quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Solitude e seus Cardápios



Meu Clássico: Panforte e Espresso,
'merenda'  no Bar Duomo,
vizinho da Torre Pendente
Caffè dell´Ussero, pela manhã.
Vizinho ao Relais dell´Ussero
Osteria dei Santi,
meu almoço rotineiro.
Na  Via Santa Maria,
 vizinho ao Hospital


Há algumas postagens atrás, escrevi sobre o período de estágio médico que realizei em Pisa, em junho  de 2004. Já são oito anos de toda a descoberta que a viagem me proporcionou. Saí de Porto Alegre dia 25 de maio, disposta a conhecer o lugar em suas nuances, aberta aos bons ventos. Nos textos "Pisa Além da Torre", "Manjericando" e "Habitando o novo", conto algumas das sensações e vivências, em que os sabores foram personagens fundamentais do meu percurso. Percorri ruas inusitadas, encontrei delicatessens em que o cheiro, já na porta, me deixava inebriada, fui à feira vizinha, me apropriei de pedacinhos culinários da cidade, imergi  no prazer das refeições em (aparente) silêncio. Os sabores compuseram grande parte do meu roteiro pela quarentena. E houve também o roteiro para dentro de mim, relacionado às emoções da cozinha, que incluiu a rotina de eu tomar café da manhã, almoçar e jantar comigo mesma, na maior parte dos dias. Sim, tive momentos de riquíssimo compartilhamento com amigos brasileiros que então moravam na cidade, mas esta é uma outra conversa, para os próximos dias. A descoberta que fiz, e que me rendeu boas tardes de devaneio, é que eu aprendi a estar comigo. Eu, que adoro bater papo, brindar, sentir a presença das pessoas queridas por perto, me surpreendi muito ao conhecer a solitude como um momento único, nem melhor, nem pior do que aqueles em que almoço ou janto em companhia. Apenas diferente.

Aqui em Porto Alegre costumava, vez que outra, fazer alguma refeição de lazer sozinha, mas era principalmente tomando um expresso e estudando em algum café que isso acontecia; na rotina atribulada da graduação e da especialização, fazer um lanche em silêncio comigo, ou comer algo para seguir a jornada de trabalho, era o normal. Contudo, nunca parei para pensar se poderia ser prazeroso. Era o dia-a-dia.

Num período mais longo, em que, além do estágio, havia também muitas possibilidades de percorrer  lugares e 'episódios' novos, eu precisaria explorar minha permissão para aproveitar o que tinha pela frente. E sozinha.
E foi o que fiz. Lá, também vivi as refeições cotidianas, o dia-a-dia particular de uma temporada. O mais curioso foi sentir a transformação dos primeiros dias, ainda vividos como 'férias', em 'dias normais', após o início do estágio. Dias que tiveram seus cardápios.

Descobri um mundo novo em mim, naquela espichada lista de café-da-manhã, almoço e janta em que precisei conviver com meus assuntos, minhas reflexões, minhas memórias, e com as belezas e novidades que eu conhecia em solitude. Não ter com quem trocar, diariamente, fazia com que eu precisasse me fazer companhia. Fazia com que eu precisasse estar ali presente com quem me tornava. A cada descoberta de uma nova rua, de um restaurante peculiar, de uma iguaria regional, de uma cena efêmera, mas pulsante.

Nos finais de semana, se não encontrasse os amigos, passava o dia fora da cidade, ou inventava trechos curiosos ali mesmo. Mapas de mim que construía à medida que participava do ritmo festivo que Pisa tem, em junho. Todas as manhãs, me sentia viva no cenário de preparação da Luminara di San Ranieri, caminhando pelas avenidas que contornam o Rio Arno, e nas ruazinhas laterais e cheias de vai-e-vem. E os gostos acentuavam essa sensação de pertencença: o Budino di Riso do Caffè dell´Ussero; a salada de almoço, coroada com os 'Cantuccini con Vinsanto' após a sobremesa; o lanche rápido: um sanduíche de presunto de parma com alcachofra, em frente à Torre Pendente, quando o dia de atividades no hospital era corrido; a jantinha leve em um dos cafés que fecham cedo, ou o folhado de espinafre com um copo de iogurte, quando tinha alguma pesquisa para fazer até a madrugada. 
Os sabores significavam passos conquistados ali, existência de territórios que, todo dia, expedicionava. Acho que sentia assim: eles eram as testemunhas de tudo o que eu passava a conhecer, do meu dia, do prazer que cada nova conhecença da região propiciava. Indo mais longe, os sabores tornavam-se parte da minha identidade, fixando-se na memória pela emoção que despertavam em mim. E, como eu estava sozinha, era 'obrigada' a permanecer atenta ao momento presente, com todos os cinco sentidos:  aprendi assim a registrar a experiência gustativa, olfativa, visual, auditiva, tátil, pelas minhas degustações de sabores e de seus lugares.  Ocupava a refeição com minhas percepções sobre o prato, sobre o doce, sobre as virtudes do panforte, e sobre meu caminhar pelo mapa 'de papel'.
Num outro âmbito, gravava' toda essa plenitude em mim, pela viçosa lembrança do sabor, e adquiria, pouco a pouco, intimidade com emoções e sentimentos desconhecidos. Eu me alegrava simplesmente por perceber como era possível vivenciar aquela solitude, com tudo o que pudesse extrair dela para a expansão do meu 'mapa de dentro.'

Acredito que haja, de fato, inúmeras formas de se fazer isto em uma viagem: a introspecção tem diversas vestes quando estamos fora de nosso habitat. 
Embora eu tenha viajado sozinha outras vezes, usufruir de Pisa e arredores mostrou-me espelhos de mim que eu desconhecia, compartilhando de quase todas as refeições só comigo mesma. O que mais me surpreendeu foi que isto ocorria na rotina e no lazer, e o cotidiano se tornou uma agenda memorável. 
Bom, mas ainda há o que contar: a preparação de quitutes na minha mini-cozinha, para a festa da Luminara di San Ranieri!

A seguir...

Betina Mariante Cardoso

7 comentários:

  1. ... " Eu me alegrava simplesmente por perceber como era possível vivenciar aquela solitude, com tudo o que pudesse extrair dela para a expansão do meu 'mapa de dentro.'
    Muito bom de ler, como tem sido até aqui, este foi mais um texto 'saboroso' Betina...

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    1. Obrigada, Helô! Adoro tua participação neste percurso de escrita e leitura!!! Beijos!

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    2. Lena!!! Gracias por compartilhar as leituras, 'dando a receita' pra Lete! Fiquei tri lisonjeada!!
      Beijos!

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  2. "Não ter com quem trocar, diariamente, fazia com que eu me precisasse fazer companhia"
    Tão simples ...e tão profundo ...e dito com tanta propriedade!
    Tocou no coração!
    Amei...parabéns!!!

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    1. Beth, querida! Que bárbaro receber tua visita por aqui!!!! Obrigada pelo comentário, fiquei muito feliz!

      Volte sempre!!!

      Beijos!

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  3. ...e pra mim: "Não ter com quem trocar, diariamente, fazia com que eu precisasse me fazer companhia. Fazia com que eu precisasse estar ali presente com quem me tornava."...ao sabor da leitura e o gosto de ver traduzida as próprias sensações. Delícia de ler, Bê! E gracias Lena por me 'passar a receita' :) Beijo às duas

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    1. Querida!!!!! Que bom saber que agora passo a compartilhar, também contigo! Tem sido uma experiência muito gratificante esta partilha nos escritos e leituras, é como estar naquelas mesas redondas, contando as vivências e rindo das coisas boas da vida!

      Gracias! Vou adorar receber tua visita nas próximas conversas!

      Beijão nosso!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina