quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Lógica da Cartografia

Um novo mês chega ao fim. Um mês em que escrevi (quase) todos os dias, chegando às 30 postagens na lista de julho. A bem da verdade, foi um desafio a que me propus, pois tenho convicção de que o treino sistemático é fundamental para a aquisição de habilidades. Esta 'convicção' se aplicava a muitos pontos de minha vida, menos à culinária e à exploração de novos locais, até então. Defendia  de modo ferrenho a ruptura do sistemático, do rigor, nestes campos. Pois foi isto que começou a mudar. Neste link, o Chef e blogger Michael Ruhlman explica a importância de se escrever todos os dias, na mesma hora do dia, um número semelhante de palavras (http://ruhlman.com/2009/04/on-food-writing/). Li e adorei o texto, vale a pena! Resolvi experimentar. A disciplina a um propósito, o foco, a necessidade de encontrar temas para a escrita diária: todos foram belos aprendizados neste meu interesse na escrita de forno e fogão. 

E eu, que adoro andar sem mapas e inventar receitas, passo a seguir traçados lineares e pragmáticos! Quem diria!!! Bom, algumas coisas mudaram nestes quatro meses de 'Serendipity in Cucina', e decidi me reinventar, depois de tanto defender o 'desenho livre'. Entre outras descobertas de mim, percebi que gosto de seguir à risca receitas, técnicas, 'mandamentos' culinários. Inclusive, tenho me dado conta de que a criatividade acontece com melhor desenvoltura e permissão quando acompanhada do treinamento sistemático. Quanto mais fazemos algo, mais o ato se torna parte de nós, de nossa pele; além disso, seguir o passo-a-passo aumenta a chance de que a 'infra-estrutura' de nosso quitute funcione. Resultado? Menor risco de atrapalhações na execução de nossa receita, maior chance de as invenções terem sucesso!

Revisei os posts destes meses,  e vi que a grande maioria fala sobre criações minhas, contando com a boa vontade da 'Serendipity'. Refleti sobre esta espécie de rebeldia, pois raramente seguia um planejamento muito preciso, e confesso que nem me agradava a ideia. 
Com o desenrolar dos escritos, a visita a outros blogs, a leitura de livros de cozinha e de escrita culinária, acabei compreendendo o quão essencial é o ato de respeitar a a lógica da cartografia em uma receita. Sim, estudar os mapas, carregá-los comigo de vez em quando. Não sempre, que a chance ao improviso também é um treino. Entretanto, percebi que há muito a aprimorar em meu modo de vivenciar a cozinha com liberdade. Em primeiro lugar, é preciso que eu exercite, rotineiramente, a prática descrita nos livros, lado a lado com minhas experiências ao acaso. 
O equilíbrio, a meu ver, é sempre uma boa medida: adotar novos moldes de trabalho, mantendo o que tenho como raiz, minha espontaneidade culinária. Esta me traz alegria e estimula minha imaginação, nunca pode faltar na mesa. Surpreendente é descobrir que são prazerosos, também, a precisão da técnica, o desenvolvimento de aptidões, o rigor das medidas de açúcar e manteiga. 


Comecei a leitura do 'The Joy of Cooking', da Sra. Irma Rombauer, edição comemorativa de 75 anos do livro. E foi encantador aprender pelas mãos dela os truques sobre a arte de fazer bolos, tudo em detalhes fabulosos. Estou saboreando as páginas do 'Joy', pouco a pouco, conhecendo aspectos milimétricos de um bolo bem feito. Para mim, isto é bastante novo, algo semelhante a estudar o mapa de uma cidade em suas minucias. 

O tempo passou, e compreendi que até a invenção pode ser repetitiva, se não houver o contraponto. Senti que é necessário, a partir de agora, dar um passo além na minha prática de cozinha, e neste blog, também. É necessário viver a métrica, exercitar a sistemática, o rigor, para poder criar.

Estas reflexões surgiram, principalmente, da escrita (e leitura) do blog desde o seu nascimento, em março de 2012. Contudo, o 'laboratório' da escrita cotidiana me ensinou muito sobre disciplina, persistência, atenção, foco, silêncio, propósito interno. Descobri que posso seguir métodos; descobri que, seguida ao extremo, até a liberdade do não-mapa me aprisionou. Se desconheço as técnicas, a metodologia, inventar quitutes pode ser um risco, pouco sustentável, aliás. Se faço o que 'dá na telha', sem parâmetros, o limite do experimento é a sorte: pode dar certo e pode não dar, posso repetir ou nunca mais encontrar o mesmo sabor. 




Então, constatei... A Serendipity também deve ser medida, junto aos outros ingredientes. E usada com parcimônia!

Obrigada, Leitor, por ser parte destas descobertas!

Sobre o livro "The Joy of Cooking", visite o site
http://www.thejoykitchen.com/

Betina Mariante Cardoso


2 comentários:

  1. Adorei estes novos ventos invadindo espaços, espalhando e inspirando mudanças!
    Cada vez melhor, Betina!

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    1. Querida Lena!! Que bom te ver por aqui! Houve um despertar curioso nesses últimos tempos, e o desejo de seguir receitas nasceu! Realmente, uma nova fase. Continuarei inventando moda, certamente, mas há de fato novos ventos!! Bjs e obrigada!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina