sábado, 31 de março de 2012

Na estante: entre livros e Chutneys

Estive em Buenos Aires nas últimas duas semanas, por razões de trabalho, e voltei hoje à tardinha. Abri as malas, já em casa, naquela sensação gostosa de rever a novidades encontradas durante a viagem. Desta vez, todos os caminhos levaram às estantes. Das livrarias, sebos e afins.
Entretanto, procurei focar em uma categoria específica: edições de cozinha, em linhas gerais.
Na cidade escolhida pela UNESCO como a Capital Mundial do Livro em 2011,  a combinação das especialidades livro e cozinha só poderia trazer ótimos resultados...O sumo da pesquisa foi ainda melhor que minhas expectativas.
Por serendipity, vasculhando estantes de livrarias, acabei encontrando uma subespécie meio híbrida, um outro tipo de escrita culinária, e que está abrindo, cada vez mais, o horizonte editorial das caçarolas: a escrita literária de cozinha, que pode ser ensaística, auto-biográfica, ficcional e até com aromas históricos. "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin, é um exemplo clássico de livros deste tipo. E tantos outros, de que falarei com o tempo.
Adquiri alguns títulos muito interessantes, em vários quesitos: história da gastronomia, relatos de cozinha - narrativas ficcionais em um livro; crônicas sobre a Buenos Aires gastronômica nas diversas épocas, em outro-,  edição de apontamentos de cozinha de Leonardo da Vinci e, por fim, uma tradução, recém-saída do forno, de uma escritora inglesa, sobre os sabores, ingredientes e suas combinações possíveis. Muitas de minhas escolhas tive que deixar para a próxima viagem.
A questão, quando penso em comprar livros, não é apenas financeira. Há outra, que sempre esqueço em prol de incrementar a coleção: onde acomodá-los. Hoje, mais uma vez, me deparei com o tal desafio!
"E agora? Onde vão os livros culinários sem receitas?", suspirei.
Livros e cadernos de cozinha têm seu posto garantido, mas estes novos, e os que virão, deveriam estar com as edições literárias. E fora da cozinha. Será? 
Depois de circular pela casa, sem decidir o que fazer, veio o clique.
Há uma estante, na minha dispensa, onde coloco somente os Chutneys. Aquele é o seu  habitat, por serem reservados a receitas singulares. Ali é onde recebem o zelo que merecem por sua identidade excêntrica. 
Pois bem. Estes coloridos, brilhantes e misteriosos vidros passam a dividir, a partir de hoje, seu espaço com a nova vizinhança: a escrita culinária com sabor de literatura.

Acompanhe a seção "Na estante: entre livros e Chutneys", onde publico sugestões de Literatura Culinária.

Betina Mariante Cardoso


quarta-feira, 28 de março de 2012

Seguindo mapas e receitas

Costumo defender a idéia de que caminhar sem mapa é profundamente prazeroso, uma experiência sem igual. Descubro lugares novos, fixo referenciais meus, registro impressões que conectam ruas distantes, mas com memórias vizinhas. Lembro de percursos pelos aromas que provocam, sei qual a cor das ruas no início da tarde, e por aí vai.

No entanto, se caminho um percurso delineado no mapa, aprendo por onde seguir, identifico distâncias exatas, e tantas outras possibilidades que apenas a cartografia me concede. Sem dúvidas, o mapa é um recurso didático indispensável.

Mas vamos para a cozinha, o tema geral deste blog...Seguir receitas é  uma habilidade importantíssima, o respeito com aqueles que criaram, aperfeiçoaram, se especializaram no prato. Um receituário de cozinha, então, é, assim como o mapa, um recurso didático fundamental. Seguir receitas permite cumprir o passo-a-passo, treinar a precisão nas quantidades e nos métodos, a prática, o aprendizado, e mais: e dá a chance de descobrir, sobre nós mesmos, atributos como paciência, humildade, cuidado com os detalhes, e, sobretudo, atenção total e irrestrita ao presente. E esta atenção, a meu ver, é uma das mais importantes e ricas vivências que a culinária oportuniza ao auto-conhecimento. Tanto em relação à nossa maestria sobre os cinco sentidos, quanto em relação a características do mundo interno que acessamos através da conexão com o presente total.

E esta é a serendipity que se abre quando seguimos receitas: desvendamos caminhos para dentro de nós, a partir da necessidade de percorrermos, atentamente, rotas estabelecidas. O foco no “agora” da lista de ingredientes, do modo de fazer, das propriedades da mistura (cor, cheiro, sabor, textura, som), é a porta de entrada para trechos às vezes inexplorados em nosso íntimo. Este foco no “agora” nos ensina a conhecer a maciez exata da massa de pão depois do descanso, mas, principalmente, nos ensina a descobrir mais sobre nós mesmos, enquanto tocamos a massa.

A descoberta é um estado de ânimo. É entrega, a mais genuína. Com ou sem mapa, com ou sem receitas, podemos trilhar longas distâncias se estivermos aptos a descobrir, para dentro ou para fora, novos rumos.

Betina Mariante Cardoso

terça-feira, 27 de março de 2012

"Serendipity" in cucina

Tudo começa em Buenos Aires, enquanto, em uma quinzena de passeios surpreendentes, descubro recantos culinários percorrendo o mapa a pé. Entro numa rua qualquer, o melhor caminho para encontrar uma confeitaria típica na via lateral. E me dou conta de que chegar, por serendipity, a novos lugares é bem parecido com atingir um novo sabor pela aventura de unir ingredientes inusitados. A bem da verdade, há muitas semelhanças na forma como exploro as cidades e na forma como vivencio a cozinha: nas tramas do acaso.
Surge, assim, este blog.
De que falo aqui? Me deixo conduzir pelos trajetos que se formam entre uma e outra escrita, alinhavando idéias e receitas de cozinha, leituras de clássicos da culinária, visitas a bistrôs, restaurantes e cafés. Rabiscos que, aqui ou ali, referem-se a algum cardápio, emoção, notícia ou cena pitoresca.

Começamos uma caminhada sem mapa, seguindo as pistas do acaso.
Destino?
A culinária, labirinto de experiências.

Betina Mariante Cardoso