quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um expresso. Ou dois.

Eu tinha poucos minutos para refletir. Num intervalo do trabalho, caminhei até um Café próximo, coisa de dois ou três quarteirões. Dispunha de tempo para  um expresso, no máximo dois. E não faltariam aqueles biscoitinhos que vêm no pires. Anotei idéias na caderneta que guardo na bolsa. 


Um Expresso. Ou dois.
"Escuro na densidade, amargo no aroma. Negro, compacto. De um só gole e, mesmo tempo, tão longo quanto as histórias que conta. Esta poderia ser a descrição do meu expresso favorito, nesta  pequena xícara branca que contrasta com a penumbra da fumaça.  
Pois bem, falo do meu Moleskine. Não de todas as cadernetinhas da marca, algumas com pautas, outras lisas para o desenho; outras, ainda, quadriculadas ou com separações de arquivo. Falo do meu, de folhas já amareladas, riscos por toda parte, receitas de cozinha, registros que anoto para lembrar depois, tons pitorescos do dia. 
Amargo? sim, em algumas linhas. Faz companhia aos meus instantes de parada: sento num Café qualquer e deixo o transe de viajante me tomar, mesmo que seja na minha cidade. Afinal, o tal 'transe do viajante' é, em essência, um estado de espírito.
 A cafeína forte, sem açúcar, vai contornando minhas impressões. É um lapso de tempo onde a ventania não perpassa, estou ali e pronto. De início,   sorvo o café pela borda quente da xicrinha,  num gesto  lento, perene. Esqueço ali e,  de costume,  deixo uns três goles no fundo,  tão ávida  por apontar as inconstâncias do dia, as curiosidades, e algumas frases para distrair a inquietude. Num ato preciso, bebo-os quase frios. Solto o marcador de cetim na última página escrita, pego um guardanapo do local, com nome e endereço,  guardo-o no bolsinho da capa. 
 Fecho o elástico e espero o vento chegar, ameaça de partida. Permaneço: meu expresso foi duplo, duradouro, com alguns biscoitos amanteigados que mastigava enquanto escrevia. Me perdi do tempo."

Meu Moleskine, negro e compacto.

Fui embora, com aquela sensação de esquecer por quantos minutos estive ali. Com aquela sensação de esquecer onde estive. Em tempo nenhum, em lugar nenhum, pensei. Apenas visitei-me, num labirinto de anotações. O cheiro do café testemunhou meu intervalo, os biscoitos acalmaram as dúvidas, o estalido da xícara no pires me fez companhia. O gosto, amargo, despertou a escrita. E as reflexões eram tangíveis na página da caderneta. Tudo era real. E irreal. Névoa.

Betina Mariante Cardoso



4 comentários:

  1. Delicia de café...( Grazi)

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  2. Um belo momento para a introspecção, esse de tomar um expresso no meio da correria. Obrigada pela leitura, pela participação! Adoro poder conversar sobre os textos com os leitores! Espero tuas próximas visitas!!! Hoje terá receita do meu Tiramisù no blog! Bjs

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  3. De uma 'xicrinha' de café brotou esta poesia toda?! Lindo demais Betina! Inspiradíssima prima...

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    1. Gracias, Lena!!! Sim, os cafezinhos, para mim, são sempre um momento precioso de estalos e escrita prazerosa. Ainda mais quando acontecem de surpresa, no meio da tarde! Obrigada pelo teu comentário, adorei tua visita! Bjs!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina