sábado, 30 de junho de 2012

Tiramisù: meu 'como-se-faz'!

Bom dia! 

Vamos lá...Conto como faço meu Tiramisù, atualmente, com os ajustes encontrados nestes oito anos. 

Cenário, figurino, trilha sonora:
O dia pode ser chuvoso, como hoje em Porto Alegre, ou ensolarado e festivo. O que importa, de verdade, é a disposição vibrante e desperta para a tarefa, com ares de brincadeira, de partilha. Coloco a roupa que mais gosto, um avental gracioso, uma música italiana que combine com o entusiasmo da receita - em geral, de origem napolitana, que me impulsiona a anima. Afinal de contas, o nome do doce  significa "Bote-me para cima!" e, para que o deleite seja pleno, o preparo deve ser tão prazeroso quanto o resultado final. Abro as janelas de casa, que a manhã, ou a tarde, ou a noite participe da bagunça.

A cena:
Separo os ingredientes, já na ordem para o uso: 8 gemas, 200g de açúcar, 1/2 tacinha de rum, 500g de queijo Mascarpone, 8 claras, Bolacha Champagne (o bastante para cobrir completamente o fundo do pirex onde o doce será servido- em geral, um pacote é o suficiente), um copo de leite, café a gosto (uso em torno de 5 colheres de sopa de café solúvel), 8 claras, chocolate em pó, amargo, para polvilhar.

Na batedeira, bato as 8 gemas com o açúcar; durante o processo, vou adicionando, devagarinho, o licor, cuidando que a cremosidade do conjunto se mantenha viçosa. Ao final desta etapa, tenho um creme de cor amarela, num tom clarinho, quase perolado, com uma consistência que se vê pelo brilho sólido da mistura. O cheiro é profundo- digamos que me faz imaginar um bosque no começo da manhã.
Adiciono, lentamente, o Mascarpone, cuidando que a 'liga' com o creme seja aos poucos adquirida, tornando o conjunto mais firme, diferença que se sente ao misturar os ingredientes com a colher. Aqui, o aroma fica mais leve, de um ácido muito discreto; a cor torna-se mais clara, um liso que se vê pela superfície; o toque mais encorpado, mantendo-se a maciez. O som do mexer abafa-se, pela mudança na textura. Deixo a 'massa' ali, esperando uns minutos, enquanto faço a próxima etapa.

Primeira etapa: gemas, açúcar,
 licor, Mascarpone

Preparo, numa vasilha rasa, o leite com as 5 colheres de sopa de café solúvel, que vou adicionando com parcimônia. A cada colher, provo e verifico o gosto, que fique amargo numa intensidade agradável. Se ficar amargo em demasia, isto acaba quebrando a suavidade do creme. Banho as bolachas ali, uma a uma, de um lado e d´outro, e disponho-as na base do pirex, lado a lado, que não sobre um sequer espaço vazio. Deixo ali.

Segunda etapa, parte 1: leite e café
Segunda etapa, parte 2: as bolachas
banhadas no café

Volto para o creme. Bato as oito claras, que fiquem bem firmes, e adiciono-as com uma colher grande, lentamente, na etapa já feita (das gemas, açúcar e licor). Neste passo, o cuidado é misturar cada colherada das 'claras em neve' com o creme, percebendo a mudança de aspecto e de consistência: um amarelo-claro, luminoso; o resultado é um creme firme, de superfície mais crespa do que no início do preparo,e no gosto há um equilíbrio entre a doçura e a leve acidez. O aroma é mais atenuado do que na primeira etapa.

Terceira etapa: as claras em neve
O creme final, pronto para ser colocado
sobre as bolachas, no pirex.
Coloco o creme sobre a camada de Bolachas Champagne, até a borda do pirex. Em muitas versões da sobremesa, vi o creme e os biscoitos serem intercalados em camadas, mas gosto de fazer uma única base com o sabor forte do café, e uma única camada de creme sobre esta base. No original, são usados Biscoitos Savoiardi, que se encontra, por aqui, em algumas delicatessens.

Polvilho o pirex com o chocolate amargo por cima. Em geral, uso a caixinha com o Frade no desenho; é possível, também, optar pelo cacau em pó.

Deixo na geladeira por 24 horas antes de servir.

Tirando da geladeira para servir!
 Feliz da vida!
Adoro esta sobremesa! O gosto amargo e forte do café é 'quebrado' pela suavidade da mistura de ovos, açúcar, licor e mascarpone, o que resulta  num gostinho adocicado e levemente ácido. Aqui, fazem parte do espetáculo as diferentes texturas: a base esponjosa combina bem com a consistência do creme, e o aroma final é inspirador!

Bom proveito!!!

Ah, em  tempo: há uns dois anos, inventei de fazer uma adaptação do Tiramisù, dando à receita o tom do limão. Fiz tudo igual, em termos de medidas e método, mas usei as bolachas Champagne sabor limão, molhadas no licor italiano Lemoncello; este mesmo licor adicionei ao creme, ao invés do rum. No topo, ao invés do chocolate em pó, polvilhei o doce com raspas de casca de limão. Um belo doce de verão!

Betina Mariante Cardoso




                                                    









Confissões sobre o Tiramisù...

       E por falar em café...Percorrendo meu 'Moleskine', durante o expresso, cruzei com a receita do Tiramisù, um doce italiano típico, que adoro fazer (e, sim, saborear). Copiei de algum livro, site, revista, ou programa de tevê, já nem lembro mais de onde saiu. Estranho que sempre tomo nota da fonte, passo para meu caderno, faço marcações relevantes...

Daquela vez, escrevi os ingredientes, quantidades, um breve aceno ao 'como-se-faz', em forma de tópicos. Não sei o que me deu, nada disso é do meu feitio. Mais estranho ainda: desenvolvi a receita a meu modo, mudei algumas coisinhas (não resisti), descobri as cores, texturas, aromas de cada etapa, a cremosidade fabulosa do produto final, o sabor do biscoito molhado no leite com café, e não registrei em lugar nenhum. A cada vez que repito, sigo minhas pistas de antes, da memória do 'como-fazer', reconheço os momentos do doce, sinto sua consistência quando movimento a colher, mas nunca escrevi estes detalhes. Então, eis a minha receita, aqui no blog, em primeira mão. Porque estou adorando este compartilhamento de vivências com os leitores!

 Pois foi em 2004 que me aventurei. No retorno de Pisa, para comemorar com os colegas da residência, teríamos uma janta. Eu disse que levaria o Tiramisù mas, verdade seja dita, ainda não sabia fazê-lo na prática. Tinha visto algumas orientações, alguns livros, blogs com fotos. Páginas antes, tinha escrito o 'modo-de-fazer' pelo relato de uma amiga, e comparei as duas versões, para checar semelhanças e diferenças. Parecia tão complexo...Conto por quê: para mim, é mais difícil executar uma receita apenas através da leitura. Sinto a necessidade das dicas, da presença  da voz que conta, da entonação, do gesto que mostra: "mexe assim, mexe assado", e por aí vai. No entanto, resolvi me desafiar a fazer a sobremesa típica, a partir dos rabiscos anotados no meu Moleskine. A ocasião merecia.

É claro que eu comecei já 'inventando moda': dobrei as quantidades! Às vezes, não me contenho em intervir no original.

Até hoje me pergunto como aquela primeira tentativa deu certo. 'Sorte de principiante, deve ser', foi o que eu me disse, assim que provei o resultado. Quando repeti o experimento, mantive o que tinha dado certo, fiz as modificações que guardara de cabeça -e de sentidos-, e assim fui repetindo ao longo dos anos, desde lá. Onde acertei? Para mim, o mais importante é que fiz sem me pressionar aos resultados: fiz, simplesmente. Assim como a criança que brinca, com o foco na própria brincadeira, me propus a executar o desafio. Se desse errado, bolaria outra solução para levar na festa. 

Meu tiramisù: uma das etapas...

Coloquei, na tarefa, a dose de comprometimento necessária para chegar ao Tiramisù no final, fiquei atenta a cada etapa, e meus sentidos estavam ávidos pela magia da nova empreitada. Curiosa que sou, adoro estas possibilidades. Deu certo.


No sábado, meu 'modo de fazer', tim-tim por tim-tim.

Betina Mariante Cardoso



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um expresso. Ou dois.

Eu tinha poucos minutos para refletir. Num intervalo do trabalho, caminhei até um Café próximo, coisa de dois ou três quarteirões. Dispunha de tempo para  um expresso, no máximo dois. E não faltariam aqueles biscoitinhos que vêm no pires. Anotei idéias na caderneta que guardo na bolsa. 


Um Expresso. Ou dois.
"Escuro na densidade, amargo no aroma. Negro, compacto. De um só gole e, mesmo tempo, tão longo quanto as histórias que conta. Esta poderia ser a descrição do meu expresso favorito, nesta  pequena xícara branca que contrasta com a penumbra da fumaça.  
Pois bem, falo do meu Moleskine. Não de todas as cadernetinhas da marca, algumas com pautas, outras lisas para o desenho; outras, ainda, quadriculadas ou com separações de arquivo. Falo do meu, de folhas já amareladas, riscos por toda parte, receitas de cozinha, registros que anoto para lembrar depois, tons pitorescos do dia. 
Amargo? sim, em algumas linhas. Faz companhia aos meus instantes de parada: sento num Café qualquer e deixo o transe de viajante me tomar, mesmo que seja na minha cidade. Afinal, o tal 'transe do viajante' é, em essência, um estado de espírito.
 A cafeína forte, sem açúcar, vai contornando minhas impressões. É um lapso de tempo onde a ventania não perpassa, estou ali e pronto. De início,   sorvo o café pela borda quente da xicrinha,  num gesto  lento, perene. Esqueço ali e,  de costume,  deixo uns três goles no fundo,  tão ávida  por apontar as inconstâncias do dia, as curiosidades, e algumas frases para distrair a inquietude. Num ato preciso, bebo-os quase frios. Solto o marcador de cetim na última página escrita, pego um guardanapo do local, com nome e endereço,  guardo-o no bolsinho da capa. 
 Fecho o elástico e espero o vento chegar, ameaça de partida. Permaneço: meu expresso foi duplo, duradouro, com alguns biscoitos amanteigados que mastigava enquanto escrevia. Me perdi do tempo."

Meu Moleskine, negro e compacto.

Fui embora, com aquela sensação de esquecer por quantos minutos estive ali. Com aquela sensação de esquecer onde estive. Em tempo nenhum, em lugar nenhum, pensei. Apenas visitei-me, num labirinto de anotações. O cheiro do café testemunhou meu intervalo, os biscoitos acalmaram as dúvidas, o estalido da xícara no pires me fez companhia. O gosto, amargo, despertou a escrita. E as reflexões eram tangíveis na página da caderneta. Tudo era real. E irreal. Névoa.

Betina Mariante Cardoso



terça-feira, 26 de junho de 2012

A Anima do "Penne al Ragú"


"Aqui, Ditadura Gastronômica"

Quando lembro do 'transe de viajante', logo me vem à memória a experiência extrema que tive em Roma, com um 'Penne al Ragú' que acordou todos os meus antepassados. Não sei bem o endereço do restaurante, apenas segui as indicações: percorri  uma rua até ela terminar em uma praça, dobrei à esquerda, único acesso possível, e entrei no local sugerido. Sentia frio, a chuva me apressava a chegar logo, o desconhecido me dava força nos passos para experimentar aquele lugar de almoço rotineiro de quem trabalha por perto. Meu corpo recorda-se de tudo, meus sentidos registraram cada impressão, e eu poderia chegar de novo, certeira, seguindo as pistas de tudo o que senti, na ida para aquele almoço e na volta dele. Pois bem, a ida e a volta: parâmetros de minha transformação. 

Estava no Congresso da Sociedade Italiana de Psicopatologia (SOPSI), que acontece sempre em fevereiro. Isso foi em 2005. Fui sozinha para a cidade, disposta a permanecer focada nas sessões do evento, durante aquela semana, e a desbravar os passeios clássicos nos intervalos. O frio, a chuva e uma gripe forte poderiam ter atrapalhado a programação, mas o que ocorreu foi o contrário: não dei bola para a gripe, me agasalhei melhor e comprei uma sombrinha. 

As atividades começaram na terça-feira às 7:30, e lembro-me muito bem do cheiro de estar ali: era profundo, um aroma vivo, de erva recém macerada, que acordava a atenção naquele cedo da manhã. Tudo muito estimulante, palestras excelentes, temas tão diversos que a vontade era de me multiplicar; no entanto, de certo modo, precisei me dividir para escutar a maioria das aulas em italiano, seguidas de outras em inglês. Experiências intensas, como a atenção aos idiomas diversos, o fato de estar só em Roma, o conteúdo interessantíssimo das apresentações, o prazer da viagem, a presença da surpresa, do novo: tudo isso deve ter ativado em uma proporção enorme meus sentidos, portas abertas para que as percepções cheguem ao cérebro. 
"L´assassino"

Essa explicação looooonga é para contar por que o tal Ragú ficou para a história. Não, não era apenas um sabor destemido, de temperamento forte e fala imperativa. Era um transe de viajante. 


Já era quinta-feira. Chovia muito, riscos finos e geladíssimos arranhavam a pele e, mesmo assim, era  curioso passear naquela rua simples, cotidiana, com gente do bairro num indo-e-vindo para o trabalho. Perguntei à alguém na rua onde poderia almoçar, e a resposta foi breve, quase "ali na praça, mais adiante, tem alguma coisa, uma cantina onde todos vão". Eu seguia com rapidez, pela chuva, pelo frio. Fui caminhando na direção indicada para a tal cantina: se passasse por ali e me despertasse um dos sentidos, eu ficaria. Foi este o critério. Eu estava perdida? Em termos, pois lembrava do trajeto que tinha cumprido até ali, saberia voltar. Estava em Roma, e deveria escolher um lugar mais típico para o almoço? Este foi o ponto!


Entrei no local, e um cheiro de festa de família me inundou. Barulho de gente conversando, de pratos aos pulos, de conchas gritando com a louça. Nas paredes, azulejos em tons pastéis, com a predominância do azul clarinho; as mesas eram de fórmica, as cadeiras simples, sem apetrechos ou detalhes. Havia um calor de forno que absorvia todo o espaço, para superar o aspecto frio das paredes e do chão de lajotas lisas, brancas e pretas, entremeadas. 


No entanto, nada, nada contava melhor sobre o espaço do que o senhor e a senhora, intensíssimos, que atendiam os clientes no balcão. Naquele momento, eram a alma dali. 


Eu não sabia o que comer. Embora estivesse em clima de viagem, pronta para qualquer aventura, a chuva e o cansaço da manhã me trouxeram um silêncio turvo, uma inquietude, quase uma amnésia para os sabores. Por um instante, me esqueci do que desejava almoçar. E este 'branco' foi essencial no processo: zerei minhas expectativas, e a surpresa me tomou em cheio. Deixei que a senhora, que imaginei fosse a dona do restaurante, decidisse o que- e quanto- me servir naquele prato fundo de louça branca. Tudo em branco, esperando pelo novo que me arrebataria em seguida.
Na vitrine aquecida, as travessas de inox e as cores vivas, as quantidades abundantes, as texturas diversas-das rústicas às aveludadas-, os cheiros tão impetuosos que transbordavam o olfato e pediam atenção dos outros sentidos: era quase possível sentí-los com as mãos. Ela falou, muito rapidamente, sobre cada prato, e disse que eu gostaria do Ragú, que era bom para um dia frio como aquele. Bom: foi a palavra que usou. Mas o bom também transbordou os sentidos, a palavra era outra. 

A Senhora e O Senhor do balcão

Agitada, ou poderia chamá-la de pró-ativa? Decidiu o que servir, pegou o prato fundo, muniu-se da concha, e começou a colocar uma, duas, três...quatro daquelas, do 'Penne al Ragú', sobrecarregando meu estado de ânimo em branco. Ela cantava enquanto completava o prato, num misto de cantoria e de contagem das concharradas, numa plenitude incontida. Tive a impressão de que servir aquelas receitas era uma espécie de mágica que a senhora fazia...
Sentei, então, para o que parecia o exagero do século. 

Com a massa, estava o vinho, que nem tive tempo de tomar, de tão vulcânico o impacto do sabor no meu universo de sensações. E, se estou usando estes superlativos, é porque me parecem a única representação possível da experiência. Prossigo. Dei a primeira garfada, um lampejo de prazer. A segunda, a terceira, a décima: minhas células vibravam com clamor pelas especiarias, pelo cheiro quente do molho, pela consistência da carne, pela cor amarronzada, com ruivos e amarelos e vermelhos misturados por ali. Minhas células celebravam. A vivência me faz lembrar uma multidão em um estádio, fazendo a ola, em um som que vai crescendo em intensidade, quase ocupando um espaço físico por suas proporções. 

Sabores da casa

Em garfadas, tornei-me uma só com o prato fundo de "Penne al Ragú", imergi em sua profundidade, na volúpia dos temperos, no sabor, na imponência da alquimia entre os ingredientes. Estas sensações eram misturadas ao prazer de estar em um restaurante citadino, rotineiro, sentindo-me comensal daqueles que tinham pouco tempo para almoçar e, mesmo assim, permitiam-se aqueles instantes de regozijo. Eu estava ali à passeio, mas vivenciei o deleite de uma cantina de dia comum,  numa rua desconhecida cujo nome descobri pelo Google Earth, meses atrás. Aquele prato era um tesouro perdido, naquele momento. Sentia-me de fato descobrindo um tesouro: mais do que o próprio sabor, toda a vivência do local.

O prato estava na metade do que fora servido, mas pedi para retirarem, assim que percebi que meu entusiasmo me trairia. Finalizei ali a experiência, pois me sentia plena, abastecida de sensações, alegria, bem-estar.

Voltei caminhando para o hotel do Congresso, rumo às aulas programadas. A chuva apertara, mas o deleite do almoço fazia com que eu quisesse passear com calma, captar o cinza-prata da paisagem, embalar-me na anima da pimenta daquele Penne al Ragú. Chovi com a tarde, feliz da vida.

"Ciao!"


                                           Betina Mariante Cardoso






segunda-feira, 25 de junho de 2012

"Transe de Viajante": O Brunch da Oficina de Narrativas de Viagem

Brunch, desenvolvido por Michele Valent, para a Oficina
de Narrativas de Viagem da Luminara Escola de Hobby.
Neste sábado, tivemos a inauguração da Luminara Escola de Hobby, com a Oficina de Narrativas de Viagem. A atividade foi desenvolvida em conjunto com o Felipe Rech, jornalista e criador do aplicativo de vídeos de viagem Viajolândia.com, no Facebook. 
E tivemos, para o brunch e para a merenda da tarde, a atuação excepcional da Chef Michele Valent, que é, assim como eu, Médica Psiquiatra, e desenvolveu seus hobbies de jardinagem e culinária a ponto de se tornarem profissão paralela. No blog 'Un Giardin sul Balcon' ( http://michelevalent.blogspot.com.bré possível conhecer mais sobre a trajetória e sobre os 'feitos' da Michele - em seu 'Giardin', o jardim de sacada que cultiva na cidade de Teutônia-RS, e nas cozinhas por onde passa. E ontem, dia invernal de sol, tivemos uma saborosa experiência com seus 'feitos' na cozinha da casa onde foi realizada a Oficina. 

No primeiro turno, falávamos no prazer que uma viagem traz, vivência 'reconhecida' pelo nosso cérebro como prazerosa, mesmo frente à mera idéia de viajarmos outra vez; e falávamos em outra fonte de bem-estar: a presença do 'Novo' em nosso trajeto. Acontece que a novidade desperta o cérebro, aumenta seus horizontes e potencialidades, aumenta a sensação de alegria de uma experiência gratificante.  Isto, durante uma viagem, muitas vezes se traduz como as surpresas que intensificam nosso bem-estar e nosso prazer. E temos neurotransmissores envolvidos nessa história, mas esta é conversa para outro dia.

Estas surpresas podem ser trazidas de nossa memória de viajantes para a rotina, para nossas criações, para Oficinas lúdicas como a de hoje. Recebemos o brunch na mesa, de cores vibrantes,
Creme de Beterraba e Nozes,
feito pela Michele Valent,
 e decorado com as
flores do seu 'Giardin'

baba de laranja com 
calda de arancello
e begônias, 'feitos'
da Michele Valent.
o aroma chegando à anima, ao som do bate-papo dos participantes e da música agradável tocando, sentindo o gosto das texturas e temperaturas variadas. A mesa estava fantástica e, num repente, me senti em uma viagem: estava de frente a um fato surpreendente, como se todo o cenário tivesse, por encanto, surgido ali. Este é o que eu chamo de transe do viajante, aquela experiência de alegria e "ooooohhhhh" que temos em terra estranha, quando algo nos fornece um choque de surpresa boa. E posso atribuir essa sensação toda de contentamento à estética dos quitutes, à reunião de comensais em torno da mesa, aos sabores que despertavam o cérebro por representarem, para ele, o "novo".

Então me senti como viajante, percorrendo uma aventura de celebração. Havia uma atmosfera mágica, em que o Felipe Rech contava do Viajolândia.com-sua criação, a Michele apresentava seu brunch com ingredientes do seu 'Giardin', a mãe compartilhava sua invenção-a  arte com camisetas de viagem- eu me alegrava pela inauguração da Escola de Hobby...
E todos nós, junto aos participantes da oficina, nos deleitávamos com as iguarias, enquanto  trocávamos impressões de andanças.

Para saber mais sobre a Luminara Escola de Hobby, visite:
http://www.editorialluminara.blogspot.com

Betina Mariante Cardoso

OBS. As fotos publicadas nesta postagem são de autoria da própria Chef Michele Valent.



sexta-feira, 22 de junho de 2012

Seguindo as pistas

"Bolo de Melado da Anilda"

Assim escrevi o bolo, enquanto a Anilda ditava os passos. Refletindo, percebo que receber uma receita desconhecida é muito semelhante a receber o mapa de uma cidade estranha: andamos seguindo as pistas, mas não temos a experiência das ruas, exceto pelo desenho de sua disposição. Em ambas as circunstâncias- quer como quituteira, quer como viajante-, vou procurando estabelecer referenciais meus; assim, na próxima visita à cidade ou na próxima execução da receita, lembrarei, com o corpo, dos parâmetros que estabeleci. Afinal, se as mãos reconhecem a textura da  massa, os pés reconhecem os passos em solo já percorrido.

 Em ação, brincam meus cinco sentidos; os registros, gravados na memória, nascem das impressões vívidas do 'percurso/receita', e são chamados quando o desafio é repetir o aprendizado. Curioso é que, mesmo seguindo as pistas, sempre acho que é possível fazer algum novo caminho, criar novas rotas, ainda se num detalhe qualquer. Eu já disse isso antes: "a bem da verdade, há muitas semelhanças na forma como exploro as cidades e na forma como vivencio a cozinha: nas tramas do acaso". Então, sigo as pistas ou dou o salto no escuro, me lançando no inusitado? 
Ambos, cada um a seu tempo.


Bom, basta de prosa. Aqui, a receita.
Desmanchar 500g de melado com 130g de margarina, deixar amornar; acrescentar a esta mistura 4 gotas de essência de amêndoas; unir 1 ovo; adicionar ao conjunto 1 1/2 colheres de chá de cravo moído; 3 colheres de chá de canela em pó; 2 colheres de sopa de chocolate em pó; peneirar 500g de farinha de trigo com 5 colheres de chá de fermento químico; 125g de castanhas picadas; 125g de passas de uva embebidas no rum. A massa deve assar por  30-40 minutos em forno médio. Quando pronto o bolo, polvilhar com açúcar de confeiteiro ou pincelar chocolate em pó desmanchado no rum.

Betina Mariante Cardoso






Bhaskara no lanche da tarde...

Eu estava passando pelas páginas do meu caderno de receitas, e me deparei com o "Bolo de Melado da Anilda". Esse 'como-se-faz' é dos que tem história. A Anilda é professora de matemática, e me deu aulas particulares durante o segundo grau, por alguns períodos importantíssimos, como quando voltei do intercâmbio e precisava, a todo custo, vencer a matéria em atraso. E até na época do vestibular. Matemática nunca foi meu forte, e tínhamos um professor medonho no colégio.

Mas o encanto estava na atmosfera acolhedora da sala onde eu tinha  aula, na casa dela. O lugar onde eu sentava ficava de frente para a mesa da cozinha, e volta e meia eu espiava algum quitute saindo ali de dentro. Havia uma alegria na casa, e a sensação era sempre de estar indo visitar a Anilda para o lanche da tarde. Em vez da conversa em volta da mesa, eu aprendia trigonometria, matrizes, conjuntos, geometria...E também ria, batia papo, conversava brevemente com o esposo dela- sempre muito simpático com os visitantes, de um sorriso acolhedor e sereno. Assim também era o apartamento: acolhedor e sereno. Lembro de uma sala, de um terraço tipo jardim de inverno, da sala de jantar, onde tínhamos aula, e da cozinha, à frente. Esse é o mapa que minha memória desenha. 

Havia cheiro de casa dos parentes, casa de visitar, de prosear nos respiros da aula. Meu  período de aluna da Anilda, mais ou menos, foi entre 1991 e 1994, mas a sensação é de que ela e o esposo existiram por muito tempo nos meus percursos. Quando me formei na Faculdade, foram à festa, estavam lá. Era tão simbólica a presença deles no cenário, que me emocionei quando chegaram: foram testemunhas de muitas provas e provações, até aquela conquista. A Anilda conheceu uma de minhas maiores 'fraquezas', a Dona Matemática; presenciou períodos de stress, outros de conquista; outros, ainda, de garra e perseverança. Sempre transformando o sabor daquela  matéria, com seu jeito risonho, contando piadas, com o ar afetivo de quem ensina brincando. Lembro do cheiro ácido das folhas escritas à lápis, onde ela ensinava todo o horizonte de números. Chamava-me de "Florisberta Paixão" durante as aulas, servia bolos, chás, cafés, água gelada, refrigerante, sanduíches. 


Houve um dia, num momento de profunda correria e apreensão, em que eu mal sentia o sabor de qualquer coisa além daquelas fórmulas. Era meio da tarde, e a Anilda serviu o bolo de melado com limonada. A fatia de bolo veio num pratinho gracioso de louça , sobre um guardanapo; o suco, em um copo alto, estreito. Guardo um registro muito forte desse momento, pois foi como despertar todos os meus sentidos com o lanche. O despertar de uma 'anestesia' pelo foco excessivo, pela preocupação, pela atenção em algo que me exigia as vísceras. E a vivência daquele despertar, pleno de cheiros, de doçura e do toque caseiro dos bolos feitos ali, ficou carimbada como uma experiência acesa de contentamento. O bolo era, ao mesmo tempo, intenso e silencioso, daqueles amigos que guardam nossos segredos. Ele guardava os meus em seu aroma de especiarias e melado, na cor amarronzada, na mordida consistente e macia, no gosto acolhedor, na música mansa que tem um lar. 

A memória daquela tarde, então, surgiu em mim quando passei pela sua página no meu caderno de receitas, junto à figura da Anilda, com todo o carisma. E, até hoje, me lembro dela servindo o bolo durante a fórmula de Bhaskara.


Betina Mariante Cardoso

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Do meu caderno de receitas


Esta é a página do meu caderno de receitas onde mora minha torta de maçã com castanhas, vizinha do quindão...Dois episódios de meu percurso culinário remoto.
Mais tarde, conto meu "como-se-faz". Por enquanto, deixo aqui o registro afetivo e bem manchado, para entusiasmar a festa na cozinha, nestes dias frios.

Betina Mariante Cardoso





terça-feira, 19 de junho de 2012

Essa tal de "Clara Luz"...

"Mora no oitavo horizonte
um grande leão dourado.
Isso não é muito longe:
é mesmo aqui, ao meu lado"
A Fada que tinha Idéias, pg. 38*


Bom, de algumas mirabolâncias que já contei por aqui, dá pra pensar de onde tiro essas maluquices, como "aula de Nega Maluca", bolo ao contrário, bolo inventado, melodia do manjericão, bagunça feliz, e assim por diante...Pois é.

Li, pelos nove ou dez anos, o livro "A Fada que tinha idéias", da Fernanda Lopes de Almeida. E, acredito, foi a grande força motriz para meu gosto por 'inventar moda'. A personagem, Clara Luz, era uma fadinha que não perdia a chance de dar vida às idéias, às próprias mágicas. Dizia: "Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda." E esta frase, em especial, despertou em mim uma curiosidade cintilante pelo novo, pela criação. Às vezes, e tantas vezes, criei por nada, pelo próprio prazer de dar vida à idéia, de fazer acontecer a faísca que nasce sem aviso. Acho que a imaginação,TOC-TOC-TOC, bate na porta e quer entrar no mundo real, vestida de idéia.

Sem mais nem porquê. Simples assim: para o novo nascer.

E foi isso que aprendi com a Clara Luz. Num ponto da história, ela lê, na receita para fazer os 'bolinhos de luz': "maneira de fazer: mistura-se bem os raios de sol e de luar, até saírem faíscas. Junta-se então o fermento de relâmpago". E pensa: "Fermento é que faz o bolo crescer. Se, em vez de uma colher de chá, eu puser um relâmpago inteiro, vai sair um bolão enorme.(...)"; acabou indo para a janela, esperar os relâmpagos que passavam pela frente de sua casa. Convenceu um relampagozinho, filho mais novo dos cinco, de uma família que cruzou por ali, a entrar no bolo:
"Garanto que você vai adorar. Até podemos combinar assim: no meio da festa você pula de dentro do bolo e dá um susto danado em todos."
O tal pulou dentro do bolo, e fez a cozinha se iluminar até o teto, a massa escorreu, fazendo brilhar a casa toda, espirrou pelas janelas e até pingou para fora da Via Láctea, onde moravam todos. Isso porque a Clara Luz era dona de fazer mágicas que não estavam no Livro das Fadas. A narrativa é de um encanto que só lendo. Cada frase é uma preciosidade, uma gostosura, uma porta aberta para a imaginação brincar à vontade. Algumas páginas além, Clara Luz tem aulas de "Horizontalogia", e já começa dando palpites. Por exemplo, diz para a Professora que quer ter aulas no horizonte, brincar de escorregar no arco-íris, e vai inventando brincadeiras, mostrando, acima de tudo, que "existem muitos horizontes."
Pronto. Fechei o livro. Percebi que, se me entusiasmar contando, tiro a riqueza que há neste universo de idéias e fantasia, que é "A Fada que tinha idéias". É algo que deve ser lido, saboreado em essência, com o desejo de avançar nas páginas com a mesma faceirice da fadinha. Lembro de quando li, pelo tanto que me marcou: todo ele era de uma 'realidade mágica' fascinante, eu lia e lia. Saber que é de mentirinha, numa leitura destas, não importa: há uma parte que vive em nós e que extrai da história toda a pulsação de imaginário que ela pode dar, anseia passar à próxima, à seguinte, até chegar à última página, tendo vivenciado cada aventura da personagem. Clara Luz tinha idéias e colocava-as em prática, e esta foi a principal mensagem que, quando criança, tive do livro: dar vida às idéias. 

E foi a mensagem que trouxe comigo, desde lá. Sempre reli "A Fada que tinha idéias", é um livro para todas as idades. Acima de tudo, a história me presenteou com a forte crença de que tudo é possível, de que é preciso acreditar nas próprias idéias, como a Clara Luz fazia. Claro, como a adulta que vos fala, tenho que ressaltar o fator bom-senso. Sim, estou falando em idéias razoáveis, noutras mirabolantes, todas dentro de um espaço de risco adequado. Mas, fora esta porção de realidade adulta, que todos conhecemos, quero mencionar a importância que teve pra mim a frase "Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda.". Ter esta noção, no meu território de liberdade, motivou-me a acreditar que é possível ter idéias, correr riscos aceitáveis, inventar receitas, reinventar receitas, bagunçar a cozinha, dar vida à estante, compartilhar com a caneca vermelha minhas experiências... E acreditar que são possíveis tantos passos que dei, devagarinho, para alcançar propósitos. Mesmo que fossem chocolates, bolos, quitutes em geral. Ou decisões importantes. Ler a Clara Luz foi revolucionário porque me deu uma bagagem para atravessar horizontes com a dose de fantasia e de brincadeira que impulsiona a caminhar para frente, com a confiança de que ter idéias vale a pena.

E é sempre uma leitura única, prazerosa, para se degustar com um bolo de maçã com castanhas e chá quentinho.

A receita?

Ah, essa é uma outra conversa...

Referência:
 A Fada que tinha idéias, Fernanda Lopes de Almeida.
São Paulo, Ed. Ática, 1985.







segunda-feira, 18 de junho de 2012

Novas façanhas da "Nega Maluca"


Pois bem. Alguns de vocês já leram "O Erro que virou receita", "A Genética da Nega Maluca" e "O bolo inventado como território de criação", neste blog.  Naquelas conversas, escrevo da receita que acompanha a minha vida toda, a da Nega Maluca. Fiz esse bolo tantas vezes, em ocasiões tão diversas, que perdi a conta. Criei outros a partir dele, mudei ingredientes do original para experimentar- e até pimenta calabresa em flocos já coloquei-, tripliquei as quantidades sugeridas para a cobertura, para deixar tudo maciozinho por dentro e firme na superfície. Bom, não sei dizer em que ponto da vida  eu conheci a receita, acho que foi nos primeiros aniversários lá de casa, primeiros mesmo. O sabor é tão antigo ou mais do que a lonjura da minha memória. O que eu mais lembro é que a verdadeira Nega Maluca da nossa família sempre foi servida em quadrados, com o ‘glacê’ mergulhado na massa, e durinho por fora. Coisa boa!

Tudo isto já foi contado, aqui e acolá. Então, hoje venho contar mais uma façanha  minha com a "Nega Maluca", ou melhor: duas façanhas. Por quê? Na postagem "Histórias do 'como-se-faz'", refiro que me sinto comensal também quando compartilho o preparo de um quitute com pessoas queridas, ou quando troco receitas com amigos passados, presentes e futuros. Escolhi, assim, ilustrar o quanto o 'fazer' conjunto na culinária pode ser uma experiência tão ou mais significativa do que o próprio deleite do nosso feito.

Quando pequenos, meu irmão e eu fazíamos o ‘bolo inventado’, coordenados pela mãe, em que entrava de tudo, até coca-cola (e ficavam ótimos os bolos), mas a receita de base, em termos de elementos e quantidades, adivinhem...era a da Nega Maluca.

Em algum ponto do percurso, comecei a fazer o bolo, peguei gosto, e dali em diante me apaixonei pelo ritual que envolve o ‘fazer bolo’: desde colocar os ingredientes, um a um, na bacia, prestar atenção nas mudanças de cor e textura, sentir o cheiro da massa recebendo a anima de ‘bolo’, ser ‘parte’ da receita, eu inteira ali, em cada ato orientado no ‘modo de fazer’. Talvez este tenha sido o ponto: fiz tantas vezes, e com tanta entrega para a alquimia, que posso dizer, sem exagero, que a nossa receita da Nega Maluca se tornou uma parte da minha identidade. Não me refiro só à identidade culinária, vai além. Fiz o bolo em situações muito significativas, compartilhei este sabor com gentes de muitos lugares, épocas, circunstâncias diferentes,  experimentei emoções inéditas e  aventuras curiosas: tudo isto  fez com que muitas das minhas memórias tenham sabor de Nega Maluca. Aprendi com a mãe a fazê-la, todos os truques, cuidados, segredos...

Devo confessar. Uma situação, dentre todas, carimbou a Nega Maluca na minha vida, e na ocasião eu nem poderia imaginar que aquela cena seria lembrada para sempre.

Tenho quase certeza quanto ao período, mas ficou uma névoa: parece que a cena ocorreu em um tempo vivo, próprio. Primeiro ano do segundo grau, 1991. Aula de Espanhol. Os alunos se reúnem em grupo para a tarefa, ou preparam, sozinhos, uma apresentação no idioma. Decidi dar aula de Nega Maluca.

Abre parênteses. No ano anterior, nas férias de julho, havia passado duas semanas em La Plata, na Argentina, na família de amigos de infância, Maria Ema, Eduardo e Ana Inês, e seus pais, ‘Tia’ Ana Lia e ‘Tio’ Jorge. Minha primeira viagem aérea sozinha, aos quatorze anos, com crachá de ‘Menor desacompanhada’ no peito e o vento de viajante me impulsionando. Foi fantástico, antológico, único aquele universo que descobri durante a quinzena. Muitas brincadeiras, risadas, passeios, conversas; enfim, tudo que há de melhor quando estamos com amigos da vida toda. Foi uma estadia mágica e, participando da comunicação da família em espanhol, aprendi muito da sonoridade, melodia, pronúncia aspirada do idioma, e adorei. E, claro, fiz uma Nega Maluca em La Plata. Foi uma festa da compra dos ingredientes, no dia anterior,  à preparação do bolo, de manhã, passando pela espera pela hora do café da tarde, espera arduamente respeitada. A receita em mim é tão vívida, tão incorporada, que sinto como se fizesse parte da minha pele; o estado de espírito é sempre de uma brincadeira de criança, uma mistura que se torna algo real, delicioso, perene. Fizemos juntos o bolo, compartilhamos a diversão, transmiti não apenas a receita, mas a anima da receita, as sensações que cada etapa produz, a observação dos passos, das mudanças que a massa vive ao longo de sua jornada, da textura ideal ao fim do processo. Quando vi, eu tinha ensinado, na cozinha  da casa de La Plata, a nossa Nega Maluca. Pela primeira vez.

Lembro dos cheiros, das cores daquela manhã, do ar de festa que tomou a atmosfera, pela colaboração no preparo do bolo, lembro dos olhos atentos ao aspecto da massa, à ordem dos ingredientes, ao meu jeito de mexer, calmamente, dando vida à mistura, à medida em que esta recebia, ofegante, seu cheiro marrom de Nega Maluca. Fizemos a cobertura, com a rapa da panela disputada ferozmente, e chegamos à dolorosa etapa final: esperar a casquinha endurecer por fora. Só no café da tarde, mesmo.

Fecha parênteses. Frente ao desafio de dar aula de Nega Maluca em espanhol, me reportei aos amigos de La Plata. Afinal de contas, sabiam a receita, tinham vivido a experiência do bolo junto comigo, conheciam os ingredientes  e os resultados. Em uma época em que a comunicação era por cartas escritas à mão, ou pelo telefone de casa, combinei de pedir ajuda para preparar a aula no idioma: precisava saber os termos culinários, a pronúncia ideal, a melodia da fala. O que as cartas não alcançavam, a ligação telefônica ajudava. Foi um preparo longo. Escrevi a receita, enviei pelo correio, junto a uma das cartas enormes que escrevia, contando tudo sobre tudo, inclusive referindo que a idéia de dar a aula deste conteúdo nascera nas férias que passei com a família.

Corrigiram minha receita- tentativa de escrita em espanhol-, acrescentando dicas de como dizer isso ou aquilo de um modo ‘conversado’, menos no infinitivo e mais  no presente do indicativo: Agora mexo, então coloco o leite, e por aí vai. Expressões idiomáticas, pausas e tons reforçados nesta ou naquela palavra. Esse jeito de contar a receita por escrito,  como fizeram ao retornar o texto corrigido, foi algo que ficou carimbado na minha memória, desde lá. Talvez tenha algo a ver com esta curiosidade que tenho sobre a receita culinária como narração, como um ‘contar histórias’. Adoro pensar sobre isto, e tenho conversado muito com a Maria das Claras, que estuda esses assuntos de cozinha.

Pois é.  Recebi a carta, treinei a pronúncia, e chegou o dia. Já era o meu segundo ano de Espanhol, eu me dedicava bastante, e meu gosto por idiomas sempre me fez arriscar a fala, mesmo errando, até engrenar. O período em La Plata, com certeza,  contribuiu muito para minha prática. De algum modo, estava falando bem, com fluência, e com muito treino da receita. E estava nervosa: na véspera, já me parecia maluquice aquela idéia. Entrei na sala vazia, na hora do recreio, para preparar o cenário. Lá fora, pela janela, uma tarde chuvosa. No quadro negro, escrevi os ingredientes e o modo de fazer, em espanhol. Tudo pronto, era só começar. Deixei os ingredientes sobre a mesa do professor, para mostrá-los, um a um, durante a explicação. Enquanto eu falava, realizava a ação indicada. Aula de culinária, mesmo. Um respiro até o fundo, para ganhar coragem naquela tarefa tão inédita.

[Boa tarde! Estou aqui hoje para ensinar como fazer a Nega Maluca, uma receita especial do Brasil, e, ao final desta aula, vocês sairão prontos para fazer este bolo em sua cozinha!

Bom, a primeira coisa é separarmos os ingredientes. Uso a farinha de trigo, o açúcar, o chocolate em pó, o óleo, os ovos, o leite, e o fermento químico. Deixo sempre tudo separado, pronto para a hora de trabalhar. Precisaremos da bacia, de uma xícara, de uma peneira, e de uma colher para mexer a massa.

Começo colocando duas xícaras de farinha, peneiradas. Acrescento uma xícara e meia de açúcar, e uma xícara de chocolate em pó, e misturo tudo, até atingir uma cor marrom clara, resultado da mistura dos três ingredientes. Coloco meia xícara de óleo, e mexo atentamente com os ingredientes, percebendo que a mistura fica úmida, mais escura, e o cheiro começa a modificar. Boto três ovos, um de cada vez, mexendo bem cada um deles com o conjunto, até a massa ficar mais homogênea. É quando ela começa a ter o viço da Nega Maluca, e o aroma vai se transformando, seguindo as mudanças na cor. Os ovos vão deixando a massa macia, com cara de ‘massa de bolo’, mas é só o começo. Coloco uma xícara não muito cheia de leite, aos pouquinhos, e de pouco em pouco vou misturando, e fazendo, com a colher, um movimento em espiral no sentido horário, com a colher com a concavidade voltada para baixo, no início do movimento, e para cima, no final do movimento. Vou sentindo a massa, à medida que misturo, quanto ao peso ou leveza para mexer, o tom mais escuro e brilhoso do marrom. Peneiro o fermento químico, um pacotinho ou uma colher de sopa, e misturo bem, até que tenha sido totalmente incorporado na massa.

Unto a forma com manteiga e farinha e coloco ali a massa. O forno devo pré-aquecer por em torno de dez minutos e, ao colocar o bolo ali, na porção inferior deverá ser colocada uma forma de tamanho semelhante com água já aquecida, para acompanhar durante todo o tempo. Em média, faço este bolo em 50 minutos, uma hora, a 180ºC.

Enquanto o bolo cresce, mais para o final do processo, faço a cobertura. A receita é de três colheres de sopa de açúcar, três colheres de sopa de leite, três colheres de sopa de chocolate em pó, e uma colher de manteiga. Sempre triplico as quantidades para cada receita de Nega Maluca, sem mudar, no entanto, a quantidade de manteiga. Coloco, então, 9 de açúcar, 9 de leite, 9 de chocolate em pó, mas apenas uma de manteiga, para manter a textura da receita, pois em minhas anotações tenho que, ao aumentar a manteiga, perco o ponto adequado da cobertura. Mexo com a colher de pau, até que o marrom fique bem escuro e intenso, quando começa a ferver. Desligo. Nesta hora, o bolo deve estar pronto, e é quando posso abrir o forno (nunca abro antes dos 45- 50 minutos). Texto com o palito até o fundo e, se este sair sequinho, está pronto! Com a faca, faço linhas na vertical e depois na horizontal, para formar retângulos, cortando as linhas na profundidade do bolo. Coloco a cobertura, deixando que entre pelas aberturas, e espalho também na superfície do bolo, sem deixar nenhum espaço descoberto. “Devolvo” o bolo para o forno, agora apagado, e espero até que a cobertura, na superfície, esteja ‘sequinha’, com um som abafado ao toque da colher. Este é o melhor momento, o momento em que podemos nos deliciar com nossa receita!]

E, num movimento rápido, tiro a forma de Nega Maluca de baixo da mesa de madeira do professor, como se estivesse tirando o bolo do forno, naquele momento. Faço um gesto teatral, levantando o bolo ao alto, para mostrar. No rosto, um  sorriso triunfante de quem concluiu uma tarefa árdua. E muito, muito divertida!

Sirvo os colegas, que se enfileiram para receber o pedaço de bolo, com o retângulo marrom pulsando sobre o  branco guardanapo de papel.


Betina Mariante Cardoso


domingo, 17 de junho de 2012

Bagna Càuda: da tradição oral ao "www"

Encontrei uma diversidade encantadora de versões da 'Bagna Cauda', nesta semana- uma descoberta curiosa para estes dias frios que, me parece, vieram pra ficar. Vi a receita da revista, outras possibilidades no You Tube, uma versão interessantíssima na página oficial do Piemonte, vídeos com as histórias do 'como se faz' da Signora Albina e do Signor Pietro, e mil horizontes. Então, fui tomada de um  desejo invernal de arrumar uma mesa bem alegre para compartilhar este quitute com amigos. Alho, anchovas, óleo, manteiga, nata, leite, legumes crus, legumes grelhados: tudo isto tem, assim-ou-assado, em cada preparo. 

Edição da 'El Gourmet", Argentina

A magia está na partilha, sim, mas também neste prisma de formas de seguir a tradição piemontesa. Tive um devaneio. Ao fazê-la, posso ser parte do substantivo coletivo: o conjunto de sujeitos que, ao longo da história, prepararam a 'Bagna Càuda', a 'Bagna Calda', a "Bagna Caoda", a bañacalda...Em suas cozinhas e em seus cadernos de receita, em moldes antigos e modernos, em páginas de receitas online, no Wikipedia, nas vozes de italianos que contam sua versão, de argentinos que transmitem a receita como a receberam...

Agradecimento à natureza, celebração do vinho novo, festejo de amigos, tradição regional, bagagem afetiva de imigrantes do Piemonte na Argentina, idéia de um prato original no frio do outono-inverno, novidade em uma revista de cozinha, transmissão de uma receita de camponeses do Medievo atualizada à tecnologia do Século XXI. 

Enfim, a Bagna Càuda  vivenciada em perspectiva multimidia: escrita, em foto, em vídeo, em voz. E o que permanece, através dos tempos e lugares, é a comunhão da mesa alegre entre os comensais.

Em uma das versões que vi, num site italiano de culinária, leio que uma receita para 4 pessoas apresenta:
 -100g de anchovas espanholas
-1 taça de vinho
-50g de manteiga
-1/2 copo de óleo
-7 dentes de alho
-1/2 copo de leite

e mais...
-1 dia frio de outono ou inverno 
-legumes da estação, crus e cozidos
-pães
-amigos em volta da mesa, qb 

Limpe as anchovas e 'lave-as', rapidamente, no vinho. À parte, deixe os dentes de alho repousarem no leite, por uma hora (em um dos vídeos, sugerem o repouso de uma noite...). Passada a hora- ou a noite, como preferir- coloque em uma panela com óleo, em fogo lento, a mistura de alho e leite. Separadamente, aqueça a manteiga e, antes que ferva, coloque ali o composto do alho com o leite. Desmanche por completo o alho no conjunto, misturando bem; só então una as anchovas, preparadas no início, continuando a misturar tudo por, ao menos, 20 minutos, até que elas também se desmanchem totalmente no molho. Se preciso, pode-se usar um mixer para tornar o molho homogêneo.

Obs. Como existem muitas variações no 'modo de fazer', entre uma receita e outra, reuni aquelas semelhantes na explicação acima.

Servir no Fujot, com legumes crus, cozidos, pães...
Compartilhe com os amigos, num almoço em dia frio.

E bom apetite!

Betina Mariante Cardoso



E o 'Modo de Fazer' do Signor Pietro:
http://www.memoro.org/it/La-Bagna-C%C3%A0uda-di-Pietro_986.html

Agora, encontre o seu "Como-se-faz"!


sexta-feira, 15 de junho de 2012

As histórias do "como se faz"

Enquanto pesquiso versões da "Bagna Cauda" para escrever no blog, fico curiosa sobre o ritual de agradecimento à natureza e, principalmente, sobre a celebração dos comensais em torno dos legumes, pães, ovos,  e da vasilha de terracota. Ali habita o molho de anchovas, alho, manteiga, azeite de oliva e, em alguns casos, creme de leite. Conhecendo variações, lendo este ou aquele modelo, imaginei qual deles eu faria, onde serviria, e em que ocasião apresentar a "Bagna Cauda" seria minha escolha. Dia do amigo! Pois, para mim, de todos os aspectos envolvidos na tradição do prato, o significado da partilha é o principal.

E então pensei que esta partilha do alimento, o "comer juntos" é uma expressão belíssima do convívio, do prazer entre as pessoas; no entanto, há também outras, feito o "preparar juntos" um quitute, e aquele deleite, mais rotineiro, de dividir o relato de uma receita. Para mim, quando recebo de alguém um "como eu preparo"isso ou aquilo, ou quando transmito meu "modo de fazer", sinto que sou tão comensal deste amigo como se estivéssemos  à mesa, numa saborosa refeição, daquelas com muitas risadas e conversas.

Meu caderno de receitas

Bom, conhecer o simbolismo que envolve a "Bagna Cauda" me trouxe um encanto ao imaginário, um desejo de conversar de cozinha, de gente falando e rindo, enquanto prepara o bolo para o chá da tarde. Vieram, na lembrança, as receitas que ouvi e que contei: memória de pessoas muito importantes na minha vida. Das avós, tias, primas, todas trocando escritos de forno e fogão. E já fiz muitos bons amigos só por começar a prosear de cozinha. Ingrediente aqui, faz-assim-faz-assado ali, compartilho um tesouro com quem vivencia comigo a paixão por ouvir histórias: as histórias do como-se-faz.

Na "Bagna Cauda", a tradição manda que se desfrute do prato com prazer, em volta da mesa, com amigos e em uma demorada celebração de convivência e afeto. E isto é muito próximo ao que acontece quando conversamos sobre receitas, com amizades mais antigas ou com alguém que, pura Serendipity, divide conosco uma tarde de saborosa conversa culinária em um ônibus de viagem. Numa postagem futura, conto de como as receitas me presenteiam amigos.

E há tantos  exemplos, registros de como um simples "modo de fazer" nos torna comensais de quem conta, pelas imagens e vivências que ele evoca. E, a meu ver, esta é uma fortuna incalculável!

Betina Mariante Cardoso

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Da receita e seus cuidados...


Bolinhos para o dia dos Namorados:

Receita daquelas que cada caderno tem de um jeito. Variações nos ingredientes, modo de fazer, temperatura do forno, tempo de preparo. No meu, deixo adormecerem os bolinhos em sua constância, que despertem na manhã seguinte com sabor de dia novo. Regra não há: dou uma chuva de açúcar de confeiteiro, desenhando o espaço em comum, onde os dois corações habitam e convivem. Dois.
Dispostos no prato, dançam, simplesmente. 

Harmonização? O amor, em essência pura.

Betina Mariante Cardoso