sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Granel




Fui ao Armazém de Secos e Molhados, cedo esta manhã, comprar 100g de reticências, que tinha terminado o pacote. Um senhor atrás do balcão me recebeu, austero. de certa idadeÓculos abaixo dos olhos, lápis na orelha, bloquinho de fiados embaixo do braço. Gordo pelo tempo e pelos maus hábitos.  Semblante intenso, marcado pelo bigode em desalinho, suas vistas negras e sobrancelhas fartas. Sotaque marcado, rouco, tênue denúncia de sua origem. Voz  áspera. Expressão de burocrata, assumia tom de importância, postado frente à máquina registradora. Ar de quem nasceu entre as mercadorias, de tão conhecedor
Respondeu ao meu pedido, tom evasivo, suspiro de enfado. Algo nele me intrigava, nem sabia bem o quê. O homem contemplava seu negócio feito dono de antiquário, orgulhoso de suas virtudes de sabedor. Espichou-se na explicação sobre o legado do avô, que lhe ensinou o ofício de bodegueiro. Cuidava que a vizinhança freqüentasse suas estantes. Após toda a propaganda, respondeu ao meu pedido pela pontuação. Eu, àquelas horas, impaciente. Queria as reticências.
-Reticências, na semana que vem. Encomendei, mas tem muitos pedidos na frente.Tem que deixar o nome, pra reserva. O lote é pouco. Pontos de interrogação, então, prometeram para mês que vem, que esgotou o estoque do fornecedor. Todo mundo pedindo. Tem saído muito. Tem 'dois pontos', quer?
 Pensei. Não sabia bem onde usaria, e “pra levar 'dois pontos' tem que ser de meio quilo”, ele advertiu.

Resolvi perguntar por ponto-final, ele disse que estavam na estante do fundo, acreditava que tinham passado da validade. Iria buscar. Eu, ansiosa à sua espera, batia com a polpa dos dedos uma música qualquer na madeira gasta do balcão, enquanto ele procurava nas sacas de juta. Gritou, voz cáustica, de trás das prateleiras:
-Faz tempo que o pessoal não compra, ficou . Mas era até dezembro. Venceu há tempos. Vou ter que jogar fora e encomendar de novo.
-E exclamação?
-Eu tinha no estoque, ficavam nas sacas de algodão. Esses dias veio uma dona cheia de caprichos, e levou tudo. Mandona!
          Contemplativa, cogitei:
-Vírgulas?
-Não tem. Todo mundo leva pra ter em casa. Pausas curtas, sabe como é. Um jeito de continuar a frase, um suspiro, nem sei. Vá que precise... Mas é uma pena, faltou.

Eu não estava ali por qualquer pontuação, tinha ido buscar reticências. Ele, a cabeça inclinada, irônico, arrastou um comentário:
 -Todas as receitas cheias de firuletes: ‘comprar reticências frescas’, ‘deixar em banho-maria’, ‘preparar em fogo baixo’, ‘cuidar para não dissorar’, ‘despejar na panela com parcimônia’... vi muito freguês perder a compra por esse exagero. E mais: devem ser usadas no dia, isto sim, mas o sabor fica por tempos infiltrado na preparação. Salpicar, de leve. Sua presença vai adquirindo personalidade aos poucos, não pode tomar conta do prato principal.

            
Pensei então em qualquer outra, menos procurada. De receita mais fácil, algo pra descongelar e servir. Sem firulas. Ponto-e-vírgula ele me disse que tinha que importar, não tinha aqui. A estas alturas, queria era levar algum pacotinho dali, fosse o que fosse. Caminho longo, a , pra retornar de mãos vazias.
-...Ponto-e-vírgula?- perguntei.
-Ninguém usa muito, sabe como é. Pouca serventia. Acabo investindo naqueles mais procurados, como os três-pontinhos. aconteceu até de me fazerem abrir as sacas de pontos-finais e pedir pra levar três. Fica mais caro, levam mesmo assim. Dizem que têm de ser compradas no dia, para usar fresquinhos. Por isso acabam logo. Sobram pontos-finais, que ninguém leva, acabam fora da validade.

Curiosa, olhei para os potes de vidro, em cima do balcão: vários travessões. Recipientes volumosos, tampa de alumínio. Ali, feito aquelas balas coloridas da infância, que o dono pegava às mancheias pra depositar no saco plástico.
           
-Ninguém mais leva travessão, nessas épocas, minha senhora. Pra levar travessão tem que saber usar, vendo no mínimo dois, e então o freguês deixa ali.Seguiu tergiversando. Voz arrastada, um jeito pensativo, cheio de verdades próprias. Soberbo, pigarreou, levantou a cabeça, torceu a boca, fazendo cara de que estava por dizer grande coisa. E seguiu:
            -Todo mundo fala sozinho, mesmo. Estão naqueles poteshoras. Tem mais uma: ficaram os dois pontos também, que vendo junto, mas sobraram do ano passado. Dois pontos e travessão sempre restam, esperando alguém que queira conversa. São caros, vendidos a granel, e a medida nem sempre é exata. Um travessão a menos e a conversa fica pendurada. 
           Avistei os dois-pontos em pote semelhante, de vidro, redondo, a tampa clara. Uma réstia de sol, incidindo no balcão, mostrava  a poeira da juta suspensa no ar: senti o cheiro antigo da bodega.
Pensei em parênteses. Indaguei-lhe.
         -Precisa de um certo tom de gravidade, um tom de confissão, justificativa. Nem sei. Complicado. Muita reserva de todos para pedir parênteses. Em geral olham em volta, olham para trás, cuidam dos lados, para ver se tem alguém olhando, antes de pedir.
-Aspas, quem sabe?- cogitei.
-Difícil sobrar. É muito procurado pra citar alguém, usar palavras dos outros, chega todos os dias no carregamento, mas sempre tem gente que vem e leva tudo de uma vez. Estou sempre pedindo. Amanhã chega para o estoque da semana. Pra levar, tem que vir cedo.
Sem saber o que fazer, encomendei 500g de pontos de interrogação, do que chega no próximo mês. Uso um pouco e deixo o resto no armário. Vale a pena, disso estou certa.
Fui andando, sem meu pacotinho de reticências para a receita do almoço. Levei uma quantidade razoável de dois pontos-travessão, dos que estavam ali nos potes, e ainda na validade. Sempre é bom ter em casa.
Betina Mariante Cardoso

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