segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pimenta-Certeza



Há muito sobre o que escrever. Sempre me lembro de mil histórias culinárias aqui ou ali, que inspiram reflexão, gostos, sentimentos variados, mapas internos e externos. Já disse algumas vezes nesses escritos: a cozinha é um excelente laboratório de vida para mim, é uma grande professora de atributos pessoais. E eis que tive vontade de falar na 'Parcimônia', nosso personagem de hoje.
E explico o porquê. Fiquei pensando em uma circunstância que assisti em um café da cidade, na semana passada. Saí de fininho, mas confesso que, por um tempo, permaneci na minha mesa, escutando o fervor de um dos sujeitos, que destoava da tonalidade festiva do bate-papo, entre um expresso e outro.  Atentei para a intervenção categórica que ele fez sobre um dado tema, em uma conversa que tinha o propósito de ser mansa, num contexto ameno. Com o tom definitivo, esta pessoa apagou a luz do baile.

Resultado: constrangimento dos convivas.

Não havia espaço para diálogo: a afirmação veio tão carregada de certeza que não se encontrava brecha para ponderar um meio-termo. Daria pra imaginar, mais ou menos, que se colocou  uma quantidade de temperos demasiada na receita (e uma miscelânea, também), e o excesso de estímulos e combinações não deu espaço para 'salvar' o sabor original. O nosso prato-fantasia ficou carregado, excedeu a medida exata e tornou-se desagradável,
com muita pimenta-certeza impedindo que a essência do quitute-conversa se expressasse.

A meu ver, como acontece na cozinha, duas boas mancheias de parcimônia teriam salvo o prato.
Parto deste registro, que despertou minha atenção, para pensar sobre como o cuidado, a delicadeza, a própria observação minuciosa de uma circunstância são necessários antes de emitirmos nosso olhar. Se a receita pede uma pitada de sal, esta será a medida correta; e o mesmo vale para a ordem dos ingredientes, para o modo de fazer, para o tempo e a temperatura do forno. Sempre fui, e sou , de inventar moda; contudo, também aprecio o rigorismo quando tenho, na minha frente, uma receita nova ou de grande exigência, quando terei visitas em casa, quando quero testar algo milimétrico.
Já passei, sim, por uma fase de abusar dos ingredientes, condimentar tudo com volúpia, enxarcar o conjunto com excessos, e posso afirmar que estes exageros me fizeram perder muitas refeições. Bom, a cozinha é um laboratório, eu sempre digo. Então posso fazer experimentos, errar, jogar fora, fazer o molho voar no teto pelo êxtase no preparo? Isto é um engano. Cozinhar assim pode até ser divertido por um tempo curto, mas não é sustentável jogarmos tudo fora por usar excesso de ingredientes, ou fazermos com que nossos convidados tenham que "engolir" nossa impetuosidade.
Bom, aprendi, na prática, a importância máxima da parcimônia.

E hoje fiquei pensando em como valorizo este atributo, também nas relações. Não como uma característica limitante, que tire a espontaneidade, mas como uma noção, dentro de mim, da medida exata de firmeza, cuidado, discernimento, etc., quando estes são necessários. Certamente existem circunstâncias em que precisamos extravasar, gritar, fazer a voz sacudir uma situação. Entretanto, a suavidade, o bom-senso, e até o silêncio tornam-se temperos de primeira necessidade na despensa da minha convivência, com quem quer que seja.
Pelo que entendi da discussão no café, a pessoa que se excedeu não estava correta, mas afirmou tão enfaticamente que os demais recuaram, em dúvida, pois o sujeito parecia deter a certeza de sua posição. Algo tão concreto que chegava a parecer material, vivo. Não ouvi todo o discurso, mas o suficiente para perceber o quanto devo me certificar antes de um posicionamento e, mesmo assim, expor meus conceitos com muita calma. E, repetindo, com muita parcimônia.

Mas vai além disso. Devo buscar uma quietude interna antes da resposta externa, saber qual o 'perfume' que o prato pede, e o quanto, exatamente, devo colocar. E este reconhecimento é um processo que começa dentro de mim. Me digo, muitas e muitas vezes, quando quero brigar para estar certa: "eu não preciso ter razão, preciso estar em paz". E, como acontece com tantos de nós, às vezes isto funciona melhor; outras vezes, pior. Acho que o fundamental é conscientizar, prestar atenção nesta necessidade de estar com o bastão da razão.  E, mesmo estando correta num ponto, ainda assim respiro, penso, seguro. E então digo, com o máximo de cautela possível, o que me parece. Repito: tento fazer assim, nem sempre consigo.  Equilibrar temperos (e partes do nosso temperamento) é tarefa que requer enorme empenho diário: precisamos estar ali, conosco, de mãos dadas com nossa parte mais feroz, para escolher um caminho adequado.

Não, nem tudo precisa ser na medida, mas algumas coisas  precisam ser exatas, sim. No meu sentir, a medida das palavras, na forma e no conteúdo, é uma delas.

De tudo isso, refletindo sobre a cena que assisti de soslaio, muitas idéias surgiram.
Saindo do café, disse pra mim mesma: 'assim como a pimenta em demasia, o excesso de certezas também pode estragar uma bela receita...'

Betina Mariante Cardoso 

4 comentários:

  1. adorei, linda reflexão e muito válida.

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    1. Gracias, Michele! Achei importante escrever sobre o tema. Obrigada por tua apreciação! Bjs

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  2. ...dá pra sentir o 'aroma' de tua reflexão, Bê! Bem dita e bendita a sabedoria de se equilibrar a acidez da pimenta-certeza com a doçura que a certeza não precisa se apimentar. Bj-bj

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    1. Que lindo, Lete!!! Adorei tua observação!!!!
      Gracias!!!
      Beijos!

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