segunda-feira, 30 de abril de 2012

Habitando o novo




Seguindo a prosa pisana...
Pois então cheguei no meio da tarde ao pequeno quarto-sala-mezanino do Relais dell´Ussero: uma porta estreita, conduzindo a uma escada, levava aos dois pequenos apartamentos de uma hospedagem bem peculiar. A propietária abriu a porta e mostrou-me, satisfeita, o que seria meu território naquele mês. O belíssimo Pallazzo, na curva do Arno, me encantara de primeira, e eu respirava para absorver a paisagem toda. Entretanto, naquela tarde, a atmosfera nublada emprestava aos ares do local um certo desconforto, uma luz sem vida, que se refletia nas portas de vidro do quarto e na janela típica, que dava para o interior do prédio. Tudo era incógnito, e o tom antigo, para mim, era um novo inquieto, um vazio que girava. Eu girava ("como vou passar quarenta dias aqui?"). E havia, sim, uma beleza, um requinte, e, quem sabe, uma ironia do espaço, provocando-me a enfrentar o novo. O pé-direito muito alto, a pequena mesa de madeira com quatro cadeiras, a cozinha embutida, a poltrona azul no quarto-destoando da decoração-, os dois  abajures longos pela sala, a estante vazia: todos os elementos de um espaço silencioso, vago. Faltava bagunça, faltava entusiasmo, faltava um jogo de luzes que tornasse o studio acolhedor. Sim, havia falta de vida. Ou era uma tristeza espalhada, sem formas, que ocupava o lugar? Foi como recebi as chaves.  Era tudo muito longe do que eu tinha criado, e a mera idéia de atravessar um longo período ali me desconcertou. Recebi as orientações, as boas-vindas. Fechei a porta, irritada com a inadequação do ambiente ao meu imaginário, e fiquei sozinha  naquele espaço burocrático.
E não é assim que recebemos alguma mudança em nossa vida : em branco, esperando por nossa apropriação? Pois é sobre isto que quero falar.
Após dormir um pouco, saí para conhecer os arredores, e já anoitecia. Jantei algo no Caffé dell´ Ussero,  no térreo do palazzo, mas ainda sabia pouco, um 'quase-nada' sobre o café histórico e suas receitas únicas. Na volta para "casa", comecei a descobrir quais as luzes tornavam o conjunto mais festivo, mas o pé-direito alto era sempre um inconveniente. Coloquei objetos em cima da mesa, desalinhei as cadeiras, deixei roupas em cima da poltrona azul. A atmosfera cinza da tarde era substituída por minha anima, que ocupava-se em dar ao studio meu entusiasmo.
Com o tempo, coloquei livros na estante, e fui comprando novos (os primeiros foram de uma coleção de cozinha toscana, pequeninos e simples); encontrei tempeiros para os vidros vazios, garrafinhas pequenas de Lemoncello, um belo frasco de 'Olio d´Oliva' e uma tampa de porcelana,  pintada à mão, para preservá-lo, presentes, adornos, mais livros, uma garrafinha de Vinsanto para os Cantuccini, marcadores de página delicados... A casa ganhou um aroma próprio, resultado de sabores, guloseimas, vida.
Aos poucos, o quarto-sala-mezanino adquiria pulsação e preenchia-se de uma alegria interessante: a presença de mágica. Enfim, tornara-se um espaço lúdico (e sim, com alguma bagunça). Em alguns dias, percebi que já habitava um lar, compondo os registros de minha presença ali., nas luzes dos abajures, nos ingredientes e livros dispostos na estante, na janela aberta, na posição das cadeiras, e em detalhes cotidianos.  E ainda viriam outras etapas, necessárias para a tomada daquele local como 'minha casa', mesmo que temporária. Contarei novas mudanças em outras conversas.
E hoje reflito. É progressiva a apropriação de um espaço, de um tempo, de uma idéia, ou mesmo de sabores nossos, como o do Budino di Riso do Caffè dell´Ussero ou dos Cantuccini con Vinsanto do restaurante onde almoçava durante a semana. Fui percebendo, durante a temporada, qual atmosfera desejava criar para mim: escolhi quais componentes  adaptaria para tornar o studio próximo ao que minha imaginação havia criado, adotei mudanças na estante que a tornaram peça chave da transformação do todo, abri as folhas da janela e as portas de vidro do quarto, e provoquei, entre elas, um movimento de luzes que resultava em um prisma decorando a sala. Em pouco tempo, o local foi preenchido de vida, de expectativas realizáveis, de afazeres domésticos que reluziam na força anímica que a casa recebia.
 Pela frentesempre um espaço ainda inabitado, pleno de vazio, de expectativas por realizar. Se ocuparmos o tempo como podemos ocupar o espaço, com nosso olhar, nossa anima, nossas características, nossas bagunças traduzidas em brincadeiras, nossas receitas culinárias, podemos fazer dele nosso tempo. Assim  também podemos fazer um lar a partir de um território vago e desconcertante, ou, de uma idéia sem forma, um projeto pessoal, pleno de nós. Um quarto-sala-mezanino pleno de vida em sua mobília, em suas estantes, em suas janelas e portas, na mesa da sala de jantar. E isto é possível na construção de um dia-a-dia, em que estejamos disponíveis e dispostos para a ocupação do calendário, dos afazeres, dos hobbies, dos amores. Quem sabe esta seja uma forma interessante de habitarmos o novo?
Afinal, entregamos ao espaço e ao tempo nosso jeito de ver o mundo. E espaço e tempo são moldáveis por nossos prismas, atitudes, desejos.

Betina Mariante Cardoso

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