sábado, 12 de maio de 2012

O "Bolo Inventado" como território de criação- Homenagem ao Dia das Mães


Para mim, a cozinha sempre foi um território mágico, um espaço de descobertas de experiências, de sabores, de liberdade. Quando éramos crianças, meu irmão e eu fazíamos o ‘bolo inventado’, em que tudo era possível na elaboração de sua massa, estimulados e supervisionados pela mãe. Aprendíamos a sentir o efeito dos ingredientes na textura da preparação, a conhecer os aromas e cores que cada etapa assumia, a viver nossa criatividade de modo lúdico, livre e, sem dúvida, cauteloso nas tarefas que os adultos poderiam executar. Espiávamos o bolo crescendo no forno, sentíamos o cheiro inundando a cozinha, e entendíamos que o resultado era produto de nossas idéias, de nossa participação, possibilitada pela expertise da mãe. Preparar receitas, conhecer elementos e reações químicas aplicados, vivenciar a diversão ímpar de mexer a massa e de vê-la crescer no forno, tudo isso era viver a culinária como objeto de nossa primeira autoria. E, além de tudo, saboreávamos o bolo no lanche da tarde! Que eu lembre, o 'bolo inventado' foi minha primeira incursão pela cozinha, e, mais ainda, pelo vasto horizonte da criatividade. 
Me recordo bem de quando parávamos na frente do forno, com a luzinha acesa,  acompanhando, pelo vidro da porta, a evolução de cada receita 'criada' por nós, com todas as misturas possíveis. Meu irmão ficou expert na preparação das invenções: por várias vezes, o bolo de Ano Novo era dele, com incríveis sabores.
Aprender a fazer o 'bolo inventado' foi fantástico, mas, para mim, ainda mais importante foi o território de liberdade para a criação, a expressão, a brincadeira viva que é estar na cozinha. Ainda além: esta permissão para a criatividade, para abertura ao novo e à própria autoria da invenção, são riquezas imensuráveis que a mãe nos propiciou. Éramos pequenos; a sensação de mexer na massa, observar suas mudanças, e produzir algo pulsante era uma experiência real, concreta, de que podíamos saborear o preparo e o produto final. Internamente, imagino que isto tenha significado muito para a permissão de criar, pois é o que sinto hoje quando deixo a imaginação correr solta: permissão. E este aprendizado que a mãe nos promoveu é um passaporte para a liberdade de realizar, pois tínhamos, além da idéia, a incumbência de preparar a receita. Aquelas sessões de culinária eram também um intenso laboratório sensorial, em que éramos apresentados à personalidade de cada ingrediente e às vivências que despertavam em nossos cinco sentidos; carimbávamos,na memória, o experimento e suas vicissitudes. Lambíamos a colher no final, de fato irresistível. Uma emoção prazerosa não apenas pelo gosto, mas, novamente, pela realização permitida. 
Essa criação supervisionada pela mãe durou bastante tempo, evoluiu para o gosto pela cozinha, tanto da parte do meu irmão como de minha parte. Aquelas tardes eram uma brincadeira, uma festa, uma partilha. A propósito, a experiência do 'bolo inventado' foi uma das mais belas partilhas que tive com meu irmão em toda a vida, pela produção conjunta e degustada ao final. Em minha visão de hoje, aquela era uma liberdade com zelo, e gerou a construção de um território amplo em nosso mundo interno, onde a idéia, a criação e a realização faziam movimentos de dança, orquestrados pela energia vibrante do brinquedo vivo.
Com o passar das idades, a cozinha continuou sendo território de criação, e dali aprendi outras coisas, através do estímulo e do cuidado da mãe. Por exemplo, aprendi que o ato culinário é, ao mesmo tempo, uma experiência individual e coletiva, uma oportunidade de auto-conhecimento, de entrega a mim mesma e, simultaneamente, de partilha, de doação, de expressão de afetos positivos. Exercício contínuo de liberdade e de disciplina, de firmeza e de flexibilidade, de gratificação e de tolerância às frustrações. De foco e de atenção no presente em cada ato, pondo em ação cada um dos nossos cinco sentidos. Exercício de resiliência, a cada receita.
 Sobretudo, o ato culinário representa uma das circunstâncias mais propícias para experimentar singular e plural, para  nos aproximar de nós mesmos e daqueles a quem admiramos, amamos e que são parte de nossa história. E esta aproximação já havia conhecido lá nas primeiras invenções.
Quis homenagear minha mãe com este texto, por seu dia, agradecendo profundamente pela permissão para a criatividade, para o livre acesso às idéias, para o prazer da realização. Estes espaços que ela nos apresentou na cozinha -e apresenta até hoje, nos vários domínios da vida-, são substratos para a confiança, para o lúdico, para a força criativa que me habita e me impulsiona a ter idéias e a concretizá-las. 
Acredito realmente que, quando criamos, abrimos campos do novo na nossa vida, permitimos o livre caminhar, que dá espaço a territórios desconhecidos em nós. E a cozinha é um fantástico cenário para isto, nos apresenta à Serendipity do 'bolo inventado' e nos ensina que criar uma receita é produzir vida. 

Dentre tantas coisas, estas são incríveis riquezas que aprendi com a mãe. 

Gracias, Mãe! E um tim-tim ao bolo inventado!!

Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. Usando uma expressão particularmente aquerenciada ao meu ‘vocabulário sentimental’, quando terminei o texto eu disse - ‘’valeu um trago’’!
    Sempre gosto da tua fluência e intimidade com as palavras, e me encanto com a imaginação que corre solta pelos textos e contextos. Isso é sem dúvida um talento teu, mas hoje pude sentir o elo com a fonte disso tudo...
    O ‘bolo inventado’ que serviste à tua mãe hoje foi recheado com o ingrediente do amor...
    Que leitura gostosa Betina!

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  2. Querida prima, muito obrigada! E eu adoro os comentários, são sempre de altíssimo astral e encorajamento!!! E a fonte...Bom, sabes que mistura-se numa panela os registros do Vô Hélio, da Vó Leia, os estímulos criativos da mãe, nossa vida toda em torno da cozinha e das inventices! Como é bom compartilhar estas vivências contigo!!! Beijos, Bê

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina