dá tonalidades de humor ao céu, à paisagem, às gentes: nalguns, melancolia; noutros, acalento. Pra rimar, vem junto o vento. As horas demoram, pingando. Enquanto isso, a tarde espera por um bolo de mordida macia, massa clarinha, cheiro de visita em casa. Chá quente, que emoldure a conversa em volta da mesa da copa: a lembrança traz sossego, mansidão. Se estamos na rua, procuramos em volta, desejando uma confeitaria que tenha bolo pra comer em dia assim, feito hoje. Chuva, frente e verso. Por onde olhamos, tudo absorvido por riscos d´água. E nós. Chovendo dentro, mas chuva fina, de cair leve, só pra dar o tom do dia. Continuamos chovendo. O cinza-prata, pingando no dia, dá aos semblantes expressão perplexa, como se nunca tivesse chovido antes. Como se fosse grande novidade, a chuva. Gentes conversando no elevador, fazendo render o assunto do tempo. Guarda-chuvas e sombrinhas abrindo e fechando, respingando por tudo aquela sensação. Pode até ser que pare a chuva, mas o olhar do dia ainda nos adormece um pouco, como se fôssemos chover o dia todo. Não se trata de sensação de tempestade, que essa é bem outra coisa...Falamos em chuvinha, mesmo. Presente em cada frase, pensamento, diálogo, silêncio. Mais do que pura melancolia, vem aquela morosidade dos cinzas, do frio que vem junto, compondo cena única em nós. Lá no fundo, até gostamos.Sentimos falta quando se vai, e guardamos o tantinho da impressão de chuva fina, pra passar no céu. Quem sabe, amanhã.

Hoje, melhor fazer um bolo, que a tarde é longa...

Betina Mariante Cardoso




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