quinta-feira, 3 de maio de 2012

"A Alegria de Cozinhar"



Setenta e cinco anos separam estas edições de "The Joy of Cooking", (A Alegria de Cozinhar), de Irma Rombauer, um dos principais ícones da cozinha Norte-Americana. Além de ser uma senhorinha muito carismática, e cozinheira pra lá de primorosa, a autora diz a que veio, na  primeira edição, de 1931 (capa pintada pela filha, Marion Rombauer, que também ilustrou o interior do livro; na foto, capa com imagem em azul e verde). Com 54 anos, deu início a um novo projeto de vida. Na obra, Irma faz jus ao reconhecimento de excelente  professora de cozinha, uma das funções que desempenhava em sua comunidade, e de onde nasceu a idéia da escrita. Ao 'conversar' com o leitor, durante as receitas, Irma   ensina o passo-a-passo em uma linguagem prazerosa e clara, ao lado de cada "aluno".
Entretanto, o que me chamou mesmo a atenção, desde a primeira vez em que li sua história, é a forma como tudo isto começou na vida da autora, publicando o livro com custos próprios aos 54 anos de idade e vendendo, em sua casa, os três mil exemplares impressos, enquanto procurava um editor para seu trabalho.  O genial subtítulo do livro: "A Compilation of Reliable Recipes with a Casual Culinary Chat" [Uma Compilação de Receitas Confiáveis com um Bate-papo Culinário], apenas sugere como a versátil senhora transitava entre as ocupações de cozinheira, professora, escritora, dona de casa, boa amiga, ótima anfitriã, mãe viúva e força de sustento da casa. Pois ocorreu à família a morte trágica do esposo de Irma, deixando-a sozinha para dar conta dos filhos e da sobrevivência. E então ela saiu em busca deste dar conta, valorizou dons que tinha, aperfeiçoou outros, dispôs-se a dar aulas de culinária na comunidade, planejou fazer o livro para aumentar as rendas da família, incluiu os filhos no projeto, pagou a primeira publicação, vendeu o livro em casa, saiu atrás de editor para as publicações seguintes, conseguiu, e...Virou best-seller entre os livros de culinária americanos.
Claro que houve luto, sofrimento, dor. 
Ela só teve, a meu ver, resiliência para lidar com o trauma da perda trágica do esposo, e força para seguir adiante sua jornada, pois precisava sobreviver e alimentar dois filhos. Imagino sim que tenha havido o luto normal, com suas fases, mas que não tenha havido muito tempo para este luto perdurar. Imagino também que ela tenha precisado, dentro de si, reunir uma força avassaladora para ter coragem de dar partida à mudança que fez em sua vida, e na vida da família. Imagino que ela não se vitimizasse, não se permitisse um papel que, de alguma forma, a paralisaria em seu percurso. 
Não, Irma seguiu, alegre, amorosa e criativa, seu projeto de vida. 
E este é o ponto.
Ou melhor: estes são os pontos.
A criatividade  habitava sua forma de dar aulas, de "contar" as receitas como histórias, de cozinhar com primor; sua culinária  era, ao mesmo tempo, acolhedora, prática e simples . Irma criava vida e vigor na comunidade, ensinando a amigas e a outras senhoras "A Alegria de Cozinhar". E este é o título que escolheu para seu livro, refletindo muito de sua  simplicidade e, por que não repetir, alegria. A força criativa foi o que fez Irma seguir caminhando, alegrando, produzindo. Sim, ela estava "sem saída", teve que tomar providências para sobreviver. Concordo. Mas a forma como conseguiu olhar para seu universo e criar a partir das próprias capacidades e recursos é fenomenal. A alegria de cozinhar é uma alegria criativa, que ela semeou em um pequeno grupo de pessoas, que foi aumentando, aumentando, até o sucesso de seu livro, atualmente na edição comemorativa de 75 anos.
Irma era também amorosa e doadora com os filhos, incluindo suas aptidões no planejamento da obra, trabalhando em colaboração com estes, e deixando um legado de amor familiar, e de amor pela cozinha, às gerações seguintes. É o neto, Ethan Becker,  o coordenador da edição de 75 anos, e a 'sina' da família com o projeto se expande a esposa, amigos, bisnetos...Este amor e dedicação são resposta à atitude colaborativa de Irma durante os anos que se seguiram ao início da produção de "Joy". Mais ainda, o amor e a dedicação são a resposta pela força da senhora em descobrir uma vida nova dentro de si e de investir na mudança, em prol da sobrevivência de si mesma e dos filhos. E aqui cabe ressaltar a necessidade de preservação de sua sobrevivência psíquica, também, em meio à necessidade de contornar a curva abrupta que teve que dar em sua rotina e em suas perspectivas. Poderia não ter criado o livro, poderia não ter seguido o trajeto olhando para frente, e sim para trás. Poderia, poderia...Mas olhou para frente, tinha um novo projeto de vida, e percorreu toda  a distância, levasse o tempo que levasse, até realizá-lo. E o melhor: caminhou prestando atenção no caminho, com alegria, e não apenas atenta ao ponto de chegada. E, melhor ainda, ensinou a  muita gente, e ensina até hoje, "A Alegria de Cozinhar". Acho que Irma ensina bem mais, pois esta alegria é de viver. E de seguir, dia-a-dia, agora-a-agora, seu projeto.
O legado do livro, e do jeito de viver da autora, foi transmitido às gerações da família, em uma herança de resiliência, criatividade e pulsação. 

Conhecer esta história, para mim, foi uma belíssima descoberta. Há muito mais para refletir sobre a produção de Irma Rombauer e sobre sua história de vida. Hoje contei somente o que me tocou, desde a primeira leitura. 
Como cheguei à Irma? Na serendipity dos hipertextos...Uma postagem do Facebook, em 2011, citava o nome do livro, e, curiosa que sou, fui seguindo o rumo da história, me encantei com os livros, encomendei um, depois o outro, então a biografia da autora e de sua filha, escrita pela escritora Anne Mendelson. A edição comemorativa tem prefácio de Julia Child e tem desenhos lindíssimos e didaticamente ilustrados.
Bom, estou me alongando no texto, por puro entusiasmo. Espero que tenha gostado da leitura!

Se eu tivesse, por sorte, conhecido Irma, penso em quantas coisas ela teria para me ensinar sobre a cozinha, sobre a vida, sobre o simples seguir.


Betina Mariante Cardoso


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina