sábado, 19 de maio de 2012

E por falar em piquenique....

Em Edimburgo, por onde quer que se ande, há espaço para um piquenique. A cidade espera, em seus tantos trajetos, um sujeito cotidiano que descubra, aqui ou ali, novo terreno para esta pausa no dia. Então ele estende a toalha ao acaso, sobre ela deita as comidinhas, saboreia a cena, adormece as inquietudes e retorna ao fluxo normal da jornada de trabalho. 
Existe, nas ruas, uma certeza de que alguém caminhando estará à procura de um local para seu piquenique, e isto devia  estar estampado em minha expressão, naquele início de uma tarde de agosto. No entanto, na cidade, parece haver algo além disso: uma conspiração local para que todos explorem sua ânsia piqueniqueira, já que as mercearias, delicatessens e mercados oferecem sanduíches viçosos, interessantes e, ainda por cima, vestidos para passeio...
Bolos típicos, como o 'Dundee Cake', com frutas cristalizadas, amêndoas e whisky na anima da massa, são convidativos, vêm acondicionados em embalagens transparentes e "para levar", e  despertam aquela alegria festiva natural do cenário. 
Entrando em qualquer destes  estabelecimentos, surge o ímpeto de escolher isto ou aquilo, empacotar e sair por aí. Pois foi o que me aconteceu.
Passei numa das 'Delis' da vizinhança, a Bread & Olives (http://www.breadandolivesedinburgh.co.uk), e em seguida numa lojinha de bebidas, de que não lembro o nome, mas era quase ali ao lado. Saí caminhando com um saco de papel com listras cor-de-rosa e  brancas, numa mão, e uma pequenina garrafa de vinho, na outra. Escondido na embalagem, um sanduíche de frango defumado, queijo brie e geléia de cebola roxa. Surpreendente a convivência dos sabores!
O que acontece, posso quase afirmar, é que Edimburgo induz todos os sujeitos a encontrarem seu piquenique ideal, seja nos parques, seja em outros recantos floridos ou em áreas inusitadas, como a que encontrei.
Acho mesmo que esta é uma lei implícita. No meio de um dia de trabalho, com trajes apropriados, estão figuras que, mesmo na azáfama da rotina, se estendem e desfrutam. Sentam-se  num dos gramados ou até num banco de praça, para um breve piquenique. Que tal?
Gentes em grupo, apontando para as proximidades do Castelo no meio da cidade, ou forasteiros explorando onde abrir  a toalha para a refeição: estão todos escolhendo onde vivenciar este episódio tão único.
Eu era uma destas. Caminhava por uma rua lateral. Embora fosse verão, a tarde de sol era enganosa, e eu vestia uma manta pink por cima do traje. Buscava espaços vagos, num estado entre a distração e o deleite, observando os movimentos rotineiros do bairro. O olhar estrangeiro estava estampado em meu rosto, imagino. Eu admirava com aventura e curiosidade as áreas para meu almoço, e, como não conhecia nada por ali, via tudo com surpresa. Assim, não me dirigia a algum lugar específico, mas me deixava caminhar com soltura, esperando que o piquenique ideal me capturasse, que sou dada a uma Serendipity.
Alheia aos tipos que passavam por mim, prestava atenção apenas nos espaços ao redor, mas nada me chamava. Cogitei  voltar para a área do Castelo, onde há gentes por toda parte, com seus lanches, mas resolvi seguir o percurso do inusitado.
Um rapaz passou por mim, e, no seu sotaque escocês, perguntou:
-Está procurando lugar para um piquenique?
Ou isto estava escrito na minha testa, ou foi o pacotinho de papel e a minúscula
garrafa de vinho que denunciaram meu propósito. Respondi:
-Sim, mas não vejo onde isto seja possível por aqui. Vi alguns perto do parque...
-Se você descer esta rua até o fim, à esquerda há uma área de lazer com uns bancos, logo antes de uma área verde. É um espaço onde muitos fazem piquenique, mas talvez já tenham saído dali, pelo horário de trabalho. Recém voltei de lá, estavam duas pessoas indo embora. Dá pra localizar pela cabine telefônica que há ali perto.
-Obrigada, e boa tarde!

Fui caminhando e, mais adiante, vi que ele cuidava que eu tivesse seguido o trajeto  descrito. Logo, na próxima vez quando me virei, não estava mais lá. Cheguei ao local, a uns dez minutos de distância, mas nada me apeteceu de imediato ali.
Três ou quatro bancos de madeira sob um chão de cimento delimitavam o que o escocês chamara de "área de lazer", e havia um pequeno portão cercando o espaço. Nada, nada de especial.
Lembra-se de quando escrevi sobre a apropriação de um território estranho, que tornamos nosso ao nos colocarmos nele, no texto 'Habitando o Novo'? Foi o que fiz, sem perceber.


Eram quase duas da tarde e, àquela altura, já estava com fome e cansada de procurar um "chão ideal" para o que os antigos chamavam de convescote. Fiquei ali mesmo, em um dos bancos. O interessante é que, mesmo se o terreno é inóspito, basta compormos a atmosfera lúdica que geramos um cenário festivo. Me dei conta, naquele ponto, que existia um espaço a ser 'vestido para piquenique', e estava dentro de mim.
Há  sempre uma sensação de  aventura, de brincadeira, de nomadismo, uma alegria genuína inerente às refeições ao ar livre. Não sei bem. É uma gostosura, uma vivência de casualidade explícita em que criamos um festejo nosso, num breve almoço ou numa tarde livre.  Eu estava sozinha naquele dia, e foi curioso como pude usufruir desta solitude, em uma circunstância que geralmente é  fantástica quando partilhada com amigos. Em Edimburgo, muitos fazem seus 'picnics' sozinhos assim.

Pois bem. O espaço estava de fato já vazio. Escolhi um banco que celebrasse o sol, estendi minha manta pink sobre ele, e coloquei a bolsa floreada, uma leitura, a garrafinha e o pacote por cima. A força da cena, o sabor do sanduíche em melodia com o vinho, os goles no gargalo, o calorzinho do sol e o ambiente inusitado me trouxeram uma magia imprevista. Senti uma plenitude travessa, como de quem, se deliciando com a merenda, espicha o horário do recreio. A mistura do queijo Brie com a generosa camada da geléia de cebola roxa era contrastante com o frango defumado, distribuído em tiras macias entre as fatias do pão-de-forma. Um conjunto adocicado, picante, e, ao mesmo tempo, suave.
Decorando a cena com meus detalhes, habitei o espaço, pertenci àquele banco, criei vida no meu roteiro, e era personagem dele.
A refeição terminou em seguida, mas permaneci, por uma hora ou mais. Li um pouco, e até cochilei, espichada no banco. Quando acordei, sacudi a manta, guardei tudo numa sacolinha de plástico que tinha pego na Deli e segui o percurso. Eu continuava perdida, sem saber bem de onde tinha vindo e para onde iria, e este era recém meu primeiro dia completo na cidade. Não fazia idéia de como retornar ao B&B onde estava hospedada, nem mesmo o quão perto dele eu estava. Atrás da área onde permaneci para meu lanche, havia um parque belíssimo, intimista, próximo a casas típicas. Que eu lembre, o lugar se chama Dean Village.
Percorri aqueles verdes a passos e olhos lentos, degustando o tempero da paisagem, vivendo, com os cinco sentidos, os sabores do bosque, do lago, da ponte, do mistério que envolve aqueles ares. Eram cores múltiplas, reproduzidas pelos incontáveis reflexos na água, e em mim.
Dentro do parque, o tempo parecia único, suspenso, como se existisse em paralelo com o tempo da correria citadina.
Me senti parte da ilustração do livro que outro viajante estaria lendo em seu piquenique, em algum outro ponto de Edimburgo, enquanto ele estivesse saboreando uma fatia daquele bolo típico com frutas, amêndoas e whisky, com uma garrafinha de leite fresco.
Continuei o passeio. Naqueles caminhos, tocava um silêncio profundo, enquanto o equilíbrio entre os elementos da paisagem alcançava o ápice; os cheirinhos da natureza e da quietude se misturavam com o balanço do vinho, e o vento frio justificava a manta pink, que agora cobria meu vestido de verão.

Betina Mariante Cardoso







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