quarta-feira, 16 de maio de 2012

Amadora por Paixão


Às vezes, quando a correria cotidiana é demasiada, fica difícil manter a rotina de um hobby na medida do que desejo, e então deixo de escrever no blog todos os dias, ou de preparar algum quitute durante a semana. "É assim, mesmo", eu me digo, absolvendo minha ausência daquele que é um espaço que criei para mim. Paradoxal, se o compromisso é só comigo?
 Para mim, o hobby é um espaço interno ( e um tempo interno) que se projetam para alguma atividade que dá prazer, e ele é individual e intransferível, ainda que se faça em conjunto com outras pessoas. Meu hobby é meu, e discordo que passatempo signifique o mesmo, como em algumas definições que vi. Acho que passatempo está aquém do hobby, pois não crio uma atmosfera de prazer apenas para passar o tempo: meu propósito é gerar movimento de vida, é existir numa forma específica, a do regozijo, do prazer, mesmo que por alguns minutos do dia. Isto é vital para minha saúde, não imagino a existência sem um hobby.
Sobre o paradoxo que acionei, acima: se assumo um compromisso com a escrita, por exemplo, combinando comigo que virei ao blog compartilhar emoções culinárias a cada tantos dias, preciso cumprir a combinação. Preciso saber que mantenho respirante meu propósito, não apenas pela disciplina do cumprimento de um plano, mas principalmente porque é um espaço de lazer que me propicia criar. Respeitar a combinação é respeitar meus anseios e a necessidade, pura e simples, de seguir meu hobby. Por isso "absolvo" minha ausência de mim, quando não participo de minhas atividades como gostaria; não é um mero "não-fazer", e sim um "não-fazer conscientizado". É ótimo que eu perceba, e você também, que descumprir uma meta de lazer não é mais aceitável do que descumprir outras metas de saúde, de trabalho, de rotina. Então, usei um termo forte como "absolver", exatamente para provocar essa sensação de gravidade com o ato de relegar a atividade de lazer ao não-feito. 
Excessiva auto-exigência, talvez. No entanto, perguntei "Paradoxal, se o compromisso é só comigo?", como se o "só comigo" fosse um detalhe irrelevante, já que não há testemunha. E não é verdade que raramente deixamos de caminhar com um amigo se tínhamos combinado? Muitas vezes, acho que não é pelo caminhar, e sim pelo escrutínio da testemunha. Combinamos, e não queremos fazer feio. Mas isso ocorre menos quando traçamos um plano individual. Quando o acordo é "só comigo", discumprí-lo é uma questão que não preciso contar pra ninguém: não vou na aula de culinária e ponto. Estou com preguiça e ponto. Ninguém vai ficar sabendo, se eu não contar que não fui.  Como se o fato de ninguém ter nada a ver com isso tornasse a ausência de mim, nas minhas coisas, menos importante.
Estou dando um exemplo hipotético em primeira pessoa, pensando em como poderia ser mais fácil desfazer um trato em que sou o único sujeito de minha frase, mesmo que a única interessada na execução da ação seja eu mesma. Ainda bem, vivencio meus hobbies como ações imprescindíveis na minha semana; entretanto, tenho meus períodos de inadimplência com o lazer, quando a turbulência do cotidiano me absorve "de sopetão". Fico atenta, procuro retomar, assim que possível, as atividades prazerosas. O que me preocupa é ver que muitos encaram "ter um hobby" como luxo, quando esta é uma prática importantíssima para a saúde. 
Além do profundo bem-estar que provoca a atividade de lazer, sob os pontos de vista orgânico e psíquico, acredito de fato que ter um hobby estimula o reforço de aspectos da nossa identidade. Para escolhê-lo, é necessário que conheçamos bastante sobre quem somos, de que gostamos, o que nos dá prazer. E este auto-conhecimento é uma bela apropriação de campos nossos que, de outra forma, ficam esquecidos sob as montanhas das obrigações, burocracias, rotinas. Reconhecer aptidões nossas nos propicia deleite, sorriso farto, aconchego, prazer, aventura, e assim por diante. É mais um domínio posto em ação, por nós mesmos. Nos conhecemos mais, nos estimulamos mais, vivemos mais. E isto não porque o hobby nos absorva de todo, mas porque é um território de  liberdade que nos autorizamos a ocupar em nós. E isto também dá muito prazer. 
Um exemplo. Sou quituteira amadora.
Amadora porque: 1) não é minha profissão; 2) amo fazer quitutes (risos...)
Ontem li que o indivíduo que tem um hobby sempre será um amador na atividade, pois aquela não é sua profissão, a menos que, com o desenvolver progressivo do talento, haja uma mudança de perspectiva.  Depois me dei conta do "amador" como brincadeira do "amar", que é requisito essencial para o desenvolvimento de uma atividade de prazer. 
E posso ser amadora a vida toda, bem satisfeita, se a vivência do lazer for plena, regozijante. E vai além: se eu concordar em me comprometer, de verdade, em seguir os combinados que traço comigo mesma; me comprometer com a relevância do lazer dentro da rotina, nos entremeios do dia, e não algo aleatório, excluído do calendário semanal e relegado ao acaso do "quando der".
Descobrir um hobby e cultivá-lo é como explorar um espaço vibrante, e desconhecido, do mundo interno. Acho que é como fazer um piquenique dentro da gente...

E como é bom!

Betina Mariante Cardoso




4 comentários:

  1. Gostei muito da 'conversa' sobre hobby!
    Da importância de ter e manter este compromisso assumido individualmente.(parece que foi pra mim, rsrs)
    Gostei de entender, num melhor sentido, que posso até querer ser 'amadora a vida toda' naquilo que faço.
    Olha, foi quase um serendipity comigo mesma...

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    1. Que ótimo, Lena! O Hobby é um território de liberdade, de expressão! E faz um bem enorme pra saúde! Faz bem pra nossa biologia do prazer!

      Acabei de escrever sobre piquenique...É uma das maiores pulsações que tenho em termos de lazer!

      Gracias por compartilhar tua percepção!

      Beijos,
      Betina

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  2. Essa estória de falhar com a gente mesma é meio complicada de comentar. Fia mais do ver o lado feio da gente. É muito fácil abril um sorrisinho bobo e converncer aos outros que estamos bem do que olhar para dentro e encarar a gente mesmo. Mas ter um hobby é quase uma obrigação. Pena que esta obrigação só seja possível ser cumprida quando todas as outras já tiverem sido alcançadas. Tô tentando. tô chegando. lá. Beijão. Jussara.

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    1. Jussara, querida! Obrigada pela visita!!!
      Pois é, mas o hobby não precisa esperar para o "depois de as outras já terem sido alcançadas", e este é o desafio, a meu ver...O Hobby não é algo tão supremo que possa ocorrer apenas no final, depois de todos os sacrifícios cumpridos. Sua existência é no durante. Sei que este seria o ideal, nem sempre possível, mas é isso aí: tentando, chegando lá! Obrigada e beijão!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina