segunda-feira, 2 de julho de 2012

As delícias nos vidros de café

Na casa da praia da Vó Léia e do Vô Hélio havia milhares de encantos espalhados, mas a cozinha era meu favorito. A mesa retangular, generosa e convidadeira, contava um universo de histórias, de fábulas e de sabores, mas o que dava uma graça especial ao conjunto era o armário próximo à porta para a varanda. Em suas estantes, na parte superior, enfeites e guloseimas: ali moravam os potes de rapadura de leite, constantemente abastecidos pela Vó. Na parte inferior, duas portas abriam um território único, respirante. Ali, vidros de café, daqueles grandes com tampas vermelhas, guardavam geléias, chimias e compotas que ela fazia durante o veraneio.

Deixávamos para depois a idéia de pedir as receitas; tínhamos o propósito de ficar ao lado, quando o panelão estava no fogo, tomando nota do 'como-se-faz', mas sem muita obstinação. Afinal de contas, a Vó estava ali, e era a única que sabia o tim-tim por tim-tim do ponto, das cores, dos cheiros que seus feitos adquiriam em cada etapa. Então, tínhamos a fantasia de que ela estaria para sempre renovando as delícias nos vidros de café, com alquimias de abóbora, de laranja, de uva...Nossa imaginação percorria lonjuras no tempo, acreditando que o seu fazer dos doces seria perene. Agora, refletindo sobre por que não peguei nenhuma de suas receitas, por que não anotava cada detalhe, me ocorre que esta era uma forma de garantir que ela permaneceria no ofício, que eu poderia eternamente aprender com ela a fazer suas relíquias.

Hoje, só o móvel da cozinha, silenciado pelas portinhas, conhece o segredo daquelas inquilinas.

Betina Mariante Cardoso


4 comentários:

  1. Fiz agora, um emocionante passeio, uma viagem inesquecível no tempo: que maravilha era aquela 'generosa e convidadeira mesa'e que gostosuras guardavam aqueles vidros de café!...
    Um texto com o brilho e a beleza de uma joia rara.
    Não encontro palavras pra demonstrar por escrito toda beleza que está contida aqui. Parabéns!!!

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    1. Prima querida! Muito obrigada pelo teu comentário...Para mim, encontrar a representação destas emoções em palavras foi complexo, tantas são as memórias e sentimentos com a mesa, o armário, os doces nos vidros, os potes de rapaduras de leite...Tudo ali!!!Que bom poder compartilhar contigo estes relatos e lembranças! Beijos

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  2. Oi Be, revivi minha infancia com a sua história... minha avó Genovefa, tinha um armário destes, cheios de geléias, compotas,frutas cristalizadas... hmmm sinto até o aroma.

    Adoro ler teus textos, e amo cozinhar. Grande beijo amiga.

    patricia@santagps.com.br

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    1. Oi, Patrícia! Que ótimo receber tua visita, e é bárbaro saber que o texto despertou tuas memórias de infância! O prazer do blog é esta troca, a partilha que se cria através das leituras e vivências! Volta sempre!!!

      Vai em frente na escrita!

      Beijos!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina