sábado, 9 de junho de 2012

E por falar em bioquímica...

E eis que, em plena quarta-feira, andando por Gramado num dos intervalos do treinamento, presto atenção na Casa do Vinho. Talvez tivesse passado por ali inúmeras vezes, mas só agora despertei para uma lembrança curiosa.



Em 1999 era novamente monitora de bioquímica na faculdade -já pelo segundo ano- por puro gosto pela disciplina e por ministrar as aulas. Naquele início de segundo semestre, recebi, pela primeira vez, o 'salário' pela monitoria do anterior (nem lembro de quanto, mas era pouco-disso eu lembro). Guardei para a viagem à Gramado, alguns dias depois, quando fui por um congresso, jornada ou coisa assim. Num dos intervalos do evento, à tardinha, saí para caminhar sozinha pelas vitrines, sentir frio, tomar um chocolate quente para alimentar meus três cérebros, pensar na vida, coisa e tal. Lá pelas quatro, cinco da tarde de um agosto, eu dava passos lentos pelas ruas. Eu tinha um bom motivo: queria refrescar a cuca. 

Entrei na Casa do Vinho: decisão rápida, comprei uma panela de Fondue com o valor da monitoria de bioquímica. Impulso, desejo, vontade. Sabe-se lá por que direcionei meu primeiríssimo salário para, especificamente, uma panela de Fondue. Quem sabe nutrisse  uma fantasia de caldeirão de poções fabulosas, borbulhantes, de um viço único e perolado, de cheiro marcante e convidativo, como na mistura de queijos? Ou meu favorito era o de carne? Chocolate?

Não lembro por que comprei. Deve ter sido uma razão importante. Possível ânsia quituteira inexplicada, um desejo pelo preparado mágico. Quem sabe pela força única das misturas, do cenário, da  atmosfera nebulosa? Afinal de contas, estes elementos acendem a chama dos cinco sentidos e inebriam o 'julgamento da alma', como chamou Brillat-Savarin, referindo-se ao Neocórtex. Inebriam a ponto de eu aplicar meu 'precioso' pagamento na expectativa de que, nalgum dia, a panela seria usada. Nenhuma dúvida de que seria, se eu gostasse muitíssimo de Fondue. E não era o caso. Queria, talvez, arriscar nova empreitada culinária, aprender uma receita que me desafiasse, de resultados metabólicos explosivos. Desejava vivenciar, como produtos do salário bioquímico, os experimentos mais absurdos já vistos.

Não foi nada disto. A verdade é que eu invejava a liga duradoura, intensa e consistente entre os compostos da mistura no Fondue de Queijo; queria a surpresa, o imprevisível contraste que pulsava nas cores, nos gostos, nos cheiros, no  Fondue de chocolate.  Me arrepiava ao som de explícito deleite, no de carne. 

Mal sabia, naquela época, que bastaria amar. 

Betina Mariante Cardoso



2 comentários:

  1. Ora, e como não seria isso mesmo em constante 'fervura' por aqui? - o toque da magia!...
    Esse trânsito fácil entre interesses tão diversos é uma 'mistura' que à tua sensibilidade não passou despercebida! Observo e admiro a sintonia constante entre a paixão pelas artes culinárias, o gosto pela medicina, o profundo conhecimento do 'eu' (faço referência à mestra em psiquiatria) e a escritora talentosa, que escreve com arte e prazer. Há um equilíbrio contagiante neste conjunto, que agora entendo como 'mistura' e aí está a 'magia': o teu jeito de olhar e administrar, na prática, o teu 'eu'.
    Que feliz ideia passar todo este saber de forma tão gostosa como num aparentemente despretensioso 'Serendipity in Cucina'.
    Isso é lição de vida, Betina!

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  2. Querida Primaaaa!!!! Que comentário gostoso de ler!!! Esse blog, pra mim, é puro exercício de Hobby, de partilha, de subjetividade, de 'salto no escuro'. Nestas páginas, como na cozinha e nas cidades que visito, me deixo conduzir pela Serendipity, sim, pelo não-controle, pela atmosfera nebulosa do inusitado, em que são as frases que me mostram o caminho, ou os ingredientes, ou as ruas laterais. Eu as sigo, apenas. Foi assim neste texto, como naquele da bola de sorvete, ou no "Da bagunça feliz". Acho que são territórios de liberdade, para o exercício da permissão. Por isto adoro partilhar estes escritos, porque experiências de serendipity são parte da vida de todos nós. 'Secondo me', como dizem os italianos com a mão espalmada no peito, ponto é estarmos disponíveis para um 'olhar a mais' ao acaso feliz. Beijos e gracias!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina