sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pisa Além da Torre




Caffè dell´Ussero, no Pallazzo Agostini.
Lungarno Antonio Pacinotti 26, Pisa
www.ussero.com 
                   
Em meu livro de emoções culinárias (de uma cozinheira experimental), escrevo um capítulo sobre minhas vivências ao redor dos sabores  na cidade  de Pisa, onde passei uma quarentena no ano de 2004, para um estágio médico no Hospital Santa Clara. Era um plano ousado, sem dúvida, pois decidi ir sozinha para a temporada, escolhi pela Internet o lugar onde me hospedar, e falava italiano com alguma fluência havia apenas  pouco tempo
             
                          Da cidade, eu sabia que a Torre estaria ; o resto seria uma grande aventura. Eu sequer poderia imaginar, no entanto, a experiência revolucionária que estava por viver, pelas descobertas de mim mesma e dos mapas que desvendei, me perdendo (quase de propósito) pela cidade. Como sempre, a cozinha desempenhou um papel importantíssimo no meu tempo livre, o de laboratório de vida. Quantas delicatessens, cafés, restaurantes, feiras e confeitarias eu descobri em minhas expedições distraídas pelas ruas pisanas...E poderia, hoje, traçar a percursos culinários vividos, pela memória das sensações que cada acepipe, cada doçura, cada lugarzinho precioso despertou.

            Assim, além de 'desbravar' trajetos inusitados, percebi que há uma cartografia subjetiva nos lugares que visitamos, mesmo se por curto período. Um mapa de nós, demarcado por pontos estratégicos: os sentidos. Para mim, esta cartografia é composta por sabores e texturas experimentados, pela pulsação dos aromas, pela tenda de doces com toldo de listras vermelhas e brancas numa tarde ensolarada, ou pelo silêncio penetrante do manjericão, nalguma feira de rua. Se remonto minha quarentena, por exemplo, sei onde encontrar detalhes que me fizeram sentir desta ou daquela forma; sei como chegar aqui ou ali, mesmo sem o endereço, pois há uma força anímica nos passos, um reconhecimento do território vivido. São marcas únicas, íntimas. 

           Quando viajamos, compomos nossos mapas, mesmo sem nos darmos conta. E que nutro tal amor atávico pela cozinha, naturalmente esta acabou sendo minha perspectiva nas andanças por . Descobri uma "Pisa além da Torre", uma cidade dentro de outra, com limites desenhados por minhas deliciosas impressões.Conto depois. Agora, vamos passear um pouco pelos arredores.


         Minha hospedagem ocorreu no Rellais dell´Ussero, um tipo de Bed & Breakfast (B&B) situado em um prédio (pallazzo) clássico na história de Pisa, Pallazzo Agostini, nas margens do Rio Arno.Pois o tal B&B é composto por dois pequenos apartamentos no interior deste prédio, bem no fundo à esquerda, em uma área independente definida por uma estilosa porta de   vidro e pela plaquinha de apresentação. Este recolhimento é o charme do lugar. Há um silêncio confortável mas, ao mesmo tempo, desafiante. E o apartamentinho oferece detalhes que merecem uma tarde de conversasE uma visita ao link http://it.wikipedia.org/wiki/Palazzo_Agostini .

   Bom, na mesma estrutura do Pallazzo Agostini, no térreo, está o Caffè dell´Ussero, de onde os hóspedes do B&B recebem, incluídos no pagamento, tickets para o café da manhã. É inegável que meu encanto de começar o dia no Ussero  era soberano. Por quê?

   Em Pisa, o Rio Arno faz uma curva, inclinando-se da esquerda para a direita, e muitos prédios (os pallazzi) que margeiam o rio, baixos e coloridos, contornam seu movimento nas duas margens, formando um espectro de cores que se amplifica com os reflexos da água, com o céu aberto, com uma alegria que se espalha na cidade. 
Em cada lado do Arno há uma avenida longa, que recebe diferentes nomes em trechos limitados por pontes, que unem os lados da cidadeUm dado curiosoPisa é dividida, pelo rio, em duas partes:  Mezzogiorno”, que significa “meio-dia”, onde estão situados a estação de trem, o correio, a via de passeio comercial, e  Tramontana”, que significa “pôr do sol que, entre tantas belezas, tem a Torre de Pisa e outras interessantices. As avenidas têm o nome comum de Lungarno (o que quer dizer “ao longo do Arno”), recebendo títulos diversos entre as   pontes, sendo a principal chamada Ponte di Mezzo” (Ponte do Meio), com grande  relevância histórica e, por que não dizer, de enorme relevância em minha jornada.

O Café, 'nascido' em 1º de Setembro de 1775, em si tem uma atmosfera muito singular: o encanto da tradição, um certo ar intimista e uma sobriedade merecida, expressa nas fotos pelas paredes, na fotografia estilizada no painel ao fundo ou nas mesas e cadeiras elegantes. Há um aroma de festejo, pelos doces e salgados da vitrine de quitutes. O painel mostra a imagem do Arno e das fachadas no passado. Uma antigüidade inquieta e curiosa alerta para a notícia de que estamos em um cenário dinâmico, um   espaço em que os tempos coexistem em sintonia.

Lembro da luminosidade típica do cenário, fornecida por lâmpadas esbranquiçadas e pela entrada da luz do dia através da porta ampla do espaço. Ao mesmo tempo, a presença de fotos, ao invés de janelas, dá ao lugar uma vida fervorosa, faz do freguês um convidado às reuniões e festividades que preenchem a atmosfera inteira dali. E isto é o mais fabuloso deste café histórico: há festa, mas  silêncio. Interessante é que, de qualquer forma, nos sentimos parte dali, nas paredes do ambiente principal e da sala dos fundos, nas fotos e recortes das figuras relevantes que estiveram , nas imagens de gentes em tempos   diversos. E s podemos encontrar, na introspecção, a arte de saborear uma daquelas tradições regionais. Era assim que usufruía da mesinha redonda do canto, para degustar um Budino di Riso  e uma taça de café, lendo um livro ou um jornal que me demorasse na sensação de pertencer ao cenário.
 Se nos concentramos em degustar com plenitude estes sabores antigos, que devem viver ali  tempos incontáveis, nos tornamos sim parte da história do lugar, mas, principalmente, o lugar se torna parte da nossa história individual.

E foi assim que me senti naqueles tantos dias, absorvendo o Caffè dell´Ussero e sua vida a cada novo “Budino di riso” do café da manhã. Era como se toda a idade do local se transferisse para aquela receita, para aquela vivência única de um bolinho italiano de arroz, macio, suave na presença leve da baunilha na massa,  prazeroso no morder crocante da casquinha. Há de fato uma força transbordante no Caffè, e a tomada de consciência de tudo o que representa  estar aliexperimentar as nuances de seu cardápio e de suas paredes, me fazia sentir parte de sua vida. Acredito que assimilei estas sensações profundas através do prazer de receber aquele bolo, pressupondo a emoção e o sabor como lembranças registradas em conjunto Gravei a memória do Caffè dell´Ussero em mim pelos gostos vivos que me propiciou, pela emoção única de começar o dia vendo os movimentos matutinos na cidade, pelo despertar para o dia assistindo ao Rio Arno.

Por que estou contanto esta história hoje? Porque a proprietária do Relais dell´Ussero, que me acolheu em sua estalagem naquela temporada, respondeu ao meu e-mail esta manhã, presenteando-me com a receita histórica do Budino di Riso feita pelo Caffè dell´Ussero, com o nome de "Risottino dell´Ussero".  Contou-me que o café é um local histórico na Itália, sendo o terceiro mais antigo café, depois do Florian em Veneza e do Greco, em Roma  E, ainda mais interessante, referiu  que sua receita data do ano da fundação do Caffè, 1775, e autorizou-me a publicá-la no livro. Viva!!! http://www.localistorici.it/it/Schede/view/slug/caffe-dell-ussero/tipo/locali-storici.

Escrevi a ela pedindo esta gentileza, por acreditar, realmente, que a receita de uma experiência culinária é parte da história que vivemos e que desejamos contar. Afinal de contas, o Budino di Riso é um doce antigo e inseparável do significado deste Caffè dell´Ussero para mim, por isto quero compartilhar esta vivência com os leitores, através da receita no livro. Este sabor é, sem sombra de dúvida, parte de meu mapa de Pisa.

Com esta correspondência recebida hoje, 27 de abril de 2012, me senti presenteada pelo primeiro mês do Serendipity in Cucina! E é um grande  alegria compartilhar este presente com você!


Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. Beleza de texto, Betina! Consegues impor um clima de interesse e descontração da primeira à última frase e eu sinto: 'pena que acabou'... Sem mesmo conhecer, ainda me sinto lá, extasiada com a beleza da 'curva do rio Arno'...

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  2. Gracias, Helô, por tua participação! Como é bom poder interagir com o leitor, sentir como percebeu e imaginou o texto! Que bom que gostaste! Nos próximos dias, escrevendo mais sobre as experiências que a cidade me oportunizou em termos de enriquecimento interno (e gastronômico), colocarei uma foto da 'curva do rio Arno'. Obrigada, e te espero nas próximas leituras! Abraço!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina