domingo, 27 de maio de 2012

A semana, de novo!




A rotina é uma janela aberta, amanhecente. 
(silêncio duvidoso).

Bom, para alguns, não. Começar a semana pode ser uma paisagem conhecida, retilínea, mesmo quando o caos é a regra. Tudo permanece igual, um cenário estático de definições, estratégias, agendas a cumprir. Cardápios.
Pois é. O paladar da rotina fica parecendo dorminhoco, o próprio apetite é sem-motivo. Tudo é cotidiano, em sentido-horário, e os sabores se atenuam pela falta de atenção do sujeito no que come. Que diferença faz se está bom ou não? "É almoço, tenho uma hora pra voltar ao trabalho e pouco importa". Sentir sabor pra quê? Sabor é coisa pra fim-de-semana, férias. E olhe lá! Tem quem diga que nem sabe se a lasanha estava boa ou não, nem lembra.
Acho que isso reflete a dificuldade de saborear o dia-a-dia em si, não apenas suas refeições. Neste saborear entra a criatividade, a disposição para sentir as nuances, para usufruir dos espetáculos inéditos que o 'dia normal' pode oferecer. Viver o café-da-manhã, o almoço, os lanches no meio dos turnos: metáforas de um exercício interno de entrega para o presente. Não só a tão falada prática de mastigar bem, mas de sentir as características dos alimentos, e mais: de vivenciar o prazer na refeição.
Isso é chatice?
Não vejo assim. Sei que a rotina tem o peso da constância, tem fama de personagem tediosa, sem nada a oferecer, e tantos nem dão crédito pra dita cuja. Entretanto, paro para refletir e me ocorre que nossa rotina somos nós. É da nossa vida que estamos falando mal, se acusamos os rituais lineares da nossa semana. É dos sabores que nos permitimos -ou não- sentir, quando nem sabemos se a comida estava boa ou não. É de nós que estamos falando, da forma como estamos encaminhando nossa vida. De anestesiados a viscerais, tudo é possível, mas me parece, e bastante, que existe uma tendência de falar mal dos trajetos rotineiros.  Por puro hábito, mais do que pelo próprio desgosto. Arrisco até a dizer que este me parece um jeito de disfarçar outras inquietudes, que o cotidiano tem é 'costas largas'.

No entanto, repito: para mim, a rotina é, sim, uma janela aberta. 
Amanhecente.
Uma belíssima oportunidade de vivências sutis que nos transformam: mudamos a cada instante em que nos percebemos vivos, em que saboreamos um mero chocolate no intervalo ou o buffet a quilo do almoço. Uma oportunidade de dar um giro leve, leve, no caleidoscópio e então ver outra figura de nós mesmos, mais vivos, mais presentes, mais saboreantes. De vida.
É o cotidiano que nos apresenta para muitos dos acasos, muitos desafios, e tantas esferas de nosso itinerário. E tudo isto pode ser uma riquíssima experiência interna de desbravar trechos do dia, se estivermos dispostos a perceber o linear como um novo que se repete, e cada novo a seu modo. Este é o aspecto 'amanhecente' e precioso que há no tudo-igual. Como aproveitar esta beleza? Volto ao ponto de que, bom mesmo, é 'saborear' o hábito, com uso de todos os sentidos: gustação, olfato, visão, audição, tato. Bom mesmo é estar vivo para o dia, de prontidão  ao que ele tem a oferecer, para extrairmos dele o que pudermos. Ou melhor, o que nos permitirmos. Sim, somos nós o sujeito da frase. E não 'o dia', 'a rotina', 'a correria'.
E isto é o melhor de tudo: quando saboreamos, somos  nós o sujeito da frase, agentes dos nossos verbos, do nosso ritmo, dos nossos horários de refeição, do nosso cronômetro de prazer miúdo nos intervalos do cafezinho.

Basta degustar o café, naquele ínfimo instante.
É quando abrimos nossas janelas.

Boa semana!

Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. É verdade... gosto da rotina do meu dia-a-dia, quando posso cozinhar, almoçar com calma em casa com a minha familia, tomar um cafezinho, um chimarrão para colocar a conversa em dia, o jantar onde saboreamos também as novidades do dia que se passou... quando tenho um dia muito atarefado, quando estamos só na correria e nos esquecemos da nossa "velha" rotina, me sinto muito mais cansada e parece que o dia passou sem graça. Grazi

    ResponderExcluir
  2. Pois é, a rotina tem sabor, sim. A gente precisa dela, para emoldurar nossos hábitos, nossa convivência, nossos prazeres. Sair da rotina é importante, também, mas se permitir viver calmamente o sabor do dia-a-dia é uma prática que nos faz prestar atenção aos detalhes gostosos da semana, como disseste: o cafezinho, o chimarrão, o almoço com a família. Gracias pelo comentário! Gosto muito da interação nas leituras. Beijos, Betina

    ResponderExcluir

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina