quinta-feira, 7 de junho de 2012

Nossos Três Cérebros por um Chocolate Quente!

Acompanhando os índices de acesso ao blog, chamou minha atenção o interesse que os leitores tiveram na postagem sobre a química da paixão, cujo objeto, na conversa, é o Crème Brûlée. Pois baseei as descrições no livro da Psiquiatra e Neurocientista italiana Donatella Marazziti, "La Natura dell´Amore" (Rizzolli, Itália, 2004), que traduzi para o Português em 2007. E, lembrando que estamos chegando no Dia dos Namorados, percebi que a data inspira reflexões sobre a paixão, o amor, o estar junto. E eis que vim escrever esta prosa.

Trocando em miúdos, a autora apresenta, numa linguagem clara e agradável, os resultados de suas pesquisas sobre a natureza biológica do apaixonamento e do amor, feitas a partir da Neurobiologia e da aplicação de questionários aos sujeitos das pesquisas, desenvolvidas na Universidade de Pisa. Além disso, em seus livros, as explicações neurocientíficas vêm entremeadas com exemplos da Literatura e da História, com estudos antropológicos, com relatos de indivíduos, com reflexões da autora. É esta mescla que enriquece ainda mais o prazer de compreender a vivência do amor como parte de nossa natureza humana, até mesmo do ponto de vista neuroquímico: na leitura, e na tradução, aprendi que o ato de amar é parte de nossa fisiologia tanto quanto o dormir e o acordar, o comer, o caminhar, e assim por diante.


Mas o que isto tem a ver com o comer, com o saborear?

Relendo o livro "La Natura dell´Amore", que referi acima, vejo quantas aproximações bioquímicas existem entre as explicações dadas pela autora, quanto à natureza biológica do apaixonamento e do amor, e as vivências que temos com a comida. Num primeiro olhar, parece  até esperado que seja assim, pois são- alimentação e sexualidade- algumas funções de nossa sobrevivência básica: são partes de nosso eu mais primitivo. Do ponto de vista do funcionamento de nosso cérebro, também.
Ou melhor: de nossos cérebros.



E aqui entramos na compreensão da figura acima.

Costumo explicar esta imagem do seguinte modo: nós, humanos, temos três cérebros. O Arquipálio, ou Cérebro Reptiliano, o Paleopálio, ou 'Cérebro Límbico', e o Neopálio, ou Cérebro Racional, ou, ainda, Neocórtex. O reptiliano, o mais primitivo, é o responsável pela nossa sobrevivência mais básica: alimentação, defesa do território, sexualidade (com finalidade de reprodução da espécie), comportamento predatório, etc.

Com o termo 'cérebro reptiliano', indicam-se aquelas estruturas cerebrais presentes a partir dos répteis e que, no sentido evolucionista, constituem a parte mais antiga do nosso cérebro. Então, seguindo o reptiliano, temos o Sistema Límbico, próprio dos mamíferos, que nos permite sentir as emoções, sem ainda, no entanto, estarmos aptos a compreendê-las. Este é o próprio sentir do prazer,  (a sexualidade agora também com finalidade de desejo e do prazer sexual, além do próprio reproduzir), da raiva, do medo, etc. O Sistema Límbico, ou Paleopálio, amplia a gama de respostas comportamentais elaboradas pelo cérebro reptiliano, gerando um prisma de experiências emotivas que se consolidará a partir do estabelecimento do Neocórtex, o cérebro humano por excelência. É o Neocórtex que nos permite programar estratégias, fazer previsões a longo prazo e experimentar um espectro amplo de matizes emocionais, junto à consciência daquilo que se está fazendo ou sentindo.

 Assim, a finalidade apenas reprodutiva da sexualidade no cérebro reptiliano, que então adquiriu também a finalidade do desejo e do prazer sexual no Sistema Límbico, atinge , através do Neocórtex, o atributo do vínculo afetivo entre o casal, ou seja, a vontade de estarmos juntos com o amado. Esta vontade surge não apenas da necessidade biológica de reprodução, ou do prazer sexual que temos com aquele que desejamos, mas surge, principalmente, de nossa vontade e intenção de compartilharmos nossa vida com alguém, de escolhermos, com a emoção e com a razão, estabelecermos com o outro um vínculo afetivo duradouro. Um vínculo, então, que possa contemplar também as funções de reprodução, prazer e desejo dos cérebros anteriores, mas cuja dança seja musicada pela consciência que temos de nossas emoções e escolhas.

 A idéia é que, conhecendo o outro tal como ele é, escolhemos estar com ele. Existe até mesmo a formação e liberação de uma cadeia de substâncias neuroquímicas a partir desta vontade, envolvendo as funções do Neocórtex. As tais substâncias, principalmente o neuropeptídeo Oxitocina, são 'postas em ação' a partir desta consciência de querermos, por nossa vontade e pela do outro, formarmos um casal. Mas esta é uma outra conversa, e vale uma postagem inteirinha...

Recapitulando, então. de acordo com o Neurologista Paul McLean, o cérebro humano seria único e triplo; isto significa que, mesmo sendo uma estrutura única, representa a sobreposição de três cérebros: o dos répteis, o dos mamíferos e, finalmente, o humano. Cada estrutura regularia atividades e comportamentos específicos, mas somente as estruturas surgidas por último, então o Neocórtex, seriam capazes de controlar e de bloquear as anteriores. Bem interessante é que, com "Cérebro Triúnico", McLean explica o surgimento destas 'camadas' cerebrais a partir da ontogenia (o aparecimento das camadas durante o desenvolvimento do embrião e do feto), recapitulando, cronologicamente, a filogenia (a evolução das espécies), do lagarto ao Homo Sapiens.

UFA!!!

Há tempos, desde quando li de que modo a sexualidade seria representada por nossos três cérebros, na forma específica de cada um, pensei que a alimentação seguiria um rumo bem semelhante, pois também envolve 1) sobrevivência; 2) prazer e desejo; 3) consciência, reflexão e o exercício da vontade. Deste modo, pensei comigo:
Nos alimentamos por necessidade, e o cérebro reptiliano é o responsável por este instinto básico; sentimos desejo por uma bela taça de chocolate quente. A bebida  é doce, quente (claro), espessa e aconchegante e, nestes dias frios que nos preparam pro inverno, percorre os caminhos de prazer do Sistema Límbico.

E, nesta esquina de nossa conversa, a Neurociência encontraria Brillat-Savarin, autor de "A Fisiologia do Gosto".

 Como assim?
Pura serendipity. Li hoje de manhã um texto da Mary Frances Kennedy Fisher (M.F.K. Fisher), destacada escritora americana de prosa culinária, além de exímia tradutora do gastrônomo francês para o idioma Inglês. No texto, encontrei  algo que caberia como uma luva nesta explicação neurocientífica: aquele que aprende a sentir o gosto descobre o prazer alimentar. Este indivíduo desperta de algo que ela descreve como 'cegueira para o gosto' e passa a descobrir, em seu próprio tempo, o que Brillat-Savarin esquematizou, metodicamente, como as 'três sensações', frente ao nosso hipotético chocolate quente:
a)  a sensação direta, na língua; b)  a sensação completa, quando o alimento ultrapassa a língua e é deglutido; e, a mais prazerosa de todas: c) reflexão, ou seja, o julgamento, feito pela alma, sobre as impressões transmitidas a ela pela língua.

Achei belíssima a explicação que o ilustre autor deu para o papel do Neocórtex no gosto alimentar. O que ele chama, com uma pureza quase etérea, de "julgamento feito pela alma" poderia ser traduzido da seguinte forma: "O Neocórtex é avisado sobre as reações de prazer despertadas no Sistema Límbico através do sentido da gustação. A partir do contato do alimento com a língua (sensação 'a' de Brillat Savarin), uma tempestade de reações ocorre neste sistema, e em todo nosso corpo, até que a informação chega ao Cérebro Racional, humano por excelência, e ele atribui um julgamento sobre o fato: adorou chocolate quente!"

Pois bem. Este é o prazer refletido, a sensação  de bem-estar que ultrapassa o prazer biológico do Sistema Límbico, e adquire significado. Este prazer refletido -ou prazer com significado, ou, simplesmente, o 'saborear'- é fornecido pela interação dos nossos três cérebros. Enfim, temos um sistema inteligente que nos prepara para saciar a fome, matar o desejo, seguir a vontade. E que nos prepara para escolher o que nos é prazeroso, o que nos traz lembranças felizes, o que nos acalenta num dia frio de quase-inverno. Com nosso par ou sozinhos, temos em nós todos os recursos para vivenciar o prazer de uma taça de chocolate quente. E para  despertarmos para os sabores da vida, dos culinários aos amorosos, individuais, coletivos, duradouros ou efêmeros...

Então, saboreie!



Referências:
-"La Natura dell´Amore", Donatella Marazziti. Itália, Rizzoli, 2004.

-"The Art of Eating", M.F.K. Fisher, 50th anniversary ed., Willey Publishing, 2004. 'Pity the blind in Palate", pg. 57.

-Ilustração extraída da Web, link http://4.bp.blogspot.com/_v_BXfLjBlTU/TLB43qITmiI/AAAAAAAAALA/u2AhFSUy2T0/s1600/cerebro+4.jpg

- Postagem deste blog: http://serendipityincucina.blogspot.com.br/2012/04/quimica-da-paixao-por-um-doce.html









2 comentários:

  1. Ufa! (rsrs, te copiando...)
    Betina, eu li e reli: Nossos três cérebros por um Chocolate Quente!
    Não é como ler uma receita... Mas além de interessante, foi muito divertido saber que estes termos nada familiares pra mim, são 'habitantes' poderosos em mim! rsrs
    E não pede pra que te explique como, mas 'eles' estão me avisando sobre um fato: 'Serendipity é muito bom! - saboreie.'

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  2. Lena!!! Obrigada pela visita!!! Eu, distraída, deixei passar este teu comentário!!! Ish...Este texto foi loooongo! Mas é verdade, temos, em nós, estes habitantes muito poderosos para nosso bem-estar e prazer! Tomara que esfrie, para que se possa saborear um bom chocolate quente!

    beijos, e gracias!!!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina