quarta-feira, 18 de abril de 2012

Chimia de Tomates


Chimia de Tomates


Não sei contar de onde criei minha chimia picante de tomates, acho que simplesmente aconteceu, sem nenhum ponto de partida. Perguntei ao tomate o que ele queria ser, naquele dia, e me deixei à mercê. Tinha comprado, no Super, uma lata voluptuosa de “pomodori pelati” (tomates sem pele), e uns quatro tomates frescos. Piquei em cubos todos eles, sem desprezar nada, nem as sementes. Coloquei tudo em uma panela média, inclusive o molho adocicado da lata. Um cheiro pulsante, um ardor, uma epifania para os cinco sentidos: o viço do vermelho cru; o sabor ácido e levemente doce; o aroma de um afeto intempestivo; o toque, no exterior, liso e suave, e, por dentro, carnudo e vibrante; o sussurro ao corte da lâmina. Todos os estímulos chamados ao trabalho, atentos à missão de uma nova receita.
A acidez pediu companhia, mandou chamar um limão, ou melhor, dois, dos médios. Com cuidado, fiz raspas da casca de cada um com o instrumento específico ("zester"), tirei o suco de um  limão e juntei aos tomates. Acrescentei duas colheres de sopa de melado, pimenta calabresa em flocos e provei. Havia uma predominância do ácido sobre o adocicado, mas a harmonia do resultado me surpreendeu. Mexi tudo com colher de pau, por uns trinta minutos ou um pouco mais, até que a consistência ficasse espessa e que os pedaços de tomate fossem envolvidos pelo corpo da chimia, sem dissolverem-se totalmente. A cor tornara-se mais escura, mais sóbria, pela presença do melado e pelo próprio cozinhar dos tomates, e o cheiro era vivo, intrigante. Pensando bem, arrojado.
Preparo alguma receita com tomate quando estou triste, pois ele é um elemento capaz de revolucionar meu estado de ânimo. Não apenas o ato de comê-lo puro, ou com azeite de oliva e orégano, ou mesmo em algum prato elaborado. Trabalhar o tomate me traz profundo conforto, desde tocá-lo por fora, para escolher os melhores, até a sensação particular de abri-lo em duas metades, despertando, como mágica, sua alma vibrante de um almoço de domingo na mesa embaixo da árvore. Idílico, não? Tomates, para mim, têm sempre o gosto de macarronada de vó, um espectro de memórias musicais e sensoriais de campo, risadas, horizonte límpido e espalhado. O tomate toca uma melodia animada, matutina, que me acompanha nos afazeres na cozinha. Talvez por sua cor tão vermelha, cintilante pelo suco, talvez pelo cheiro de frescor que ele jorra quando aberto, ou quem sabe pela harmonia de seus vitrais, o tomate é pulsação de alegria, de festejo, de gritarias em volta do fogão, enquanto outros aromas vão nascendo.
Vou além. Durante o preparo, eu assumo um mimetismo: a sensação é tão profusa que me   deixo corada trabalhando com o vermelhocom o cheiro, com a textura viva dos tomates.
E este é o prazer de explorar ao máximo um ingrediente culinário: é um mapa para dentro de mim, me faz descobrir reações químicas, reflexões e entusiasmos muito profundos. Me faz entrar em calabouços de memórias guardadas, esquecidas ou estranhas, me faz explorar territórios de sabores e impressões que eu nem imagino existirem aqui dentro. Mexer em um novo ingrediente me conta, a cada vez, algo diferente sobre mim, como, por exemplo, saber que os tomates me salvam da tristeza, pela simples alquimia que provocam em sua preparação.
Agora, não é mais de tomates que estou falando: é da expedição que alguém pode fazer a si mesmo, através de uma substância, de uma receita, ou até de um instrumento de cozinha. É da subjetividade que estou falando, quando converso sobre culinária: do “Eu”, sujeito da frase. Uma frase em quetomates” pode ser o objeto, mas outros elementos também são acolhidos. Uma frase em que os verbos fazer/sentir/ver/ouvir/cheirar/saborear/escutar são ações que dão vida à minha voz. Sou eu, sujeito, na cozinha, adjunto adverbial de lugar, com tudo o que tenho direito.


Betina Mariante Cardoso

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