quinta-feira, 31 de maio de 2012

No afã de inventar moda...

E houve o tempo dos saquinhos de chá, iniciado nos idos de 1998. Para uma janta de última hora com amigos, eu queria preparar uma sobremesa curiosa, surpreendente, com o que tivesse na despensa. Não teria tempo de sair para comprar nada, mas queria criar. Estava determinada a extrair dali ingredientes que fizessem mágica quando combinados.

 Abri suas portas, mergulhei em seus trajetos, passei por conversas de comadre entre as geléias, que nem perceberam minha presença, de tão distraídas com a prosa que estavam. Ouvi murmúrios do leite condensado, querendo entrar na brincadeira, mas não seria convidado, naquela noite. Fofocas entre as oleaginosas, discussões acaloradas do vinagre balsâmico com o azeite de oliva, brigas das azeitonas com as anchovas pela concorrência para a receita do patê de entrada, e os temperos, agrupados, rindo da confusão toda.

Eu estava ali pela sobremesa, ponto pacífico. Que se calassem, não eram parte do projeto. Disseram que me calasse eu, que a enxerida ali era eu. Estavam na SUA despensa, e eu não era bem-vinda. Permaneci, em silêncio. De repente, vi o chá de frutas vermelhas, quietinho na estante de cima, reflexivo. Não era muito de se entrosar com os vizinhos. E Plim! Chamei-o, ele fez cara de pouco caso. Eu tinha passado pela geléia de amora, no fundo, entretida com as amigas.  Tive vontade de aproveitá-la.

Não lembro bem qual foi a linha de raciocínio, mas me recordo de ter pego, com rapidez, os ingredientes, a panela e a colher de pau. No afã de inventar moda, simplesmente me deixei num estado de transe culinário, entusiasmada com a possibilidade de o doce funcionar. Coloquei a geléia de amora em fogo baixo, uma colherinha de mel, e abri os saquinhos de chá, colocando o conteúdo na panela. Aos pouquinhos, enquanto provava, coloquei mais um saquinho de chá, e então outro, até que o sabor adquirisse melodia própria. Por fim, a pimenta preta moída na hora, e mais uma provinha. Mexia calmamente a tertúlia, com um balanço macio, feliz pelas combinações.

Apresentava substâncias que, embora habitassem o mesmo espaço, eram desconhecidas entre si. Eu queria que fizessem mágica no conjunto, e fizeram...O chá trouxe um sabor adocicado e picante    aos demais, parte dele unindo-se ao líquido que se formava, à medida que o calor ativava a mistura.   Havia um aroma de quintal que tomava conta da cozinha, uma pulsão de mistério no contato do chá com a consistência do molho, uma presença soberana que tomava corpo pela alquimia dos presentes.

Ao provar, sentia-se, no tato, a leve aspereza do chá de frutas vermelhas, a vida profana da pimenta, a hegemonia da geléia, em sabor e em consistência: afinal de contas, era ela a rainha do doce. Entretanto, foi o chá que deu a surpresa, o gosto inusitado. Coloquei um cálice pequenino de Vinho do Porto, que não dominasse o composto, mas que desse ao menos sombra de sua doce elegância. A cor, de um grená escuro, dava força e viço ao todo. Mais um pouco em fogo baixo, nova prova. Preparada com umas três horas de antecedência, a cobertura foi aquecida na hora de servir.

Enquanto isso, a bola de sorvete aguardava, ansiosa, para exibir o vestido de festa que ganhou naquela noite.

Betina Mariante Cardoso

4 comentários:

  1. E a "Fada q tinha Idéias" perto de ti desapareceria .... adorei!!!!! E sinto vontade de me tornar atrevida, tb! Maravilhoso! bjus

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    1. Obrigada, querida!!! A bem da verdade, ter lido a Clara Luz lá pelos nove anos me fez acreditar, de fato, e pra vida toda, que "Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda"! Bem lembrado, vou escrever sobre "A Fada que tinha idéias"!!! Beijos!

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  2. Betina... fiquei dizendo coisas que fica até estranho publicar mas acho que mostram bem o estado de surpresa e emoção que o texto provoca. Uma delas, vou arriscar, eu disse: 'meodeos'! e parei...
    Simplesmente um encanto, cheinho de emoção. Pra mim, arte em vários sentidos!

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  3. Lena!!! Que bom que tu gostou!!!! Amei o comentário!!!! E,te conto, foi um dos mais prazerosos de escrever! O final até a mim pegou de surpresa!!!! O texto acontece, a gente apenas o segue nas suas vontades...É incrível! Beijos!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina