terça-feira, 19 de junho de 2012

Essa tal de "Clara Luz"...

"Mora no oitavo horizonte
um grande leão dourado.
Isso não é muito longe:
é mesmo aqui, ao meu lado"
A Fada que tinha Idéias, pg. 38*


Bom, de algumas mirabolâncias que já contei por aqui, dá pra pensar de onde tiro essas maluquices, como "aula de Nega Maluca", bolo ao contrário, bolo inventado, melodia do manjericão, bagunça feliz, e assim por diante...Pois é.

Li, pelos nove ou dez anos, o livro "A Fada que tinha idéias", da Fernanda Lopes de Almeida. E, acredito, foi a grande força motriz para meu gosto por 'inventar moda'. A personagem, Clara Luz, era uma fadinha que não perdia a chance de dar vida às idéias, às próprias mágicas. Dizia: "Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda." E esta frase, em especial, despertou em mim uma curiosidade cintilante pelo novo, pela criação. Às vezes, e tantas vezes, criei por nada, pelo próprio prazer de dar vida à idéia, de fazer acontecer a faísca que nasce sem aviso. Acho que a imaginação,TOC-TOC-TOC, bate na porta e quer entrar no mundo real, vestida de idéia.

Sem mais nem porquê. Simples assim: para o novo nascer.

E foi isso que aprendi com a Clara Luz. Num ponto da história, ela lê, na receita para fazer os 'bolinhos de luz': "maneira de fazer: mistura-se bem os raios de sol e de luar, até saírem faíscas. Junta-se então o fermento de relâmpago". E pensa: "Fermento é que faz o bolo crescer. Se, em vez de uma colher de chá, eu puser um relâmpago inteiro, vai sair um bolão enorme.(...)"; acabou indo para a janela, esperar os relâmpagos que passavam pela frente de sua casa. Convenceu um relampagozinho, filho mais novo dos cinco, de uma família que cruzou por ali, a entrar no bolo:
"Garanto que você vai adorar. Até podemos combinar assim: no meio da festa você pula de dentro do bolo e dá um susto danado em todos."
O tal pulou dentro do bolo, e fez a cozinha se iluminar até o teto, a massa escorreu, fazendo brilhar a casa toda, espirrou pelas janelas e até pingou para fora da Via Láctea, onde moravam todos. Isso porque a Clara Luz era dona de fazer mágicas que não estavam no Livro das Fadas. A narrativa é de um encanto que só lendo. Cada frase é uma preciosidade, uma gostosura, uma porta aberta para a imaginação brincar à vontade. Algumas páginas além, Clara Luz tem aulas de "Horizontalogia", e já começa dando palpites. Por exemplo, diz para a Professora que quer ter aulas no horizonte, brincar de escorregar no arco-íris, e vai inventando brincadeiras, mostrando, acima de tudo, que "existem muitos horizontes."
Pronto. Fechei o livro. Percebi que, se me entusiasmar contando, tiro a riqueza que há neste universo de idéias e fantasia, que é "A Fada que tinha idéias". É algo que deve ser lido, saboreado em essência, com o desejo de avançar nas páginas com a mesma faceirice da fadinha. Lembro de quando li, pelo tanto que me marcou: todo ele era de uma 'realidade mágica' fascinante, eu lia e lia. Saber que é de mentirinha, numa leitura destas, não importa: há uma parte que vive em nós e que extrai da história toda a pulsação de imaginário que ela pode dar, anseia passar à próxima, à seguinte, até chegar à última página, tendo vivenciado cada aventura da personagem. Clara Luz tinha idéias e colocava-as em prática, e esta foi a principal mensagem que, quando criança, tive do livro: dar vida às idéias. 

E foi a mensagem que trouxe comigo, desde lá. Sempre reli "A Fada que tinha idéias", é um livro para todas as idades. Acima de tudo, a história me presenteou com a forte crença de que tudo é possível, de que é preciso acreditar nas próprias idéias, como a Clara Luz fazia. Claro, como a adulta que vos fala, tenho que ressaltar o fator bom-senso. Sim, estou falando em idéias razoáveis, noutras mirabolantes, todas dentro de um espaço de risco adequado. Mas, fora esta porção de realidade adulta, que todos conhecemos, quero mencionar a importância que teve pra mim a frase "Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda.". Ter esta noção, no meu território de liberdade, motivou-me a acreditar que é possível ter idéias, correr riscos aceitáveis, inventar receitas, reinventar receitas, bagunçar a cozinha, dar vida à estante, compartilhar com a caneca vermelha minhas experiências... E acreditar que são possíveis tantos passos que dei, devagarinho, para alcançar propósitos. Mesmo que fossem chocolates, bolos, quitutes em geral. Ou decisões importantes. Ler a Clara Luz foi revolucionário porque me deu uma bagagem para atravessar horizontes com a dose de fantasia e de brincadeira que impulsiona a caminhar para frente, com a confiança de que ter idéias vale a pena.

E é sempre uma leitura única, prazerosa, para se degustar com um bolo de maçã com castanhas e chá quentinho.

A receita?

Ah, essa é uma outra conversa...

Referência:
 A Fada que tinha idéias, Fernanda Lopes de Almeida.
São Paulo, Ed. Ática, 1985.







2 comentários:

  1. Também amei esse livro! Tenho no coração a história até hoje e bem me lembro do relampinho dentro do bolo, hehehe, depois ele ficou muito amigo da Clara e convenceu a família a cantar no espetáculo que ela montou... ai q nostalgia!

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  2. Michele! Que legal que tens essa lembrança!!! Gracias por compartilhar tua memória sobre o livro, é uma leitura muito marcante e adoro quando os amigos partilham essa "festa"! A parte do Relampinho é incrível, e adoro quando ela bota a asa no bule, quando vai nas aulas de horizontalogia, quando há a festa que lembraste. É um livro pleno de vida, que até hoje me fascina.

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina