quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dos encantos da Luminara de Pisa- parte I






Sempre pensei em como contar sobre a Luminara di San Ranieri, uma celebração belíssima, e profundamente emocionante, de Pisa. Escolhi, então, começar com um trecho que escrevi há algum tempo atrás:





"A Luminara é um evento festivo na cidade de Pisa, na Itália, que ocorre todo 16 de junho, em homenagem ao Patrono da Cidade, San Ranieri. As margens do Rio Arno 'vestem-se' de um colorido especial, quando as luzes de muitas velas, em copinhos, enfileiram-se nas armações de cada Pallazzo, compondo um efeito único. As luzes apagam-se, e só as pequenas chamas, os 'Lumini', iluminam as ruas, o rio, a anima da cidade. Fogos estouram, gentes vibram e observam, em silêncio mágico, o resultado das luzinhas tremulantes, num complexo fenômeno de movimento, cores, brilho e vida. O mais interessante é saber que muitos dos que disfrutam da festa estiveram em sua montagem, dispondo os copinhos com velas nas armações dos prédios, casas, janelas, portas, torres, relógios...O efeito é, assim, resultado do trabalho de gente que constrói a fantasia e dela usufrui."


Pois vivenciei a festa de um modo muito curioso, e me senti parte de sua preparação, nos dias que a antecederam em 2004. Contudo, antes de me esbaldar lembrando do espetáculo, há algo que não resisto em compartilhar. 
Contei, na conversa "Pisa além da Torre", que estava hospedada no Relais dell´Ussero, hospedagem tipo Bed&Breakfast nas dependências do Pallazzo Agostini, construção tradicional na cidade. Ali  também existe, desde 1775, o Caffè dell´Ussero, de que falo no mesmo texto. Disse, também, que o Relais fica em uma das avenidas que margeiam a curva do Rio Arno, o Lungarno Antonio Pacinotti,  onde uma seqüência de prédios (os Pallazzi) exibem cores e formas de tal variedade que seu contraste com o céu azul pulsa no olhar. Não há explicação para a plenitude do cenário num sol de primavera às quatro da tarde, quando o rio comemora a paisagem refletindo todo o prisma da calçada. Fui surpreendida por esta cena, ao acaso. Eu voltava do Hospital pela Via Roma, transversal ao Lungarno, quando me deparei com uma imensidão vibrante, em que todos os elementos existiam em unicidade. E eu me emocionei tanto que, naquele momento, pertenci ao conjunto. Achei a força da experiência tão peculiar que imaginei ser difícil reproduzí-la em outros dias. E estava enganada. 
Então, voltei a sentir o "extase de viajante" na tarde da preparação da Luminara.

Mas volto um pouco mais no tempo. Cheguei à Pisa dia 27 de maio, uma quinta-feira à tarde. Na manhã seguinte, passeando pelas margens do rio, vi que uma boa parte dos prédios já tinha armações de madeira em sua fachada. Nas manhãs seguintes, durante a primeira quinzena, fui acompanhando a montagem de mais e mais fachadas, detalhes, construções, com madeiras robustas-e pintadas de branco. Ainda não sabia bem para o que eram as armações, até que um dia perguntei.
-São para as velas da Luminara di San Ranieri-, disse o funcionário.


Eu não poderia dimensionar, com aquela simples resposta, o que de fato representava a preparação rotineira do cenário. Estava acompanhando, dia-a-dia, a cidade se 'vestindo' para a grande homenagem ao seu Patrono, San Ranieri, mas a beleza ultrapassava este olhar. Acho que a profundidade que envolve todo o processo da Luminara está na força coletiva das gentes, colaborando, uma a uma, com a vida de cada vela acesa nos copinhos, com a disposição das velas nas estruturas brancas... O que me toca, e muito, é a partilha de todos pela celebração de sua cidade. É lindo!


Assim, nos dias que antecederam a noite de luzes, conheci esta fantástica evolução por todas as avenidas que se deitam ao lado do rio.

Mas houve uma outra preparação para a Luminara, e esta começou num almoço com dois casais de  amigos brasileiros em Pisa, amigos estes que me propiciaram uma vivência mais do que fenomenal. Falávamos em ver a festa, quando planejamos, num repente, uma jantinha no meu apartamento do B&B antes de assistir aos fogos e às velas de San Ranieri. Como o Relais dell´Ussero é no próprio Lungarno, ao descermos o lance de escadas do apartamento ao térreo, já estaríamos dentro da magia quando saíssemos à calçada. Enquanto combinávamos, tivemos as idéias para as contribuições culinárias de cada um, marcamos de ir ao Super Mercado no dia anterior ao da festa e, melhor de tudo, acendemos o entusiasmo pela celebração pisana.





Preparar os quitutes foi uma memória viva tão relevante que contarei na próxima conversa. Agora, é impossível não me estender na seguinte descrição... Uma surpresa que me transbordou foi assistir à comunidade participando, na tarde da festa, das montagens das velas nos copinhos: muitos jovens sentados no chão dos prédios, nas calçadas, ou onde quer que fosse, cooperando com o efeito final. Bem, se a Luminara é o resultado do brilho de cada 'lumini', que é cada vela em seu copinho, então ela é o resultado do brilho de cada cidadão que monta o 'lumini'. Esta é a mágica: a mistura harmônica do individual com o coletivo, quando vemos, no escuro da noite, apenas as luzes flamejantes acenando para o Rio Arno.
O rio, honrado, retribui à beleza com os reflexos em suas águas. 

Amanhã, contarei da nossa preparação da festa culinária na homenagem a San Ranieri....

Betina Mariante Cardoso


4 comentários:

  1. "...O rio, honrado, retribui à beleza com os reflexos em suas águas."
    Acho q finalmente, guardadas proporções/dimensões etc etc, compreendi o sentimento do nosso querido 'rio' Guaíba em relação à sua cidade...
    Bela reflexão pra Porto Alegre, Bê!

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  2. Há uma declaração de amor tão exposta ao fato do texto, desde o título, que o coração se põe em estado de alerta. E não se engana. A cada frase a tua sensibilidade é contagiante, sinto como se tivesse vivido eu também esta experiência.
    ... "a Luminara é o resultado do brilho de cada 'lumini'"...
    - que definição maravilhosa pra este evento!
    "Esta é a mágica: a mistura harmônica do individual com o coletivo..."
    Emocionante!!!!
    Lindo, lindo, todo texto...

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  3. Lena! Obrigada pelo comentário! Essa 'cena' é parte integrante e muito viva na minha história. Lembro desta imagem todos os dias, sempre que digo o nome da 'Luminara', me referindo à editora. Dar este nome à casa editorial, em homenagem à Pisa, fez com que a memória da Luminara di San Ranieri vivesse acesa para mim. E é tão bom compartilhar!
    Beijos!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina