sábado, 28 de abril de 2012

Manjericando




Era uma sexta-feira à noitinha, dia claro, ainda. Isso foi junho, em Pisa. A cidade em festa, o mês todo, gente na rua, clima festivo, as preparações da Luminara di San Ranieri acontecendo. Tinha mesmo um colorido na atmosfera, uma vivacidade, um fervor. A tarde de sol e céu azul, as cores pastéis dos prédios antigos nas margens do Arno, acompanhando a curva do rio, a minha sensação de plenitude, pertencendo à paisagem: um respiro profundo, para absorver tudo que aquele instante oferecia.

Foi com este estado de espírito que cheguei em casa, um pequeno quarto-sala-mezanino no Palazzo Agostini, antiga ‘Locanda Dell´Ussero e atual Relais dell´Ussero. Os dois apartamentos, Suíte Casanova e Suíte Carlo Goldoni, têm seus nomes em homenagem aos ilustres hóspedes da antiga ‘Locanda’, que registraram a passagem por ali em suas memórias.  Tenho certeza: este lugar tem vida própria e muita história pra contar. Minha hospedagem foi na chamadaSuíte Casanova”, homenageando o próprio Casanova, que esteve ali, e sabe-se o que andou aprontando...

Tinha feito as compras de tarde, na feirinha da Piazza delle Vetovaglie, que fica logo na quadra de trásFolhas viçosas de manjericãocom um aroma único, que até hoje consigo descrever com sensações. Um verde que parecia pintado à tinta fresca.
Preparei a mesa, abri a janela de casa- que dava para o interno do palazzo-, coloquei a toalha (puída, mas charmosa, floreada), e deixei apagadas todas as lâmpadas. O  céu claro  no anoitecer era suficiente para  criar uma luz naturalsuave no apartamento, que recebia pouco sol. Não liguei a TV, deixei a penumbrinha na casa toda. Abri a janela de vidro, alta e imponente, refletindo a luz da tardinha para dentro da sala. E sentei em uma das cadeiras da sala de jantar, com três ou quatro mancheias de manjericão fresco em um pirex. E com o silêncio.
Pouco a pouco, fui trabalhando nas folhas, tirando-as, uma a uma, do caule. Fiz tudo muito devagar, observando a cor, a textura, o cheiro, o desenho de cada uma com a luz clara que vinha, tímida, pela janela. Cuidava para separar as folhinhas inteiras, e aquela tarefa parecia suspensa no tempo, como se tudo fosse um desenrolar perene. E, avançando no exercício de sentir, me deixei suspensa também, no gesto delicado de destacar as folhas e depois rasgá-las em pedacinhos pequeníssimos. Com a janela aberta, aquela cena era singular, e minha.
Havia um sussurro, vindo não sei de onde. E então comecei a ouvir uma melodia, e prestei atenção. Valsa, parecia. O som chegava de longe, era uma harmonia instrumental que beirava o paraíso, me atingia por inteiro, e musicava o cenário como se fosse trilha sonora. Senti a pureza do som de uma cachoeira, em que transparência, cheiro e frescor se misturavam em uma sinfonia exata, milimétrica, me conduzindo a um espaço desconhecido em mim, um espaço plenamente verdadeiro, cristalino. Continuei rasgando aas folhas, embalada por aquela mágica, mas fiquei curiosa para saber de onde vinha, e fui até a janela. Olhei em volta, nem sombra daquela música. Dei de ombros, e voltei ao trabalho, tim-tim por tim-tim. Ainda inebriada pelo aroma, não sentia que o tempo passasse, mas a luz que vinha da rua diminuía. Mesmo assim,  mantive tudo apagado,  a atmosfera era tão vicejante que qualquer lâmpada poderia me desconcentrar do enlevo.  De novo, a valsa, com instrumentos leves, como se cristais muito finos combinassem um balanço sutil, mas que todo meu corpo ouvia.

Me deixei embalar pelo som, pedacinho a pedacinho que rasgava. E percebi. Quem tocava aquela melodia era o cheiro do manjericão.


Betina Mariante Cardoso

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