domingo, 22 de abril de 2012

Escrita de Forno-e-Fogão

Dia de chuvinha, céu intimista. Reminicências de sabores, receitas de antes, uma sombra de nostalgia passa pela varanda, enquanto preparo um dos textos na mesa da copa. Manuscrito, a folha em branco, rabiscada à caneta azul. Como fui parar ali, naquela escrita de forno-e-fogão?

Bom, foi a partir da leitura de Afrodite, da Isabel Allende, em fevereiro de 1999, que  descobri que meu prazer com a culinária já ultrapassava as caçarolas, debruçando-se na literatura gastronômica; só  tempos depois eu encontraria , nas vizinhanças, meu encanto pela escrita de cozinha. A bem da verdade, sempre foi uma riquíssima aventura acompanhar mãe, avós, tias, tias-avós e primas  em suas peripécias com pratos, salgadinhos, massa folhada, geléias, ambrosias e toda sorte de quitutes imagináveis. Posso dizer, com certeza, que estas memórias permeiam minha vida desde cedo. Muitos cheiros, cores, impressões, muita "mão-na-massa". E tantos livros de cozinha, cadernos de receita, recortes de revista, fundos de embalagens com dicas, e assim por diante. Olhando para trás, percebo que a culinária e a escrita diversas vezes se cruzaram à minha frente, principalmente pelo fato de serem, ambas, hobbies  vitais cultivados por mim, com amor e entrega.  Entretanto, nunca me ocorreu escrever sobre cozinha, para além dos registros no meu caderno. Assim, foi por acaso que acabei descobrindo a escrita culinária propriamente dita; mais ainda, foi por Serendipity que descobri o quanto este encontro de gostos era prazeroso e pleno de horizontes. Como descobri?

Ao longo do tempo, fui aumentando minha coleção de livros de receitas, de anotação de invenções, de registro de pratos experimentados aqui ou ali, de cardápios, de rótulos de ingredientes, de revistas de cozinha. Percebi que, por trás de cada receita experimentada, há uma escrita, uma transmissão de informações e, muito além disso, uma transmissão de vivências embutidas nos detalhes do "modo de fazer". E  assim me perguntei, curiosa, sobre o papel dos livros de receita na História, em que ponto tudo começou, como evoluiu, e por que fazemos um prato assim ou assado de acordo com instruções tanto das nossas avós (em nossos cadernos escritos à mão) como de completos desconhecidos (nos livros de culinária). Nesta busca, descobri textos interessantíssimos, autores relevantes, registros históricos pitorescos, e uma série de boas surpresas que desejo compartilhar com os leitores.

Alguém perguntará: "Mas livros de cozinha foram (e são) sempre indispensáveis ao cozinheiro?" E então nos lembramos de nossa parte atávica, a que reconhece a massa do pão como a continuidade da pele, e, na hora do preparo, sabe o que fazer, espontaneamente, mesmo sem o caderno do lado. E o que dizer da invenção, quando decidimos, ao sabor do momento, unir ingredientes inusitados, preparar um bolo modificando a receita, encontrar um resultado  surpreendente para um almoço de improviso? Nestes exemplos não precisamos dos escritos, certo?

A meu ver, errado. O registro formal das receitas pode não estar no balcão da cozinha no exato momento de nossas criações, mas estas fazem parte de algo que um dia aprendemos lendo em algum lugar, ou pelos ensinamentos de alguém que aprendeu com alguém que um dia leu que tal ingrediente servia para este ou aquele fim, se preparava desta ou daquela forma. Esta é a importância da receita escrita, através dos tempos: guiar o aprendizado, o passo-a-passo, ensinando o que esperar de cada elaboração pela descrição minuciosa das etapas de um bolo, por exemplo. E foi nesta descrição que encontrei meu gosto pela escrita culinária, pois  conheci o envolvimento dos cinco sentidos, de nossas impressões e emoções em contato com os ingredientes, de nossas memórias e desejos ao escrever observações e métodos do preparo da Nega Maluca (uma de minhas lembranças favoritas...).
Este foi só o início de uma rica descoberta.

  Há uma  característica em especial deste tipo de escrita, que me encantou ao ler, atenta, obras culinárias como "A Arte de Comer Bem", de Rosa Maria, ou "The Joy of Cooking" [A alegria de cozinhar], da cozinheira e escritora americana Irma Rombauer, entre outras referências que pretendo desvendar aos poucos nestas páginas. Eu me sinto uma comensal dos autores e leitores dos livros, revistas e blogs de gastronomia, saboreando os textos e as receitas como em uma reunião festiva, e, ao anotar para amigos como faço minha torta de maçã com castanhas, me empenho em torná-los parte de minha experiência, através de sua leitura.

Considero que exista uma sensação de pertencença no ato de ler receitas, histórias e reflexões de cozinheiros, de confeiteiras, de avós audaciosas em suas técnicas. Na leitura da escrita culinária, a partilha atinge o imaginário de cada um com substâncias poderosas: o prazer, a memória dos sabores, o despertar dos sentidos, os afetos ligados a gostos e texturas de toda nossa vida, e, por fim, a aproximação com nossos comensais. A leitura de textos culinários, da receita propriamente dita aos ensaios e textos históricos, atinge minha subjetividade de um modo particular, que me faz, ao mesmo tempo, individual e coletiva em sensações.

Então, cozinha e escrita se alinhavaram em meu percurso. Curiosa, comecei a estudar a escrita culinária, seus autores de referência, e por que escreviam/escrevem sobre a comida e seus simbolismos. Os materiais de pesquisa são fascinantes, em termos do papel expressivo das 'prosas de cozinha', ao longo da história. Por um acaso feliz, que é como costumo me referir ao termo em Inglês "Serendipity", conheci esta forma de escrita, que me propicia a ligação destes meus dois hobbies. Percebo, nesta interface, a perspectiva de um profundo olhar para o papel dos cinco sentidos, das memórias, da criatividade, das emoções, dos prazeres: temas tão relevantes para nossa saúde global.
Percebo que, na escrita culinária, encontrei uma voz minha. Neste blog, desejo partilhar reflexões, caminhos e sabores, contando histórias e idéias, em voz alta, na mesa da copa.

Você é sempre bem-vindo!



Betina Mariante Cardoso


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