sexta-feira, 22 de junho de 2012

Bhaskara no lanche da tarde...

Eu estava passando pelas páginas do meu caderno de receitas, e me deparei com o "Bolo de Melado da Anilda". Esse 'como-se-faz' é dos que tem história. A Anilda é professora de matemática, e me deu aulas particulares durante o segundo grau, por alguns períodos importantíssimos, como quando voltei do intercâmbio e precisava, a todo custo, vencer a matéria em atraso. E até na época do vestibular. Matemática nunca foi meu forte, e tínhamos um professor medonho no colégio.

Mas o encanto estava na atmosfera acolhedora da sala onde eu tinha  aula, na casa dela. O lugar onde eu sentava ficava de frente para a mesa da cozinha, e volta e meia eu espiava algum quitute saindo ali de dentro. Havia uma alegria na casa, e a sensação era sempre de estar indo visitar a Anilda para o lanche da tarde. Em vez da conversa em volta da mesa, eu aprendia trigonometria, matrizes, conjuntos, geometria...E também ria, batia papo, conversava brevemente com o esposo dela- sempre muito simpático com os visitantes, de um sorriso acolhedor e sereno. Assim também era o apartamento: acolhedor e sereno. Lembro de uma sala, de um terraço tipo jardim de inverno, da sala de jantar, onde tínhamos aula, e da cozinha, à frente. Esse é o mapa que minha memória desenha. 

Havia cheiro de casa dos parentes, casa de visitar, de prosear nos respiros da aula. Meu  período de aluna da Anilda, mais ou menos, foi entre 1991 e 1994, mas a sensação é de que ela e o esposo existiram por muito tempo nos meus percursos. Quando me formei na Faculdade, foram à festa, estavam lá. Era tão simbólica a presença deles no cenário, que me emocionei quando chegaram: foram testemunhas de muitas provas e provações, até aquela conquista. A Anilda conheceu uma de minhas maiores 'fraquezas', a Dona Matemática; presenciou períodos de stress, outros de conquista; outros, ainda, de garra e perseverança. Sempre transformando o sabor daquela  matéria, com seu jeito risonho, contando piadas, com o ar afetivo de quem ensina brincando. Lembro do cheiro ácido das folhas escritas à lápis, onde ela ensinava todo o horizonte de números. Chamava-me de "Florisberta Paixão" durante as aulas, servia bolos, chás, cafés, água gelada, refrigerante, sanduíches. 


Houve um dia, num momento de profunda correria e apreensão, em que eu mal sentia o sabor de qualquer coisa além daquelas fórmulas. Era meio da tarde, e a Anilda serviu o bolo de melado com limonada. A fatia de bolo veio num pratinho gracioso de louça , sobre um guardanapo; o suco, em um copo alto, estreito. Guardo um registro muito forte desse momento, pois foi como despertar todos os meus sentidos com o lanche. O despertar de uma 'anestesia' pelo foco excessivo, pela preocupação, pela atenção em algo que me exigia as vísceras. E a vivência daquele despertar, pleno de cheiros, de doçura e do toque caseiro dos bolos feitos ali, ficou carimbada como uma experiência acesa de contentamento. O bolo era, ao mesmo tempo, intenso e silencioso, daqueles amigos que guardam nossos segredos. Ele guardava os meus em seu aroma de especiarias e melado, na cor amarronzada, na mordida consistente e macia, no gosto acolhedor, na música mansa que tem um lar. 

A memória daquela tarde, então, surgiu em mim quando passei pela sua página no meu caderno de receitas, junto à figura da Anilda, com todo o carisma. E, até hoje, me lembro dela servindo o bolo durante a fórmula de Bhaskara.


Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. Dona 'Florisberta Paixão' que gostosura esta lembrança do bolo de melado da Anilda!
    Eu continuo encantada entre apreciar tuas lembranças e tua escrita delicada, romântica, vibrante e verdadeira e mais que nem sei dizer.
    Hoje o toque de romantismo 'me pegou', amei...

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  2. Lena, querida! Que lindo o que comentaste, pois esta história é daquelas que de fato me toca o coração! A Anilda e Seu Humberto tem um lugar especial na minha vida, e esse bolo é bárbaro!!!!! De matemática me aprimorei naquela aplicada às receitas...A trigonometria ficou guardada apenas na história!

    Beijos, e gracias por tua participação, que sempre me anima!

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