segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Erro que Virou Receita



"(...) O caminho certo não é o que leva ao ponto final, mas aquele que vai indicando novas rotas ao longo da distância. Inusitados, ousados, desertos novos caminhos, esperando só que algum andante, em busca do sua chegada, pare e olhe curioso para eles. E, então, resolva arriscar uns passos por ali. 
Assim surgiram os trechos já percorridos, aqueles com um desenhinho no mapa, ou com uma seta, só para eles."
Trecho meu,   maio/2000








E houve o dia em que errei a Nega Maluca. É raro, modéstia à parte , mas, naquele dia, queimei o bolo em cima, e tive que tirar toda a crosta. Dentro, um quase-abatumado aceitável; entretanto, digno de alguma revolução que mantivesse o sabor e transgredisse a forma clássica. Tudo igual, receita igual, forma igual. A data, diferente. Importantíssima: aniversário do meu noivo e visitas para o almoço. Era preciso acertar.
Recapitulei:
Duas xícaras de farinha peneirada; uma xícara e meia de açúcar; uma xícara de chocolate em pó; meia xícara de óleo; três ovos, misturando um de cada vez; uma xícara não muito cheia de leite; um pacote de fermento químico peneirado. Tudo misturado na ordem da receita, sem mexer. Massa homogênea, de um marrom lustroso, cheiro de aniversário, vontade de lamber a vasilha, forno pré-aquecido por 10 a 15 minutos, vasilha com água embaixo, 50 minutos de forno a 180º. Tudo igual a sempre, a vida toda.
E queimou, quase-abatumou.
Depois descobrimos: o forno elétrico estava funcionando pouco, difamando minha tradição de boleira. 
Eu fiquei sabendo apenas bem mais tarde deste detalhe; durante toda a tensão de reverter o incidente, carreguei comigo a culpa pelo erro na receita, e é culpa pesada, esta! Respirei fundo, precisava encontrar uma resposta.
Fui para a frente do fogão, tinha já feito o glacê com a proporção de três receitas para uma do bolo. Cada receita de três colheres de sopa de leite, a mesma medida de açúcar e idem para o chocolate em pó. Da manteiga, uma colher de sopa. Misturo bem no fogo brando, deixo engrossar um pouquinho e ...Pronto! Em geral, corto o bolo em xadrez, recém-saído do forno, para o glacê mergulhar, umedecendo a massa por dentro e deixando aquela casquinha dura por fora (isso acontece porque devolvo para o forno já apagado, mas ainda quente, para firmar a cobertura, promovendo o efeito 'cleck' do som afoito da faca tocando o conjunto).

Fiquei um tempo ali, na frente do fogão, refletindo, desconsolada. Que desfeita eu recebi do forno elétrico!
Eu pensava: o que a Vó Léia faria no meu lugar????, e pensava de novo. Ela sempre tirava uma solução da cartola...

De súbito, num ato de "plim", peguei pedaços do bolo, amassei e joguei no glacê, com fúria e entusiasmo. Retoquei com leite, misturei a nova fórmula até ficar macia e harmônica, de aspecto fofo. Lembrei dos morangos na geladeira, cortei alguns (uns quatro) em quadradinhos pequenos, uni à panela. Uma colheradinha (das de café) de essência de baunilha. Mais uns giros da colher de pau, e provei.
Era saboroso, gosto inusitado, como de 'Nega Maluca' do avesso. Coloquei em copinhos individuais, levei a geladeira por umas quatro horas (de um dia para outro deve ficar ainda melhor!), e servi aquele híbrido de sobremesa e lanche da tarde. 
O doce foi apelidado de "Enganache" pelo Daniel, o aniversariante do dia. Que ficou sem o "bolo do parabéns"...
A receita, fruto da mais pura Serendipity, veio para ficar. Constará nos alfarrábios da família por gerações como 'o bolo que mergulhou no glacê'.

Errar uma receita sempre pode valer a pena!!!

Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. Muito boa essa!
    'Enganache', 'Nega Maluca do avesso', 'bolo do plim' ou 'erro que virou receita' tanto faz, pra mim, foi
    apenas mais um serendipity da Betina! rsrs
    Parabéns!

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  2. Lena, Que bom ler teus comentários: são sempre um delicioso estímulo para novos escritos!!! Gracias! Beijos! Essa tal de Serendipity é valiosa, e percorre caminhos inusitados, sempre aprontando!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina