sábado, 8 de julho de 2017

Motivações da Oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria


Escrevi o presente texto como território de reflexão sobre a "Oficina de Culinária Cultural" do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria, atividade referida no post anterior. Na leitura, estão presentes as motivações que reuni para a elaboração da temática do módulo teórico, "A cozinha como expaço físico e simbólico":

O cozinhar nos fez humanos. Nossa relação com esse ato vai além do preparo do alimento no fogo, para ingestão. Esse é, sem dúvidas, o que mantém nossa sobrevivência biológica, mas há outra habilidade que aprendemos como espécie, graças também ao fogo: a interação com os demais.  A pesquisadora Eloisa Palafox refere que as capacidades de cozinhar  os alimentos e de contar histórias distinguem o homo sapiens, pois ambas compõem parte primordial da nossa evolução. A semelhança entre tais práticas está também no fato de que permitem a socialização dos indivíduos e a partilha da comida e das histórias.
Assim, como definem estudiosos, a cozinha é acima de tudo uma linguagem em que se expressa a cultura humana; de acordo com a escritora Rita Rutigliano, “desde sempre, os escritores utilizam a comida e o comer também para falar de outra coisa. As páginas dos livros, se sabe, portam um patrimônio de signos reveladores de vivências e de sentimentos humanos”. Outra contribuição relevante é da pesquisadora Silvana Ghiazza, quando refere que “o alimento enquanto signo significa, portanto, algo além de si mesmo, media conteúdos ligados ao universo cultural, revela conexões com a realidade histórico-social, com o conjunto profundo da identidade individual e coletiva; constitui, em suma, um polo de agregação de diversas dimensões de humanidade. (...) Pode-se falar em comida, ou através da comida.”
Cozinhar, comer alimentos cozidos que nos deem nutrição e sensações prazerosas e nos reunirmos com nossos semelhantes são atributos evolutivos que promoveram a chegada ao século XXI. Entretanto, nesta mesma chegada surge um paradoxo. Em tempos de alta relevância da gastronomia nos programas de televisão, periódicos, aplicativos tecnológicos e competições de repercussão mundial  entre chefs renomados ou iniciantes, nunca se cozinhou tão pouco em casa, de acordo com o escritor e pesquisador americano Michael Pollan. Damos destaque ao universo Gourmet como cenário muitas vezes glamourizado e vicejante em Estrelas Michelin, mas estaremos nos esquecendo da cozinha como espaço físico e simbólico em nossa evolução humana? Como iniciei o texto: “o cozinhar nos fez humanos”, mas estaremos, sobre-humanos, compondo um novo cozinhar, compatível com o mundo ultra-veloz?
Na contramão dessa perigosa tendência, o movimento Slow Food vem tomando cada vez mais espaço, para nossa sorte. A busca da desaceleração, da origem do que comemos, o valor das receitas transmitidas entre as gerações, o zelo com o alimento saudável, a homenagem aos produtos locais e da sazonalidade, o cozinhar e o comer em casa com a família: são alguns exemplos das mudanças na consciência atual. Neste caminho de passos mais lentos, é possível constatar também a reaproximação entre a cozinha e as Humanidades, em especial a História e a Literatura. Nas estantes das livrarias, no Brasil e no exterior, encontramos um número cada vez maior de livros que associam pratos a escritores e suas obras literárias, publicações de ensaios sobre cozinha e literatura, registros de história da alimentação em diversas épocas da História da Humanidade, memoirs de autores famosos e seus sabores favoritos. As madeleines de Proust atingiram posto de cânones desse aumento de leituras sobre a interface entre a cozinha e a Literatura, a História, a Filosofia, as Artes visuais. Congressos internacionais, cursos e simpósios na área da Gastronomia focam neste “novo” caminho de intersecção: trazer o cozinhar e o comer para perto dessas áreas.
Na minha leitura, o que está no subterrâneo dessa busca é a necessidade de devolver o cozinhar ao Humano mais profundo em nós, em expressões como arte, sentimentos, significados, linguagens, cultura; ao mesmo tempo, através do elo com nossas raízes, na relação com a natureza e com os antepassados. A reflexão de Michael Pollan em “Cozinhar-uma história natural da transformação” ilustra tal ideia:

“Mas talvez o que aprendi de mais importante tenha sido que cozinhar nos envolve em toda uma rede de relacionamentos sociais e ecológicos: com plantas e animais, com o solo, com os fazendeiros, com os micróbios dentro e fora dos nossos corpos, e, é claro, com  as pessoas que se nutrem e se deliciam com a nossa comida. Acima de tudo, o que descobri em frente ao fogão é que cozinhar faz com que estabeleçamos conexões.”
Michael Pollan

O objetivo do módulo teórico da Oficina de Culinária Cultural é apresentar a cozinha como modeladora de um conjunto de comportamentos e fenômenos ao longo da História da Humanidade. Chegamos aos nossos dias, no Terceiro Milênio, com muitas incertezas, paradoxos  e dilemas no campo da Gastronomia; a compreensão do binômio ‘cozinhar e comer’ no mundo contemporâneo, ligada às disciplinas humanísticas, nos propicia a reflexão sobre o alimento de forma profunda. Quanto mais olhamos para  o que cozinhamos e comemos, mais olhamos para nós mesmos, nos âmbitos individual e coletivo. Acima de tudo, o propósito da oficina, em sua íntegra teórico-prática, é o de proporcionar um espaço lúdico, dinâmico e informativo aos participantes.


Em breve, post sobre o módulo 2, prático, que será ministrado pelo Chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora. 
Voltem sempre!
Com alegria,
Betina 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Oficina de Culinária Cultural no XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria

Pois a comensalidade é um dos temas da atividade "Oficina de Culinária Cultural", que o Chef e proprietário do Restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora, e eu, Betina, ministraremos nos XIII Congresso Gaúcho de  Psiquiatria, em Bento Gonçalves. O Congresso vai ocorrer de 16 a 20 de agosto, e  nossa realização conjunta será no próprio Valle Rústico, no dia 18 de agosto, sexta-feira, das 14:00 às 16:00.  

Minha participação, o Módulo 1, será a parte teórica, resultado das pesquisas, reflexões e leituras que venho fazendo há tempos nos campos das interações da Gastronomia com as Humanidades. 
"A cozinha como espaço físico e simbólico" é o título que abrange  temáticas como "origens do cozinhar: o domínio do fogo", "nutrir e agregar: a comida no centro do convívio" e o último tópico, "E o que nos conta a cozinha do século XXI?". Três assuntos, uma hora de conversa, tantos caminhos. No eixo do trajeto a percorrer, estão a Cozinha e as Humanidades, entrelaçadas. História da Alimentação, Antropologia, Literatura, Filosofia, Artes, todas reunidas para a compreensão da cozinha e do comer, ao longo da  nossa evolução; principalmente nos Estados Unidos e na Europa, tais interações vêm sendo foco de congressos e de inúmeras publicações, em escala cada vez maior, sob o nome de "Food Studies", os 'Estudos sobre a comida'. O motivo de estes temas serem abordados em uma atividade do Congresso Gaúcho de Psiquiatria? A cozinha como um dos possíveis modos de olhar para o Humano em nós, neste aspecto tão inerente à nossa sobrevivência e ao universo de prazer que a comida representa. 

A comensalidade é um exemplo relevante neste sentido: o comportamento de partilhar a mesa é ancestral, e, em sua origem, está o domínio do fogo; ao redor deste, ocorria a partilha do calor e do alimento. Assim, o 'comer juntos' corresponde a um ritual decisivo, a integração dos seres humanos para sobreviver através do fogo e da comida cozida, junto aos demais. Essa é nossa origem, como homo sapiens

No polo oposto, o mundo contemporâneo, está o Boom da Gastronomia mundial nas telas de televisão, computador e smartphones, 'seres' que fazem companhia aos indivíduos que, cada vez mais, têm suas refeições sozinhos e fora de casa, na jornada de trabalho. Ainda bem, o Slow Food espalhou-se pelo mundo, para transformar esse paradigma. Iniciativas como a Gastroterapia, da Michele Valent, em Teutônia, e como o Valle Rústico, do Rodrigo Bellora, em Bento, são células preciosas dessa mudança. No propósito de perceber a evolução da cultura gastronômica como expressão do Humano, e de refletir sobre os comportamentos ligados ao cozinhar e ao comer, surgem oportunidades de  encontros reais com a cozinha, com o alimento, com os comensais, com o afeto e os sabores. Esses são o motivo de atividades como esta oficina: divertir, ensinar e, acima de tudo, integrar os participantes. 

A participação do Chef Rodrigo Bellora ocorrerá no Módulo 2, para a prática culinária: ele fará um 'bate-papo' sobre  o movimento Slow Food, a interação que desenvolve com os pequenos produtores da região, na Gastronomia de seu restaurante Valle Rústico, e realizará uma de suas especialidades, com degustação para os participantes. 

No link, as informações sobre inscrição na oficina, que tem vagas limitadas! 

Aos colegas que estarão no Congresso Gaúcho: vai ser um prazer partilhar essa experiência com vocês!!!!

Amanhã tem mais sobre as motivações para a oficina! 
Acompanhem aqui no Blog!

Com alegria,
Betina
Imagem cedida pelo Restaurante Valle Rústico
 para a oficina de Culinária Cultural
do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria

terça-feira, 4 de julho de 2017

Refletindo sobre a comensalidade

O texto escrito pela autora convidada, Michele Valent, me trouxe vários pontos de reflexão, mas um deles permaneceu ecoando: a formação de uma rede de amigos a partir das atividades da Gastroterapia. E, pelo que conheço do trabalho da Michele, além do que li e vi nas fotos, essa formação antecede o 'comer juntos' e segue ocorrendo depois deste. Trata-se de um evento múltiplo, em que os comensais colhem juntos na horta do jardim-escola, cozinham juntos, partilham a refeição e, imagino eu, participam da limpeza e da organização do cenário, pois todos os movimentos associados ao comer são vivências em conjunto na Gastroterapia. E essa é uma das principais forças do processo. 

Um fenômeno que há muito tempo chama minha atenção é o da comensalidade, este "comer juntos". A partir da leitura do texto pude perceber o impacto, na formação da rede de amigos,  das outras atividades associadas ao comer. Trocar receitas seria uma expressão desse fenômeno, assim como o seria a troca de histórias pessoais associadas ao cozinhar e ao comer. 

Fui pesquisar as manifestações envolvidas nessas trocas, e há muito a conversar por aqui. Refleti, também, sobre a aproximação cronológica entre a leitura do que a autora escreveu e o curso de vinhos do Piemonte, ao que assisti na Vinho & Arte, na quinta-feira passada. Fiquei pensando em como ocorre a comensalidade em um curso de degustação de vinhos ou nos eventos de degustação, que alianças se formam entre os indivíduos, se é que alguma aliança é experimentada entre eles. Sou estrangeira nessas ocasiões, pois há pouco mais de um mês fui à minha primeira aula de Degustação de vinhos para iniciantes, na própria Vinho & Arte. Então, tudo para mim é bastante novo, inclusive as conversas com os participantes da mesa ao longo do curso ou do encontro. 

O que acontece em nosso padrão de aproximação com os demais, em circunstâncias assim? Eles não são nossos amigos, muitas vezes, mas compartilham conosco, durante um número de horas delimitado, experiências sensoriais únicas e raras a partir dos vinhos oferecidos. Referem as próprias impressões, os gostos, o prazer, a terminologia, as lembranças e associações a outros rótulos evocados. Compartilham, assim, a vivência dos  cinco sentidos, o que também pode conduzir à formação de amizades pelo 'sentir em comum'. Entretanto, este contato  do 'degustar juntos' os vinhos não parece levar à mesma intimidade propiciada pelo 'comer juntos'. Será? E quanto um curso nos propicia viajar por territórios  distantes, percorrer seus meandros, suas adegas, seus vinhedos e suas paisagens, como foi no curso de vinhos do Piemonte: podemos estabelecer a existência de uma comensalidade do viajante? Talvez uma sensação de desfrutar em conjunto de uma experiência imaginada a partir do relato de quem ministra. Um grupo que imagina sabores em seu coletivo estaria de certo modo exercendo a comensalidade? Todos nós, os que estávamos lá, ouvimos as mesmas informações, mas com certeza o colorido dado por um e por outro foi diferente, pelas bagagens de cada  indivíduo. 

Os vinhos degustados são os mesmos, mas a impressão é individual, o prazer pelo degustar é do próprio sujeito. Por isso, a essência do comensal é pessoal e coletiva, ao mesmo tempo. Saboreamos em conjunto, mas nossas percepções são só nossas. Se o comer juntos é um fenômeno desde sempre agregador, podemos pensar que o 'beber juntos' entra nessa mesma categoria? O que percebo é um enorme potencial para essa abertura, pela anima representada através do vinho. Me intriga pensar:  o comensal de um curso/encontro de vinhos é diferente do comensal de um evento gastronômico em que, muitas vezes, os participantes pouco se conhecem ou nunca se viram anteriormente? Qual o mecanismo agregador que une as pessoas ao redor da mesa, para uma refeição?

São devaneios a percorrer.

Essas e outras reflexões e leituras vêm vindo! Há artigos muito interessantes sobre essas temáticas, e mesmo sobre as comparações sobre as quais questiono neste post.
Obrigada pela visita!

Com alegria,
Betina


Fotos de cursos na Vinho & Arte






sábado, 1 de julho de 2017

Texto da nossa autora convidada: Michele Valent

Gastroterapia e Hygge

Michele Valent*

Até bem pouco tempo atrás, os objetivos da psiquiatria clínica estiveram, em geral, restritos à redução do sintoma e à prevenção da recaída, mas, para a definição de saúde da OMS e dentro do modelo compreensivo do bem-estar (Sirgy, 2012), a satisfação das necessidades básicas para a sobrevivência e o balanço positivo entre afetos agradáveis e desagradáveis não bastam: é preciso eudaimonia, ou seja, um propósito na vida, o exercício do prazer.
A chamada psiquiatria positiva (Jeste, 2015) procura entender e promover o bem-estar por meio de intervenções que envolvam características psicossociais positivas tanto em populações clínicas como não-clínicas. Tais intervenções, focadas no desenvolvimento do otimismo, da resiliência psíquica e da vida social, podem complementar a medicação ou a psicoterapia, são convenientes, custo-efetivas e menos associadas ao histórico estigma que pesa sobre a psiquiatria. Nessa linha teórica inscrevemos a Gastroterapia.
A Gastroterapia, intervenção psicossocial criada por nós e praticada em nosso jardim-escola, em Teutônia, a 110Km de Porto Alegre, é uma combinação de agricultura urbana, estudo e divulgação de espécies nativas, criação e execução de refeições temáticas e integração da gastronomia com as demais manifestações artísticas. No decorrer de três ou cinco horas, os comensais colhem, preparam e desfrutam de uma refeição, em meio a discussões prolíficas e uma ampla troca de experiências. A atividade tem como fim último o estabelecimento e o fortalecimento de relações sociais, já que a força de nossos vínculos com outras pessoas é o mais forte dentre todos os preditores de felicidade (Wiking, 2016).
A mesa tem a função primordial simbólica de “távola fraterna”, de lugar de trocas e nivelamento. A comensalidade, a partilha da refeição, é tida como o ato fundador da civilização (Montanari, 2007). O alimento é o principal fator de definição da identidade humana, pois o que comemos é sempre um produto cultural e, portanto, o recurso ideal para uma educação articulada, complexa e criativa, dando valor à interdependência e aos bens comuns (Petrini, 2016). A lentidão na fruição do alimento é condição sine qua non para a saúde mental das pessoas: “Nosso século, que começou e está se desenvolvendo sob o signo da civilização industrial, primeiro inventou a máquina e depois o tomou como seu modelo de vida. ‘Somos hoje escravos da velocidade, e sucumbimos todos ao mesmo vírus insidioso: a Vida Fast (ou seja, a vida acelerada), que destrói nossos hábitos, invade a privacidade de nossos lares, e nos força a nos alimentarmos dos fast-food. Que doses adequadas de prazer sensual garantido e o desfrute lento, a longo prazo, nos preservem do contágio das multidões que tomam o frenesi por eficiência” (Petrini, 1986).
Ainda para Petrini e todos os afiliados (como nós) ao movimento mundial Slow Food, a Gastronomia deve ser libertada de sua função elitista e espetacular, do fenômeno midiático-pornográfico a que foi reduzida: fanatismo nas pontuações para restaurantes e vinhos,  restaurantes convertidos em locais de culto à personalidade do chef, receita sempre perfeita, fotografável, de matéria-prima caríssima, crítica gastronômica sujeita à lógica do mercado, espetacularização forçada do alimento, competições entre cozinheiros que são corridas contra o tempo e construção de uma imago do restaurante como uma gaiola de loucos, onde o chef alterna aspereza e sedução, a matéria-prima é indiferente e os produtores são exibidos como animais de zoológico.
Tudo isso temos em mente ao conduzir a Gastroterapia: o exercício do hedonismo saudável e terapêutico, em que o comer e o alimento servem como veículos para a discussão de questões afetivas, ecológicas, artísticas e filosóficas e para a vivência do prazer que traz saúde ao corpo e tranquilidade ao espírito. Dentro da mesma lógica, adotamos os preceitos do Hygge em todos os nossos encontros.
Com um clima que obriga ao confinamento indoors durante metade do ano e uma das maiores cargas de impostos do mundo, a Dinamarca é considerada também um dos países mais felizes. Os dinamarqueses, segundo a European Social Survey, são os europeus que veem amigos e parentes com a maior frequência e que relatam a maior quantidade de sentimentos de calma e paz. O Happiness Research Institute, baseado em Copenhagen, atribui esses achados às vastas proteções sociais oferecidas – comuns aos demais países escandinavos, mas também a uma estratégia de sobrevivência própria dos dinamarqueses: o Hygge.
Embora a definição varie muito, entende-se o Hygge como um recorte temporal de relaxamento, descontração e aconchego, sozinho ou na companhia de alguns (poucos) seres amados; a arte de expandir a outras pessoas a própria zona de intimidade; um sentimento de lar, de segurança, de proteção ante às agruras mundanas; uma maneira de planejar e preservar a felicidade; algo que não se soletra: se vive.
Recentemente apresentado na mídia brasileira de grande circulação como “tendência na decoração de interiores”, o hygge não se restringe à escolha de móveis ou objetos para a composição de um ambiente. Na verdade, o hygge vai na contramão do consumo: há nele uma forte orientação e compromisso em saborear o presente, lembrar das coisas que costumamos desprezar como certas, dar um passo para trás e apreciar seu valor. O Hygge é humilde – escolhe o rústico no lugar do novo, o simples no lugar do trendy, a ambiência no lugar da excitação. Trata-se de apreciar os prazeres simples da vida que, na verdade, são de graça ou quase.
Hygge também nos lembra da diversão. O que aconteceu com ela? ficamos focados demais nos resultados de uma atividade. Trabalhamos para ganhar dinheiro; vamos à academia para perder peso. Nos matriculamos (e aos nossos pequenos) em cursos para construir currículo, passamos tempo com as pessoas para fazer networking.
Na Gastroterapia, levamos muito a sério e procuramos praticar todos os preceitos do Manifesto Hygge (adaptado de Wiking, 2016):

Atmosfera: buscamos a luz mais quente e aconchegante, meia-luz ou luz de velas, ou, melhor ainda, a luz do fogo.
Presença: estamos focados no presente; desligamos o celular.
Prazer: café, chá, doces, carnes, vegetais frescos e orgânicos. A comida hyggeligt é uma indulgência, uma pausa nas exigências rígidas da alimentação saudável. Pequemos juntos.
Conforto: fazemos uma pausa, ficamos à vontade. O dress code é casual e despretensioso.
Gratidão: melhor impossível – fazemos um esforço consciente para aproveitar e ser gratos pela comida, bebida e companhia.
Igualdade: “nós” acima do “eu”. Dividimos com equidade as tarefas, que se convertem em prazer. Homens e mulheres, adultos e crianças, experientes e iniciantes: a cozinha é para todos.
Harmonia: não competimos nem corremos contra o tempo; nossa cozinha não é um show de televisão. Somos amados e aprovados, não há razão para exibir conquistas; a vaidade é uma forma sub-reptícia de divisão. Ninguém fica no centro do palco ou monopoliza a palavra.
Trégua: deixamos o drama na porta; por ora, não discutimos assuntos polêmicos, mágoas de família nem perdemos tempo com reclamações excessivas.
Convivência: construímos memórias e evocamos a nostalgia dos momentos felizes já vividos em conjunto.
Proteção: esta é a nossa tribo, nosso lugar de paz e segurança.
  
Para participar de uma atividade da Gastroterapia, basta curtir nosso perfil no Facebook (https://www.facebook.com/gastroterapiateutonia) e fazer contato conosco via mensagem inbox. Nossa programação de eventos também consta do site http://ilgiardin.com.br/ por onde é possível inscrever-se. Como próximos encontros, teremos a “Funghi Fest: um menu alucinante” do dia 15/07, a partir das 11h, em que discutiremos o hygge enquanto elaboramos todo um menu a base de cogumelos localmente produzidos e uma edição especial de férias direcionada ao público infanto-juvenil, “Brincando com Fogo”, no dia 22/07, em que falaremos de aprendizagem na infância e assaremos todo o menu em fogueira ao ar livre.

A atividade começa pelo jardim
A "moral da história" da Gastroterapia

O estudo e a difusão das plantas nativas
 é sempre parte integrante da atividade

O objetivo final é a formação de uma comunidade de amigos

Jantar Hygge na Gastroterapia
Os anfitriões da Gastroterapia

*Médica psiquiatra especialista em saúde mental do trabalhador e gastrônoma formada pelo ICIF UCS

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pinceladas sobre o curso de vinhos do Piemonte

A jornalista e Sommeliére
Silvia Mascella Rosa,
na aula de ontem.
Enquanto preparo o post sobre o curso de vinhos do Piemonte, ministrado ontem pela Sommeliére Silvia Mascella Rosa na Vinho & Arte, vou relembrando de alguns pontos por aqui. Além de ser cenário dos vinhos Barolo e Barbaresco, também é a terra da Nutella, da Gianduia, do Eataly, do Vermute. E do Slow Food! Em 1986, na cidade piemontesa de Bra, Carlo Petrini  criou este movimento que, nos últimos 30 anos, vem se espalhando pelo mundo.

Há muitas coisas a contar sobre o que aprendi ontem. E confesso, recém estou começando  a falar as primeiras palavras desse idioma que é o vinho; como no aprendizado de uma nova língua, o início é lento, as palavras e percepções passam a ter sentido em conjunto apenas com a prática e o estudo. É incrível mesmo como, pouco a pouco, vou descobrindo este e aquele detalhe, percebendo nuances que antes desconhecia, sentindo curiosidade por participar de outros cursos e por aprender mais, por absorver a cultura do novo 'idioma'. E este é o ponto, para mim, além do prazer de um cálice de vinho: adentrar a cultura de que ele é parte, ouvir suas histórias e abrir janelas da imaginação para as paisagens do território.

 A aula de ontem foi especial em todos esses elementos: Silvia falou com dinamismo e alegria sobre os vinhos, mas transitou por outros campos piemonteses, a comida, as tradições, os aspectos históricos. Em alguns momentos, atravessava a sala, percorrendo o trajeto entre a apresentação de fotos em Data Show, de um lado, e os mapas, do outro. Trajetos dentro da Vinho & Arte, sim, mas especialmente percorridos, em primeiro lugar, dentro de si mesma, em seu conhecimento e lembranças vivenciadas e aprendidas pelas experiências de degustação no Piemonte. Com tal fluência e vivacidade que nos levou junto em seus relatos; fez com que os participantes, que lotaram as vagas, viajassem com ela pelos vinhedos, estradas, adegas, castelos e imagens de névoa e de sonho.

Em breve, post com mais detalhes e fotos. 
Amanhã, a postagem será da nossa autora convidada, a médica psiquiatra, chef e proprietária da Gastroterapia Michele Valent. 

Aguardem!!! Ontem li o texto da Michele, vi as fotos da Gastroterapia, e amei! 
Mais não conto, para deixar que fiquem curiosos! 

Com alegria,
Betina

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Aperitivo: algumas curiosidades sobre a cozinha do Piemonte


Fui pesquisar, depois de tanto tempo, a cozinha do Piemonte. E encontrei sites muito interessantes, um dos quais tem como foco buscar ingredientes e receitas históricos e trazê-los ao nosso tempo. A típica cozinha piemontesa pode ser dividida em duas categorias: a de receitas originadas da tradição nobre da Corte de Savoia, de um lado, e aquela das nascidas das tradições camponesas. No primeiro grupo, estão os pratos muito ricos, que eram servidos nos banquetes suntuosos da Corte. Dos camponeses, vinham as receitas realizadas com ingredientes simples, a exemplo da 'Bagna Caoda'. As duas essências do território, a rica, da corte de Savoia, e a pobre, do campo, contribuíram para a grande variedade de sua culinária. As receitas dessa região caracterizam-se sobretudo por seus sabores fortes, que bem são harmonizados com os vinhos do Piemonte. Sobre esses vinhos, aprenderei amanhã, no curso da Vinho & Arte a ser ministrado pela jornalista e Sommeliére Silvia Mascella Rosa. 

Se adentrarmos os tratados de cozinha piemontesa, vamos encontrar velhos conhecidos, como os 'Grissini', por exemplo, além de uma variedade de mais de 60 queijos, entre os frescos e os curados. O Gorgonzola, apesar de ser originário da Lombardia, tem no Piemonte, também, a outra das duas regiões definidas na "Denominação de Origem Protegida" pela legislação ("Consorzio"). No Piemonte, se destaca  como zona produtora  a cidade de Novara, mas outras também estão incluídas. As origens desse queijo podem ser conhecidas aquiO 'Tartufo bianco', os risottos e os doces como o 'Zabaione' e o 'Gianduia' também são parte desse conjunto de receitas e produtos típicos piemonteses. 

E há um grupo de receitas ao qual nunca resisto: os 'antipasti', quitutes e aperitivos que adoro preparar e descobrir. Na tradição do Piemonte, os 'antipasti piemontesi' ocupam lugar de protagonistas, relevância talvez herdada dos banquetes da corte de Savoia. 

Sigo pesquisando...Por enquanto, o deleite fica  neste site, fonte para a escrita do post de hoje.

Amanhã, o curso de vinhos do Piemonte, da Vinho e Arte, com referências sobre a gastronomia e a cultura da região. Imperdível! 

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Curso de Vinhos do Piemonte, na Vinho & Arte, com a sommeliére Silvia Mascella Rosa

Piemonte!
Fonte: divulgação Vinho & Arte
Bastou receber o contato da enóloga Maria Amélia Duarte Flores, hoje em torno do meio-dia, para ficar curiosa por reler materiais sobre a gastronomia do Piemonte.  Pesquisei  sobre seus pratos e produtos típicos em junho de 2012, época em que li sobre a "Bagna Caoda", espécie de fondue de anchovas, alho, azeite de oliva e manteiga, típica receita ancestral desta região do norte da Itália. Sobre os vinhos piemonteses, naquele período, li o suficiente para ter noções, mas ficou a vontade de um dia conhecer mais a respeito. Parece que este dia chegou!

Pois bem, o motivo do contato da Maria Amélia foi avisar do curso de vinhos do Piemonte, que acontecerá na Vinho & Arte nesta quinta-feira, 29 de junho de 2017. Lendo  sobre a programação do curso e a respeito de quem o ministrará, não tive dúvidas de que vai ser um aprendizado inesquecível. A bagagem e a expertise da ministrante, a força anímica do território e os vinhos a serem degustados são elementos que aguçam nossa imaginação. 
Abaixo, segue o post sobre o evento. A seguir, em próximas postagens ao longo da semana, o 'aperitivo' sobre os produtos e ingredientes piemonteses e suas tradições. Dos vinhos, provoco a curiosidade dos leitores com o texto da própria Sílvia Mascella Rosa, que terá muito a contar na quinta-feira!   

"Piemonte, Barolo e Barbaresco
Os vinhos dos reis!
Beviamo il Piemonte (brindemos o Piemonte)”

"Durante três anos em sequência viajei ao Piemonte como jornalista/degustadora para um evento chamado ‘Nebbiolo Prima’ - uma semana de degustações de manhã, tarde e noite. Impossível ter a soma exata dos vinhos, mas pelas minhas anotações devem ter sido aproximadamente 600 amostras de Nebbiolo (Barolo, Barbaresco e Roero) durante essas viagens. Isso fora os Barberas, Moscatos e Arneis que entremearam as refeições e visitas.

Assim, vou contar para vocês o que é o sabor do Piemonte, seu povo, sua gastronomia, seus castelos, tradições e paisagens e, é claro, como é a uva Nebbiolo e porque esses vinhos estão entre o
s mais especiais do mundo.

Venha degustar conosco!

Eu sou Silvia Mascella Rosa, sommeliére, bartender e jornalista e estarei com vocês na Vinho & Arte, com minha amiga Maria Amélia, no dia 29 de junho de 2017."

Curso e Degustação Premium - Vinhos do Piemonte
Uvas, DOC, DOCG e muitas curiosidades
Arneis, Dolcetto, Barolo, Barbaresco, Nebbiolo e Langhe.
Destaque para "Sito Moresco", de Angelo Gaja e uma seleção de raridades, algumas não disponíveis no mercado.

Data: 29 de junho, quinta-feira, 19h30 às 22h
Local: Vinho e Arte no Plaza São Rafael (Av Alberto Bins, 514 - Centro Histórico - Porto Alegre)
Valor: R$ 150,00
Incluso curso e certificado, tábuas de frios ao estilo italiano e seis vinhos ícones.


Reservas e informações:
51 99999 3168 - 3023 3345"

Participem vocês também!
Com carinho,
Betina
Edição da 'El Gourmet' sobre a Bagna Caoda, receita ancestral
que celebra as colheitas e a comensalidade
Posts do Serendipity in Cucina sobre a 'Bagna Caoda' e o Piemonte, de junho de 2012: