quarta-feira, 30 de maio de 2012

A genética da 'Nega Maluca'

Lembrei de contar, depois do escrito de ontem, em que registrei a receita da Naga Maluca enquanto descrevia a descoberta do 'Enganache', que o bolo tem vivenciado modificações nos últimos tempos. Substituí, por exemplo, aquela "uma xícara não muito cheia de leite" por três copos de iogurte natural, misturando, um a um, na massa, até que esta adquira uma textura homogênea e viçosa. Além disso, uso o chocolate em pó apelidado 'Do Padre', com 50% de Cacau (uma xícara)  e uma barra de chocolate ao leite picada, dentro do conjunto.


Costumo fazer invenções ousadas na receita, e até hoje me pergunto se isto a torna outro bolo que não a Nega Maluca. 'Mas é claro que sim!', alguns dirão. Tenho minhas dúvidas, confesso. Numa rebeldia culinária iniciada pelo 'Bolo Inventado', lá nos idos da minha pequenice, descobri o fascínio de interferir na receita, criando uma nova identidade pulsante. Acontece que, para mim, qualquer formulação que parta da Nega Maluca carrega sua genética, não tem saída. 
Um exemplo disso é o "Navarone", que criei  na passagem para 1992, e está na primeira página do meu caderno de cozinha. Nele, procedo da mesma forma como para a 'Nega', mas adicionando o iogurte, o chocolate em pó e aquele em barra, amargo ou meio-amargo; amoleço de oito a dez bolachas Champagne em uma xícara de café com leite (café forte, com seis a sete colheres de sopa de café solúvel), e coloco as bolachas, então, na massa, misturando bem.
O resultado é um bolo escuro, macio, baixinho, levemente esponjoso, consistente e respeitado. Quantos adjetivos na mesma linha!
Pois o Navarone tem sua honra e sabe disso. 
Fiz até uma espécie de trufa com a idéia das bolachas no café com leite, misturando-as no chocolate derretido. A mistura fica densa, e dá pra moldar com a mão. Coloco em um tabuleiro as bolinhas, e então no congelador, por uns vinte minutos. Ótimo, também, é amolecer as bolachas em uma bebida, como whisky ou rum, e colocar no bolo ou na trufa.
Por isso a cozinha é meu laboratório: nela, tudo posso. Se houver erro, corrijo ou, simplesmente, não repito a façanha. E esta permissão, numa boa parte das vezes, me abre a possibilidade de saltar no vazio. Aprendi no livro da Isabel Allende, "Afrodite", algo como "Crie. Se tudo falhar, sempre se pode chamar uma pizza". E posso dizer que esta frase me acompanha em minhas invenções há mais de dez anos.

Betina Mariante Cardoso

5 comentários:

  1. a desobediência é a base da liberdade!

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  2. È Vero!!!!!! E a cozinha é um território bárbaro para exercer essa desobediência!!! Gracias pelo comentário, Caríssima! Bjs

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  3. Com tanta criatividade como demonstras é curioso saber que ela funciona enraizada em alguma 'base sólida', como no caso, a receita da Nega Maluca. Interessante os caminhos do pensamento...

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  4. Pois sabes, Lena, que esta 'base sólida' das minhas mirabolâncias na cozinha aprendi por modelo, e quiçá genética, com a mãe e com a Vó Léia...Lendo teus comentários, sempre penso que história, que receita, que lembrança tenho para exemplificar uma observação que teces! E isto é muito legal, pois estimula a seguir criando! Lembrei de contar de como a Vó me ensinou, passo-a-passo, a fazer uma torta que 'me deu na telha', em 1983,e que ficou sendo minha torta de natal por muito tempo...Lembro de contar, também,de quando me acompanhou num curso de chocolates no Centro Comercial João Pessoa, na Páscoa de 88, porque decidi presentear o Diego com chocolates feitos por mim...Então a Vó achou o curso, me acompanhou e...nem acreditas: supervisionava com firmeza minha prática, para checar se eu estava seguindo as orientações do curso ou inventando minhas proezas...Trago da vó a meta de entremear técnica, precisão e inventividade, qualidades que ela nos propiciava de montão! E a mãe segue a proposta de mesclar estas qualidades, com respeito ao 'seguir receitas' bem maior do que o meu...(risos)...Um dia eu aprendo!!!! Beijos! PS: De teu comentário surgiram duas novas conversas!!!

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    1. Como sempre, mais duas curiosas e divertidas conversas, ricas na mensagem e na escrita! Valeu!

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