quarta-feira, 28 de março de 2012

Seguindo mapas e receitas

Costumo defender a idéia de que caminhar sem mapa é profundamente prazeroso, uma experiência sem igual. Descubro lugares novos, fixo referenciais meus, registro impressões que conectam ruas distantes, mas com memórias vizinhas. Lembro de percursos pelos aromas que provocam, sei qual a cor das ruas no início da tarde, e por aí vai.

No entanto, se caminho um percurso delineado no mapa, aprendo por onde seguir, identifico distâncias exatas, e tantas outras possibilidades que apenas a cartografia me concede. Sem dúvidas, o mapa é um recurso didático indispensável.

Mas vamos para a cozinha, o tema geral deste blog...Seguir receitas é  uma habilidade importantíssima, o respeito com aqueles que criaram, aperfeiçoaram, se especializaram no prato. Um receituário de cozinha, então, é, assim como o mapa, um recurso didático fundamental. Seguir receitas permite cumprir o passo-a-passo, treinar a precisão nas quantidades e nos métodos, a prática, o aprendizado, e mais: e dá a chance de descobrir, sobre nós mesmos, atributos como paciência, humildade, cuidado com os detalhes, e, sobretudo, atenção total e irrestrita ao presente. E esta atenção, a meu ver, é uma das mais importantes e ricas vivências que a culinária oportuniza ao auto-conhecimento. Tanto em relação à nossa maestria sobre os cinco sentidos, quanto em relação a características do mundo interno que acessamos através da conexão com o presente total.

E esta é a serendipity que se abre quando seguimos receitas: desvendamos caminhos para dentro de nós, a partir da necessidade de percorrermos, atentamente, rotas estabelecidas. O foco no “agora” da lista de ingredientes, do modo de fazer, das propriedades da mistura (cor, cheiro, sabor, textura, som), é a porta de entrada para trechos às vezes inexplorados em nosso íntimo. Este foco no “agora” nos ensina a conhecer a maciez exata da massa de pão depois do descanso, mas, principalmente, nos ensina a descobrir mais sobre nós mesmos, enquanto tocamos a massa.

A descoberta é um estado de ânimo. É entrega, a mais genuína. Com ou sem mapa, com ou sem receitas, podemos trilhar longas distâncias se estivermos aptos a descobrir, para dentro ou para fora, novos rumos.

Betina Mariante Cardoso

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina