terça-feira, 26 de junho de 2012

A Anima do "Penne al Ragú"


"Aqui, Ditadura Gastronômica"

Quando lembro do 'transe de viajante', logo me vem à memória a experiência extrema que tive em Roma, com um 'Penne al Ragú' que acordou todos os meus antepassados. Não sei bem o endereço do restaurante, apenas segui as indicações: percorri  uma rua até ela terminar em uma praça, dobrei à esquerda, único acesso possível, e entrei no local sugerido. Sentia frio, a chuva me apressava a chegar logo, o desconhecido me dava força nos passos para experimentar aquele lugar de almoço rotineiro de quem trabalha por perto. Meu corpo recorda-se de tudo, meus sentidos registraram cada impressão, e eu poderia chegar de novo, certeira, seguindo as pistas de tudo o que senti, na ida para aquele almoço e na volta dele. Pois bem, a ida e a volta: parâmetros de minha transformação. 

Estava no Congresso da Sociedade Italiana de Psicopatologia (SOPSI), que acontece sempre em fevereiro. Isso foi em 2005. Fui sozinha para a cidade, disposta a permanecer focada nas sessões do evento, durante aquela semana, e a desbravar os passeios clássicos nos intervalos. O frio, a chuva e uma gripe forte poderiam ter atrapalhado a programação, mas o que ocorreu foi o contrário: não dei bola para a gripe, me agasalhei melhor e comprei uma sombrinha. 

As atividades começaram na terça-feira às 7:30, e lembro-me muito bem do cheiro de estar ali: era profundo, um aroma vivo, de erva recém macerada, que acordava a atenção naquele cedo da manhã. Tudo muito estimulante, palestras excelentes, temas tão diversos que a vontade era de me multiplicar; no entanto, de certo modo, precisei me dividir para escutar a maioria das aulas em italiano, seguidas de outras em inglês. Experiências intensas, como a atenção aos idiomas diversos, o fato de estar só em Roma, o conteúdo interessantíssimo das apresentações, o prazer da viagem, a presença da surpresa, do novo: tudo isso deve ter ativado em uma proporção enorme meus sentidos, portas abertas para que as percepções cheguem ao cérebro. 
"L´assassino"

Essa explicação looooonga é para contar por que o tal Ragú ficou para a história. Não, não era apenas um sabor destemido, de temperamento forte e fala imperativa. Era um transe de viajante. 


Já era quinta-feira. Chovia muito, riscos finos e geladíssimos arranhavam a pele e, mesmo assim, era  curioso passear naquela rua simples, cotidiana, com gente do bairro num indo-e-vindo para o trabalho. Perguntei à alguém na rua onde poderia almoçar, e a resposta foi breve, quase "ali na praça, mais adiante, tem alguma coisa, uma cantina onde todos vão". Eu seguia com rapidez, pela chuva, pelo frio. Fui caminhando na direção indicada para a tal cantina: se passasse por ali e me despertasse um dos sentidos, eu ficaria. Foi este o critério. Eu estava perdida? Em termos, pois lembrava do trajeto que tinha cumprido até ali, saberia voltar. Estava em Roma, e deveria escolher um lugar mais típico para o almoço? Este foi o ponto!


Entrei no local, e um cheiro de festa de família me inundou. Barulho de gente conversando, de pratos aos pulos, de conchas gritando com a louça. Nas paredes, azulejos em tons pastéis, com a predominância do azul clarinho; as mesas eram de fórmica, as cadeiras simples, sem apetrechos ou detalhes. Havia um calor de forno que absorvia todo o espaço, para superar o aspecto frio das paredes e do chão de lajotas lisas, brancas e pretas, entremeadas. 


No entanto, nada, nada contava melhor sobre o espaço do que o senhor e a senhora, intensíssimos, que atendiam os clientes no balcão. Naquele momento, eram a alma dali. 


Eu não sabia o que comer. Embora estivesse em clima de viagem, pronta para qualquer aventura, a chuva e o cansaço da manhã me trouxeram um silêncio turvo, uma inquietude, quase uma amnésia para os sabores. Por um instante, me esqueci do que desejava almoçar. E este 'branco' foi essencial no processo: zerei minhas expectativas, e a surpresa me tomou em cheio. Deixei que a senhora, que imaginei fosse a dona do restaurante, decidisse o que- e quanto- me servir naquele prato fundo de louça branca. Tudo em branco, esperando pelo novo que me arrebataria em seguida.
Na vitrine aquecida, as travessas de inox e as cores vivas, as quantidades abundantes, as texturas diversas-das rústicas às aveludadas-, os cheiros tão impetuosos que transbordavam o olfato e pediam atenção dos outros sentidos: era quase possível sentí-los com as mãos. Ela falou, muito rapidamente, sobre cada prato, e disse que eu gostaria do Ragú, que era bom para um dia frio como aquele. Bom: foi a palavra que usou. Mas o bom também transbordou os sentidos, a palavra era outra. 

A Senhora e O Senhor do balcão

Agitada, ou poderia chamá-la de pró-ativa? Decidiu o que servir, pegou o prato fundo, muniu-se da concha, e começou a colocar uma, duas, três...quatro daquelas, do 'Penne al Ragú', sobrecarregando meu estado de ânimo em branco. Ela cantava enquanto completava o prato, num misto de cantoria e de contagem das concharradas, numa plenitude incontida. Tive a impressão de que servir aquelas receitas era uma espécie de mágica que a senhora fazia...
Sentei, então, para o que parecia o exagero do século. 

Com a massa, estava o vinho, que nem tive tempo de tomar, de tão vulcânico o impacto do sabor no meu universo de sensações. E, se estou usando estes superlativos, é porque me parecem a única representação possível da experiência. Prossigo. Dei a primeira garfada, um lampejo de prazer. A segunda, a terceira, a décima: minhas células vibravam com clamor pelas especiarias, pelo cheiro quente do molho, pela consistência da carne, pela cor amarronzada, com ruivos e amarelos e vermelhos misturados por ali. Minhas células celebravam. A vivência me faz lembrar uma multidão em um estádio, fazendo a ola, em um som que vai crescendo em intensidade, quase ocupando um espaço físico por suas proporções. 

Sabores da casa

Em garfadas, tornei-me uma só com o prato fundo de "Penne al Ragú", imergi em sua profundidade, na volúpia dos temperos, no sabor, na imponência da alquimia entre os ingredientes. Estas sensações eram misturadas ao prazer de estar em um restaurante citadino, rotineiro, sentindo-me comensal daqueles que tinham pouco tempo para almoçar e, mesmo assim, permitiam-se aqueles instantes de regozijo. Eu estava ali à passeio, mas vivenciei o deleite de uma cantina de dia comum,  numa rua desconhecida cujo nome descobri pelo Google Earth, meses atrás. Aquele prato era um tesouro perdido, naquele momento. Sentia-me de fato descobrindo um tesouro: mais do que o próprio sabor, toda a vivência do local.

O prato estava na metade do que fora servido, mas pedi para retirarem, assim que percebi que meu entusiasmo me trairia. Finalizei ali a experiência, pois me sentia plena, abastecida de sensações, alegria, bem-estar.

Voltei caminhando para o hotel do Congresso, rumo às aulas programadas. A chuva apertara, mas o deleite do almoço fazia com que eu quisesse passear com calma, captar o cinza-prata da paisagem, embalar-me na anima da pimenta daquele Penne al Ragú. Chovi com a tarde, feliz da vida.

"Ciao!"


                                           Betina Mariante Cardoso






2 comentários:

  1. Que maravilha as sensações que vc teve, nossa.. é contagiante!!! Grazi

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    1. Querida Graziela, obrigada pela visita!! Foram sensações vivas e felizes, mesmo, e por isto quis compartilhar a experiência no blog. Considero que essas percepções dos sentidos e das emoções, ligadas à culinária, são parte do nosso 'humano', por isto gosto de dividir. Todos temos vivências, lembranças e histórias com a comida, faz parte de nossa humanidade mais profunda. Quando escrevemos sobre isto, evocamos estes registros, partilhamos o prazer da vivência com os leitores, que têm suas vivências, que lembrarão um ou outro quitute que tenha proporcionado emoções, que vão experimentar o prato e extrair, dali, suas memórias. Enfim, esta prosa de cozinha me é muito prazerosa, pois traz consigo uma grande oportunidade de troca de lembranças vivas no afeto dos leitores. Obrigada por participar desta troca! Bjs

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina