sábado, 26 de maio de 2012

Dos encantos da Luminara de Pisa, parte II- A Celebração

Onde parei?

Bom, no almoço de sábado, tínhamos combinado, os dois casais de amigos brasileiros e eu, de fazermos a celebração no apartamento onde eu estava hospedada, e de descermos para a Festa, depois; acertamos os quitutes (num diálogo entusiasmado de que ainda me lembro) e agendamos a ida ao supermercado na terça-feira, para os preparativos da noite de luzes. 

Nos divertimos fazendo as compras na tarde de sol. Foi memorável, havia aquela sensação de colaboração e alegria que fazem parte da 'montagem' da Luminara. 

Muito rica, na minha vivência pisana, foi a partilha destes amigos, pois já tinham participado do evento outras vezes. Confesso que me senti 'presenteada' por eles, pela possibilidade de comemorarmos o ensejo no 'meu apartamento'; me senti honrada por poder preparar a casa para recebê-los. Aquela perspectiva era algo inusitado em uma cidade onde eu 'morava' apenas por uma quarentena, mas num recanto que já sentia como 'meu'. E confraternizar ali, descendo para assistir ao espetáculo, foi  um marco de minha viagem. Eu nem sabia direito o porquê, mas, de alguma forma, imaginava que aquela festa seria uma memória perene em meus registros.



Abri a porta com as compras. Observei o ambiente, já me sentia acolhida quando chegava. Na estante, estavam temperos, livros, Cantuccini e Vinsanto, presentes, Lemoncello, moedor de pimenta, um vidro de azeite de oliva, calendários e marca-páginas com imagens da Toscana, livros, livros, livros... A estante, assim, estava habitada, viva na atmosfera, com baguncinha e tudo.

Eu já tinha descoberto o ângulo ideal das portas de vidro para que dessem prismas à sala, e encontrara, dias antes, quais abajures deveria acender para alegrar o pequeno apartamento, afastando a má impressão causada de início, a do pé-direito alto. Ao combinarmos da festa, comprei mais talheres, um ralador, e verifiquei o estado da louça e dos copos, das tábuas de madeira, da limpeza da casa. Tudo em ordem. E o aconchego, aqui dentro, por ter a possibilidade de receber amigos tão queridos no meu habitat pisano. Em essência, acho que esta comemoração foi o que tornou aquele espaço um lar, mesmo que tão breve. Fazer uma festa ali, confraternizar o tim-tim, desfrutar das contribuições saborosas de todos: era, isto sim, a Nossa Luminara.

Tanto se diz que o melhor da festa é esperar por ela, mas, naqueles dias, o entusiasmo,  a expectativa, a montagem do cenário e do cardápio e a celebração em si foram prazerosos na mesma medida.


Hoje, refletindo, posso dizer que elaborar os quitutes na mesa da sala, com os apetrechos da minha mini-cozinha, foi o ponto de partida para o que chamo de 'me sentir em casa'. Contudo, dias antes- a bem da verdade, na preparação daquele almoço de sábado- eu já havia inaugurado a cozinha como território de criação. O que me fez tão bem foi ir ao Super com as gurias, escolher os ingredientes da brincadeira, dar risadas, deixar as compras em casa e sair para comprar os últimos retoques. Que mágica cotidiana é esta? A mágica da cooperação, do entusiasmo, do encontro simples de uma reunião de amigos, e isto tem sabor de vida onde quer que se vá, até quando se trata de tornar 'em casa' um lugar alheio. O que me fez tão bem, acredito, foi a possibilidade de vivenciar, na prática, o simbolismo de comunhão da Luminara di San Ranieri, num âmbito caseiro e artesanal: preparar a casa, e os comes-e-bebes, para uma celebração coletiva. Havia um encanto que eu não sabia nomear, mas, quando eu vi os jovens na rua, colocando as velas nos copos, num empenho vibrante e festivo, me emocionei. Ali compreendi que minha plenitude, com nossa comemoração, se aproximava daquela experiência; para mim, estar no espetáculo através de vicissitudes rotineiras, como fazer as compras, arrumar a casa, preparar delícias e receber amigos era também um modo de cooperar com a anima da Luminara.




Como estes detalhes simples podem ser tão relevantes? A meu ver, porque me fazem habitar a emoção. E hoje, com esta conversa, chego a sentir os cheiros dos pãezinhos especiais trazidos pela Cristina e pelo Fábio, e do pão italiano de nome Impignolata, preparado pela Valéria com a receita de de sua sogra-mãe do Daniel-,da 'Sfoglia di Mozzarella' com tomates frescos e manjericão e  do patê de alcachofras e queijo Grana Padano que preparei. Chego a sentir a pulsação que a luminosidade fazia na sala, durante a janta, com o bate-papo ameno, a alegria, o vinho e o saborear dos acepipes. É incrível como a vivência sensorial fica 'carimbada' na memória: enquanto escrevo, são quase tangíveis as cenas dos preparativos, dos brindes, do sabor dos pratos. A receita de 'Impignolata', elaborada pela Valéria, era de um pão italiano com salame na massa e cobertura de funcho. A propósito, a riqueza  deste gosto foi tão viva para mim que o funcho se tornou um sabor ligado a uma alegria genuina, à celebração entre amigos. Lembro da textura dos pãezinhos com o patê, com os tomates, com o vinho, da combinação de sabores e do afeto da boa conversa que a festa em casa me proporcionou.

Tudo isto, ligado à experiência de conhecer a Luminara di San Ranieri em sua noite de brilhos, de fogos, de velas, de encantamento, foi o conjunto propício para uma memória acesa, perene e flamejante em mim. E decidi que este nome deveria se tornar parte do meu cotidiano: escolhi homenagear a festa, com toda sua memória de alegria e colaboração, nomeando nossa editora.


Um profundo agradecimento aos amigos que tornaram real esta vivência: Valéria e Daniel, Cristina e Fábio.

Para compartilhar!
Luminara di San Ranieri, Pisa, 2004
http://www.youtube.com/watch?v=Tyoo7zEW0k8


Betina Mariante Cardoso

3 comentários:

  1. Que bela lembrança guardas desta festa da Luminara! Muito bom acompanhar teu relato com esta riqueza de detalhes, fruto da tua enorme sensibilidade. Pura emoção, muito gosto pela vida!

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  2. Tinha esquecido de comentar o vídeo: muito lindo!

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  3. Querida Heloisa! Sim, esta festa em si, e a celebração que fizemos, me trouxe uma emoção plena e muito viva, principalmente pela participação de todos na montagem da festa! É algo que guardo como uma preciosidade, esta lembrança! E o vídeo traduz muito bem essa sensação, este movimento da cidade para realizar a beleza e a sensibilidade que a Luminara provoca em seus reflexos. Gracias pelo comentário! Beijos!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina