domingo, 6 de maio de 2012

Ainda existe tempo para o 'Pão-de-Minuto'?

                  Veranico de maio em Porto Alegre, calorzinho e dia de sol. Gente na rua, caminhando, o Super lotado de figuras comprando os preparativos para o final de semana, as obrigações da semana, algum quitute aleatório. E, como não referir, muitos comentários, por toda parte, sobre a espera da Grande Lua, o que deu uma alquimia especial ao sábado. E os trajes de verão novamente em cena pela cidade! Aqueles que, já nas estantes superiores do guarda-roupa, desceram depois de uma semana invernal. Um entusiasmo coletivo com o veranico.
                Acontece que domingo passado coloquei as blusas leves lá pra cima, deixando uma-que-outra para novas mudanças climáticas como a de hoje; nas prateleiras que alcanço fácil estão as de manga comprida, lã ou malha, gola alta, mantas, mantas, mantas, e a espera do frio. No dia em que fiz a organização de outono-inverno, revi diversas roupas das quais nem lembrava mais, por estarem guardadas há meses; aproximei, por acaso, uma manta antiga de uma blusa nova e me encantei com a combinação, que nunca tinha imaginado. Vi a predominância de um espectro lilás nos trajes outonais, toquei  nas texturas aconchegantes dos tecidos desta época, percebi como os sons das roupas são diferentes, mais abafados, silenciosos. Senti cheirinho de frio, gosto de 'queijos e vinhos' com amigos, de chocolate quente com o amor, de Nega Maluca no café da tarde num domingo chuvoso, e todos os clichês prazerosos que o frio desperta no imaginário. Senti gosto de cardápios esquecidos, vendo as roupas quentes à mostra. 
                   E fiquei pensando  nisso de me esquecer dos trajes que não enxerguei por um período longo, de não lembrar pela correria da rotina, pela impossibilidade de uso, pela tendência de atentar para o que está mais "à mão". Claro que o exemplo das roupas é extremo. No entanto, me dei conta de que isso acontece em relação às memórias culinárias, também. Ao escolher os pratos de uma reunião festiva ou mesmo de um almoço  descontraído de final de semana, acabo optando pelas "roupas da estação", ingredientes e cardápios em voga no período. Agora já não me refiro ao binômio verão-inverno. Me refiro, isto sim, às emoções de quitutes antigos que, por estarem fora do circuito de moda, tornam-se apagadas nos  meus cadernos de receita rotineiros,  escondendo-se naqueles que, como as roupas da estação passada, habitam as estantes superiores   e de difícil acesso. Acho que esquecemos de gostosuras de um tempo distante, simplesmente por saírem de uso, por abandonarem as manchetes da nossa própria vida cotidiana. 
                 Digo, por experiência própria: ao organizar um almoço de domingo, é grande a chance de que eu opte por pratos contemporâneos, triviais ou não. Mas contemporâneos. E acho uma pena que eu faça isso, com toda franqueza. Percebi, lendo o início de livros de receitas antigos, como há sabores que hoje me parecem, por completo, antiquados, pela simples falta de uso. E senti vontade de testar receitas que a Vó Léia e as avós da época faziam, receitas que estão em destaque no livro da Doña Petrona, cozinheira argentina de enorme reconhecimento, ou em cadernos pra lá de guardados. Ou mesmo receitas que chegaram até aqui por anotações soltas, pela tradição oral de um "modo-de-fazer" transmitido de geração em geração e aportado em mim pelo mero relato de como era o aspecto, o cheiro, o gosto, a consistência, o som da mordida...Cito o exemplo do "mata-fome", doce da época da minha mãe-que eu posso apenas imaginar-, ou as delícias de festa que a vó fazia com suas amigas, 'salgadinhos e docinhos' que trago na lembrança. 
                 E me pergunto: esquecemos desses sabores nas 'estantes lá de cima', por termos nos habituado com os sabores de hoje? Será que é obsoleto reler cadernos antigos e retomar o famoso "pão-de-minuto", a "pizza de sardinha", o "canudinho", a "torta de bolacha"? Quando menciono a palavra "obsoleto" estou me referindo sim ao aspecto moda, mas também às nossas percepções de gosto e prazer. Fazendo um doce antigo, terei o mesmo prazer de degustar a pura  essência da receita, como antes, ou o 'princípio ativo' da vivência será a memória emocional que o doce evoca, e não tanto o prazer pelo gosto em si? Meu paladar terá mudado, a ponto de eu 'esquecer' a força avassaladora da pizza de sardinha que a Vó Léia fazia, ou a ambrosia impressionante que a Vó Alda deixou na lembrança de tanta gente? 
           Esta pizza (também chamada "Pizza de aniversário"), de que não peguei a receita com a vó, é patrimônio de uma época: encontrei, nas anotações de uma outra vó muito viva para mim, a vó do meu noivo, a mesma receita da pizza que conheci. Há alguns meses atrás, ao encontrar a anotação em uma folha de uma coleção das receitas desta "vó emprestada", bati uma foto. Hoje, no Super, abri a galeria de fotos do celular para encontrar, e adivinhe? Exatamente a fotografia onde está a receita da clássica pizza de sardinha. E então comprei os ingredientes. Mas não encontro, em lugar nenhum, a receita da torta com discos de amendoim e recheio de ovos moles e ameixa, também da Vó Léia. Esta precisaremos reeditar, trazer de volta de um tempo longínquo, pois não há qualquer registro em cadernos. Só existe a memória de um espaço irrestrito de doçura e aconchego, com um sabor único de preparação de festa, em que a expectativa pela hora da sobremesa era soberana.

                Com este frio que há de chegar, essas lembranças aquecem como uma gostosa manta de inverno. Agora a meta é colocar em prática algumas das  clássicas edições....Que tal? 
                                                   Betina Mariante Cardoso


Minha experiência com o "pão-de-minuto" de queijo



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